O herói do Liverpool que lutou uma guerra na África e disputou uma CONIFA

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Liverpool e Lincoln City se enfrentam nesta quinta-feira (24) pela terceira rodada da EFL Cup, a Copa da Liga Inglesa. A partida será no LNER Stadium, em Lincoln, e quem vencer avança na competição.

Sobre esse encontro, que não acontece desde 1961, nosso colaborador Marco Aurélio mandou uma curiosidade das boas: um dos poucos jogadores da história a jogar tanto pelo Liverpool quanto pelo Lincoln City foi o folclórico goleiro Bruce Grobbelaar, que ficou famoso por defender as traves dos Reds durante a era de ouro dos anos 80.

Mais do que um arqueiro fanfarrão e cheio de estilo do tipo que a gente tanto gosta, Bruce ainda conta com uma bela ficha corrida de fatos aleatórios. Ele, por exemplo, jogou uma partida da CONIFA (o Mundial dos países não-reconhecidos) pela Matabelelândia, uma região que busca autonomia no Zimbábue. Na ocasião, ele era treinador de goleiros, mas também foi inscrito como jogador e ficou 30 minutos em campo no confronto contra a Ilha de Chagos pela CONIFA 2018, disputada em Londres. O número de sua camisa era 96 em tributo às vítimas fatais do Desastre de Hillsborough, cujos desdobramentos aconteceram no alambrado atrás de seu gol. A Matabelelândia venceu por 1 a 0.

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Isso por si só já seria alternativo demais, mas as histórias envolvendo ele, o futebol e a Matabelelândia são mais profundas ainda. Nascido na África do Sul, sua família se mudou para a Rodésia (atual Zimbábue) quando ele tinha dois meses de idade. Sua infância e juventude foram bastante tranquilas e o esporte era uma de suas paixões. Em entrevistas, ele conta que na escola jogava rúgbi, críquete e beisebol (inclusive teria recebido uma bolsa para estudar nos EUA, mas recusou porque seu sonho era ser jogador de futebol).

Até que, em 1975, ele completou 18 anos e teve que prestar serviço militar obrigatório em meio à Guerra Civil da Rodésia (1964–1979). Bruce diz que suas primeiras missões foram no controle da fronteira com Moçambique, onde costumava trocar cigarros e chocolates com soldados inimigos. Até que um dia, um morteiro caiu próximo ao seu batalhão e as coisas mudaram de figura. Sua tropa foi enviada ao front e ele viveu os piores dois anos de sua vida.

Em uma entrevista à revista FourFourTwo, Bruce conta que a vontade de fazer carreira como jogador foi o que o manteve são em meio à tanta morte e brutalidade. Ele diz que não tem ideia de quantos pessoas matou nem quantas viu morrer  — e, pensando bem, é melhor nem pensar nisso.

Mas um dia ele foi autorizado a voltar para casa. Determinado a jogar futebol, ele deixou tudo para trás e foi para a África do Sul.

Bruce começou a carreira no Highlands Park e depois seguiu para o Durban City. Até que um dia ele recebeu uma carta do exército da Rodésia solicitando seu retorno ao campo de batalha. Passar por todo aquele inferno novamente era a última coisa que estava em seus planos. Então, surgiu a oportunidade de jogar pelo Vancouver Whitecaps, na milionária liga norte-americana (NASL). Foi seu passaporte para escapar de uma guerra da qual não queria fazer parte e, de quebra, conhecer de perto algumas das lendas do futebol mundial, como Cruyff, Beckenbauer e George Best.

Em seus dois anos na equipe canadense, o novato goleiro acabou atuando apenas em meia temporada, já que passou a temporada de estreia emprestado ao Crewe Alexandra, então na quarta divisão inglesa. Mas nesse meio tempo, agentes do Liverpool já estavam de olho em seu passe e, em 1981, veio o convite para defender os Reds.

Foi no clube inglês que Bruce viveu a melhor fase de sua carreira (e, provavelmente, a recíproca é verdadeira). Com ele sob as metas, o time de Anfield foi seis vezes campeão inglês (1981/82, 1982/83, 1983/84, 1985/86, 1987/88 e 1989/90), três vezes campeão da FA Cup (1985/86, 1988/89 e 1991/92), três vezes campeão da Copa da Liga (1981/82, 1982/83 e 1983/84) e campeão da Copa dos Campeões da Europa (1983/84).

No título europeu, aliás, ele foi o grande personagem da final. A partida contra a Roma terminou em 1 a 1 e a decisão foi para os pênaltis. Jogando em casa, a Roma aparentou nervosismo frente à sua torcida e Bruce ainda provocou o adversário com a famigerada “dancinha das pernas de espaguete”. Funcionou, e o Liverpool levou para casa mais um troféu.

Após mais de uma década nos Reds, ele deixou o clube em 1994 com uma longa lista de polêmicas nas costas e foi para o Southampton. Mas, no final daquele ano, o tabloide The Sun publicou uma denúncia de manipulação de resultados da época em que ainda defendia o Liverpool e sua carreira naufragou.

Ao fim da década de 90, ele passaria a jogar em clubes de divisões menores, como Plymouth Argyle, Oldham Athletic, Chesham United, Bury, Lincoln City e Northwich Victoria; sempre em passagens curtas e com pouquíssimos jogos disputados. Anos depois, as acusações contra ele foram consideradas infundadas.

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Reprodução/Plymouth Herald

Em 1999, Bruce pendurou a chuteira, voltou à África do Sul e iniciou uma breve carreira de treinador. Pegou o Seven Stars na zona do rebaixamento e o colocou entre os quatro primeiros da tabela. Em 2002, livrou o Hellenic do descenso e ainda se escalou para jogar a última partida do campeonato (mas, após 20 minutos, ele teve que ser substituído após quebrar a costela).

Depois disso, Bruce se tornou uma personalidade da mídia, participando de programas de variedades e de esportes. Chegou ainda a ser treinador de goleiros do Ottawa Fury na NASL (que não é a mesma da era de ouro da Soccer League) de 2014 a 2018.