O futebol fora dos trilhos

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O título do Operário Ferroviário na Série D do Brasileiro de 2017 de alguma forma ajuda a reacender um lado que vinha sendo esquecido no futebol brasileiro: o dos times de origem ferroviária. Pode não parecer, mas eles já foram bem mais importantes.

Em 2017, apenas o Operário Ferroviário e a Desportiva Ferroviária – eliminada por ele na série D – levaram o nome das “ferrovias” aos gramados em todas as séries nacionais. Isso é muito pouco para, de acordo com o livro Quando o Futebol Andava de Trem, de Ernani Buchmann, um futebol onde 82 times tiveram ou têm Ferroviário ou Ferroviária no nome. Isso sem contar equipes como Paulista de Jundiaí, ASA de Arapiraca e Noroeste de Bauru que também tiveram suas origens nas ferrovias, apesar de nunca adotarem o nome.

No entanto, o fato é que o “futebol ferroviário” já foi muito maior do que se imagina. Para se ter ideia, os terceiros maiores campeões do Ceará e do Paraná são “Ferroviários”; o maior campeão de Rondônia, idem. Também já conquistaram títulos no Maranhão e Alagoas, e vices em Goiás e Santa Catarina. Além de times sem muito sucesso em Pernambuco, Pará, Piauí, Rio Grande do Norte e São Paulo. Outros destaques vão para a Desportiva Ferroviária, segundo maior campeão do Espírito Santo, e o Operário Ferroviário, já citado anteriormente.

Um ponto importante sobre os “ferroviários” é que muitos ou passaram por fusões, como o Ferroviário do Paraná, que é um dos fundadores do Paraná Clube, ou mudaram de nome, como o Ituano (anteriormente conhecido como Ferroviário Atlético Ituano), ou estão licenciados, caso do Ferroviário de Rondônia.

Pode parecer São Paulo, Fluminense e Botafogo. Mas são todos ferroviários, respectivamente do Ceará, Rondônia e do Piauí

No entanto como explicar que, entre os citados, com exceção do Ferroviário do Ceará, Desportiva e do Operário, todos estão licenciados ou extintos? A explicação é simples e prova o quanto políticas públicas podem estar ligadas ao esporte. Neste caso, um dos principais motivos vem de quando governos federais privilegiaram as rodovias em detrimento as ferrovias. Como podemos ver abaixo um trecho de uma matéria de 2016 da revista Superinteressante:

“O País se afastou dos trilhos nos anos 1950, com o plano de crescimento rápido do presidente Juscelino Kubitschek, que priorizou rodovias. A construção de ferrovias era lenta para fazer o Brasil crescer “50 anos em cinco”, como ele queria. “Em seis meses, você faz 500 quilômetros de estrada de terra. Isso em ferrovia leva três anos”, diz Fabiano Pompermayer, técnico de planejamento e pesquisas do Ipea. Além disso, o lobby das rodovias foi forte. Desde a era JK, os investimentos e subsídios no setor são grandes, não só para abrir estradas como para atrair montadoras. Outro responsável foi o café, em baixa desde os anos 1930. Ele era transportado principalmente por trens, então várias empresas férreas faliram com a falta de trabalho. Em 1957, o governo estatizou as companhias ferroviárias. Desde então, o foco é o transporte de carga. Por isso, em 2012, os trens carregam só 3% dos passageiros do País (isso porque incluímos o metrô na conta)”.

A privatização e o sucateamento da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), responsável direta ou indiretamente pela existência dos “ferroviários” (boa parte, é verdade, nascido através das estradas de ferro dos respectivos estados), foi outro ponto importante no enfraquecimento dos times de ferrovias. A diminuição desse tipo de transporte obviamente levou a diminuição de trabalhadores que consequentemente leva a menos frequentadores e apoiadores desses times e/ou clubes. Os motivos da origem e manutenção deles explica um pouco essa queda.

“Fortalecidos pelo espírito da família ferroviária, esses clubes, quase sempre denominados ferroviários, construíram enormes estádios, conquistaram títulos expressivos e contavam em suas equipes com jogadores famosos. Foram dezenas de Clubes Ferroviários Esporte Clube ou Futebol Clube criados ao longo da existência das estradas de ferro. O dinheiro vinha das contribuições financeiras da Rede e das mensalidades dos funcionários, organizados em associações e que eram descontadas em folha de pagamento. A Rede entrava também com o terreno onde eram construídas as sedes, muitas vezes com piscinas, sauna, quadras esportivas e até estádios” (via Avante Fantasma).

O livro Quando o Futebol Andava de Trem traz um amplo panorama sobre o futebol nas ferrovias (Crédito: Reprodução)

A origem do Ferroviário Atlético Clube (em 1935), como podemos ver em site oficial, também retrata um pouco do que foi o começo do futebol nas ferroviais:

“No início da década de 1930, a RVC, antecessora da Rede Ferroviária Federal (RFFSA), instalou oficinas de manutenção de locomotivas, carros e vagões na então distante região do Urubu, precisamente onde hoje é a sede da Transnordestina, sucessora da Companhia Ferroviária do Nordeste (CFN), na Avenida Francisco Sá — tal logradouro corresponde à antiga Estrada do Urubu, importante via de comunicação com a Barra do Ceará, onde havia um hidroporto. À época, Fortaleza restringia-se praticamente ao seu centro histórico. Naquela área, ao longo dos anos, concentrou-se toda uma população humilde, na maioria fugida da seca, fomes e latifúndios do sertão. Não foi coincidência que, no intuito de servir-se da mão-de-obra barata, representada por essa população carente, instalaram-se na zona oeste da capital várias indústrias.

Com uma grande quantidade de tarefas e serviços para executar, o corpo diretivo da RVC determinou a realização de horas extras noturnas, das 18h às 20h, nas citadas oficinas do Urubu, visando assim recuperar mais locomotivas, carros e vagões. Encerrando-se o expediente normal às 16h25min, decidiram os operários mais jovens, sobretudo aqueles que moravam longe, aproveitarem o “intervalo forçado” para divertirem-se, passarem o tempo e jogarem o foot-ball, como chamavam. Cotizaram o dinheiro para a compra de uma bola e, armados de pás e enxadas, limparam um terreno vazio dentro das oficinas, tirando matos, arrancando tocos e nivelando-o. Para completar a construção do campo, confeccionaram traves a partir de tubos retirados de caldeiras de velhas locomotivas.

Daí em diante, no finalzinho da tarde, tornou-se sagrado o “racha” entre os operários nas oficinas do Urubu. Para maior deleite, improvisaram até dois times, Matapasto e Jurubeba, nomes de ervas, uma homenagem irônica dos proletários aos matos que havia no terreno e que deram tanto trabalho na preparação do campo. Com o sucesso das “peladas” veio a feliz ideia de organizar “algo maior”. Em reunião na casa do mecânico José Roque (o “Gordo”) os boleiros da RVC decidiram unir Matapasto e Jurubeba para formar um time de fato, capaz de jogar pela periferia nos finais de semana e até participar de campeonatos suburbanos. Dentro do óbvio, a equipe recebeu o nome de Ferroviário — apenas Ferroviário, por pouco não sendo chamado também de “Ferrocarril”, a exemplo de outros clubes sul-americanos oriundos de companhias férreas. Escolheu-se ainda um uniforme com listas verticais nas cores vermelha, preta e branca”.

Inclusive, o livro Ferroviário — Nos Trilhos da Vitória traz um bom panorama sobre a história do futebol ferroviário em geral. Porém, a maior referência vem do livro Quando o Futebol Andava de Trem, de Ernani Buchmann, já citado anteriormente.

Provavelmente o “futebol ferroviário” não voltará aos seus dias de glória; todavia, o título do Operário na Série D, a permanência da Ferroviária no Paulistão e o vice do Ferroviário do Ceará – tudo isso em 2017 – trazem a esperança de que, de alguma forma, esse recorte tão importante do futebol brasileiro volte aos trilhos.

Ônibus do Ferroviário Atlético Ituano. Atualmente apenas Ituano (Acervo de Nelson Gamberini/Internet)

NOTAS
O futebol nas ferroviais não se resume apenas aos trens. Os times com origem a partir dos bondes também já tiveram, sim, tiveram, pois praticamente todos estão extintos, grande importância. Entre eles o Tramway Cantareira de São Paulo, o Energia Circular de Salvador, o Sul América de Manaus e os Tramways de Recife e Fortaleza – os três últimos já foram campeões estaduais.

NOTAS 2
Entre os times de origem ferroviária está o clube de futebol mais antigo do Brasil, o Sport Club Rio Grande, que nasceu a partir da união das colônias alemãs, italianas e portuguesas e conseguiu seu primeiro estádio graças a um empréstimo da companhia ferroviária Compagnie Auxiliare de Chemins de Fer du Brésil.

NOTAS 3
Abaixo dois vídeos sobre a história do Ferroviário do Ceará e do Paraná, respectivamente:

NOTAS 4:
O futebol ferroviário, obviamente, não se resume ao Brasil. Mundialmente temos alguns times conhecidos como os Lokomotiv de Moscou (RUS) e de Sofia (BUL), e os Ferro Carril da Argentina e Uruguai, além do Ferroviário de Maputo (Moçambique).

Esse texto faz parte do TQVNQSSFNTIP (Tudo Que Você Nunca Quis Saber Sobre Futebol e Não Teve Interesse em Perguntar). Clique aqui e leia outros textos da série.

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