O dia em que o Barça quase caiu para a segunda divisão

El Mundo Deportivo
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Desde que foi criada, em 1928, a primeira divisão espanhola jamais testemunhou o rebaixamento de três equipes: Athletic de Bilbao, Real Madrid e Barcelona. Mas houve um ano em que o time catalão ficou a exatamente uma partida de conhecer as agruras da Segundona.

O ano em questão era 1942, em plena Segunda Guerra Mundial e sob a ditadura de Francisco Franco. Em uma temporada para esquecer, o Barça patinou como nunca visto antes e terminou numa vexatória antepenúltima colocação, ou seja, ficou em 12° dentre 14 times do campeonato.

Pelo regulamento na época, os dois piores do torneio, o lanterna Real Sociedad e o penúltimo Alicante CF, desciam sem escalas para a segunda divisão. Já Barcelona e Real Oviedo (o 11° da tabela) deveriam encarar os playoffs com o terceiro e quarto colocados da divisão de baixo – respectivamente Real Murcia e Sabadell – para decidir quem ficaria na divisão de elite.

Via Wikipédia

Essa situação era inédita para a equipe culé. Nem em sua pior fase nos anos 30, quando o fundador do clube Joan Gamper se matou em meio a dívidas causadas pelo Crash da Bolsa de 1929, seguida pela perseguição dos fascistas que culminou no fuzilamento do então presidente Josep Suñol e a consequente saída de jogadores fugindo da Guerra Civil Espanhola (1936-1939), o time tinha estado tão em baixa. A camisa azul-grená já era pesada naquela época, mas uma queda poderia ser fatal para o clube, que era visto pelos franquistas como um perigoso símbolo do nacionalismo catalão.

Apesar de tudo, o título

O jogo único entre Barça e Real Murcia foi disputado às 19h do dia 28 de junho, no estádio de Chamartín, então casa do rival Real Madrid. De um lado, um dos clubes fundadores da La Liga (a primeira divisão do futebol espanhol) e campeão da sua edição de estreia. E do outro, um time com apenas uma participação na elite e sem muito a perder. Esse é o tipo de situação que aterroriza qualquer time grande.

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Curiosamente, a partida mais importante para os catalães aconteceu uma semana após eles levantarem a taça da Copa del Generalíssimo de 1942 – a versão Franquista da Copa do Rei – em cima do Athletic de Bilbao, até então 4 vezes campeão nacional. O jogo terminou 4 a 3 na prorrogação, com o artilheiro Mariano Martín marcando o gol do título.

Essa situação esquizofrênica do Barcelona pode ser explicada pelo calendário da época. Com 14 equipes, os times jogaram apenas 26 partidas cada, entre 28 de setembro de 1941 a 5 de abril de 1942. O Barça teve um péssimo início de campeonato, com um empate e cinco derrotas consecutivas, e sofreu para se encontrar em campo.

A pressão e o nervosismo dificultaram as coisas e a troca do técnico Ramón Guzmán por Joan Josep Nogués, em janeiro de 1942, não surtiu o efeito esperado no curto prazo. Resultado: o time não mais saiu da zona dos playoffs.

Mas deu tempo para o Barça se encontrar na Copa del Generalíssimo, que aconteceu ao fim daquela temporada, entre 27 de abril até 21 de junho de 1942. A equipe culé perdeu apenas um jogo, na estreia contra o Terrassa CF, mas na volta meteu logo um 4 a 0 em seu estádio Camp de les Corts e deslanchou no torneio, superando inclusive o então campeão espanhol Valencia na semifinal.

Um pé na segundona

A situação e o ânimo dos jogadores do Barça já eram muito melhores naquele final de junho, mas isso não aliviou a tensão pelo jogo contra o Murcia, que logo nos primeiros minutos começou a dominar a partida. E aos 22 minutos da primeira etapa, eles abriram o placar com uma cobrança de falta do atacante Huguet. “Um tiro de canhão no ângulo direito que nem a esticada do goleiro Miró permitiu alcançar”, segundo narrou o jornal La Verdad.

Esse gol mandava o time azul-grená para uma inédita segundona. E o Murcia ainda poderia ter ampliado e piorado o inferno do adversário, mas o atacante Vilanova desperdiçou a chance.

Após o susto, o Barcelona se reergueu e o pesadelo d’El Fantasma de La B durou pouco – mais precisamente, apenas 4 minutos. Martín empatou aos 26 com um “soberbo chute que entrou pelo mesmíssimo ângulo”, como relatou El Mundo Desportivo. Com o jogo parelho, o juiz encerrou a primeira parte da peleja.

Na volta do intervalo, Martín, também conhecido como La Furia del Área, desencantou. Marcou o segundo dos culés aos 16 minutos e o terceiro aos 27. O quarto foi marcado por Sospedra aos 32, e o artilheiro Martín tratou de fechar a goleada aos 44 minutos. Um 5 a 1 considerado pelo La Verdad como um resultado “enganoso”, já que o passeio teve seus momentos de tensão e taquicardia de ambos os lados.

Os times voltariam a se enfrentar dois anos depois, na temporada 1944-1945, quando o Murcia finalmente subiu para a primeira divisão. Na ocasião, houve um empate em Múrcia por 1 a 1 e uma vitória do Barça por 1 a 0 em Camp de les Corts.

Aquela temporada também sagraria o Barcelona campeão da La Liga pela segunda vez em sua história. Nos anos seguintes, o time catalão ainda alcançaria dois bicampeonatos (1947-1948 e 1948-1949; e 1951-1952 e 1952-1953) antes do Real Madrid dominar o cenário nacional e continental nas décadas de 1950 e 1960.

Os quatro gols de Mariano Martín salvaram o Barcelona de um vexame histórico (Site Oficial)
Fonte Murcia Digital El Periódico Murcia Mania
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