O dia em que, meio sem querer, entrei campo ao lado de Valdivia

Imagem: Acervo pessoal
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Imagine você, torcedor de um grande clube, fanático, criança (já quase adolescente), passando por vários anos de gozações rivais com eliminações e rebaixamentos, tendo a oportunidade de ir ao estádio ver o seu time do coração atuando. Pois bem, agora adicione um ingrediente a mais: você é de um cidade pequena e teoricamente não teria condições de poder realizar esse sonho.

A história é exatamente a deste que vos conta, um garoto que sempre quis conhecer o Estádio Palestra Itália – e, consequentemente, ver o Palmeiras jogar. Mesmo que o time não fosse o de outros tempos de glória, o sentimento era de como se estivesse vendo a melhor equipe do mundo.

Graças ao convite de um amigo, eu tive essa oportunidade de ouro com mais um amigo nosso, que possuía o mesmo sonho. Além disso, outro ingrediente foi adicionado pouco antes de irmos: o pai de nosso amigo conseguiu para os três jovens amigos a chance de entrar em campo com os jogadores.

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Ao saber dessa notícia, logo perguntei com qual dos jogadores eles estavam pensando em entrar. Eles me responderam sem hesitar: Diego Cavalieri e Paulo Baier. Pois bem, era a exata resposta que eu esperava, pois assim eu poderia entrar com Edmundo em campo.
Eu não cabia dentro de mim de tanta ansiedade, de poder ver o Palmeiras em casa e entrar em campo ao lado do Animal. Seria animal.

Pouco antes do jogo foi anunciado que Edmundo não jogaria devido a uma lesão – em seu lugar, entraria Enilton. Com isso, minha atenção automaticamente foi para o segundo jogador mais conhecido daquele time, o pentacampeão Juninho Paulista.

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Imagem: Acervo pessoal

Sendo assim, partimos da pacata e simpática Santa Rita do Passa Quatro no dia 26 de novembro de 2006 com destino a São Paulo, lar da Sociedade Esportiva Palmeiras, dono do Estádio Palestra Itália, para assistirmos a Palmeiras ante o Internacional pelo Campeonato Brasileiro.

Mesmo com alegria estampada em nossas faces juvenis, havia uma preocupação no ar, pois o Palmeiras ficaria em situação complicada na luta contra o rebaixamento para segunda divisão dependendo de uma combinação de resultados e estava enfrentado o forte Inter, campeão da América, em seu último jogo antes da viagem para a disputa do Mundial de Clubes daquele ano.

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Imagem: Acervo pessoal

Chegando ao estádio, outra surpresa: fomos visitar a sala de troféus do Palmeiras antes de nos dirigirmos ao foço do jardim suspenso, local em que ficamos aguardando junto de outras crianças até que foi autorizada nossa entrada ao túnel que dava acesso ao gramado. Antes de entrar, um aviso ao inocente garoto do interior: nada de máquinas fotográficas e nem mesmo bonés.

(Ou seja: é por isso que não temos imagens específicas do momento.)

Entramos em campo, pisamos no gramado, a pouco torcida que se reunia aquele dia no estádio aplaudia nossa entrada como se fossemos os heróis daquele domingo à tarde. Logo veio a vaiamm: entravam em campo os campeões da América de 2006 comandados pelo técnico Abel Braga. Ao meu lado, passava o volante Fabinho (entraria no segundo tempo) e eu tive a chance de brincar com o volante. Disse que iríamos ganhar o jogo, e eles, o Mundial.

Algum tempo depois a explosão. Entrava em campo o esquadrão palestrino, e eu logo me pus a procurar por meu jogador. Eu muito nervoso, tentei me aproximar, mas várias crianças tiveram a mesma ideia. Devida à aglomeração, Juninho foi um tanto rude conosco, falando que não conseguia passar. Fiquei assustado com a atitude do jogador e decidi ir a encontro de outro atleta.

Quando eu já havia perdido a esperança de acompanhar algum atleta, eis que surge um simpático gringo, com grandes madeixas louras e que poucas crianças deram importância. Agarrei-me ao braço dele. Quando me viu, deu um tímido sorriso de canto de boca. Esse jogador era Jorge Luís Valdívia Toro, que chegou ao Palmeiras indicado por Tite. O resto da história, a maioria das pessoas já conhece.

Logo veio uma voz para que deixássemos o gramado e voltássemos para o túnel, e assim fizemos. Rumamos para o camarote onde veríamos ao jogo. No caminho, ouvi duas vezes a torcida do Palmeiras vaiar algo e juntamente vários xingamentos nos corredores do Palestra Itália. Quando chegamos aos nossos assentos, eu não sei o que me chamou mais a atenção: o placar que apontava Palmeiras 0 x 2 Internacional ou a pessoa presente logo ao meu lado dentro do camarote, o recém-eleito governador de São Paulo, José Serra.

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Imagem: Acervo pessoal

Dentro do camarote, um nome era dito por cada um dos adultos ali presentes, Alexandre Pato. O jovem de apenas 17 anos havia feito o primeiro gol do Internacional e estava cotada para estar na lista do jogadores que iriam para o Mundial de Clubes daquele ano. Pouco tempo depois, passei a me preocupar com o jogo que acontecia diante dos meus olhos e também no placar eletrônico que anunciava o resultado de Goiás x Ponte Preta, já que, uma vitória esmeraldina garantia o Palmeiras na primeira divisão de 2007 com uma rodada de antecedência.

Pouco tempo depois veio o terceiro gol colorado: jogada de Pato, gol contra do zagueiro Daniel. A torcida palestrina, que já estava brava, agora se encontrava furiosa. “Se o Palmeiras não ganhar, o pau vai quebrar.”

E quebrou. No último minuto do primeiro tempo, mais uma jogada de Alexandre Pato, servindo dessa vez Iarley, que fez o jogo virar goleada e fez com que boa torcida uniformizada do Palmeiras se dirigisse logo à frente do camarote.

Parte da torcida tentou invadir o espaço para agredir os dirigentes, em especial Salvador Hugo Palaia, alvo principal da ira das uniformizadas. O senhor governador aproveitou a deixa e foi embora, e nós tivemos que assistir parte do segundo tempo dentro do camarote destinado às pessoas com necessidades especiais para que não sobrasse para os inocentes qualquer tipo de violência. Foi nesse local que vimos a expulsão de Juninho Paulista (carma?) depois de confusão com Elder Granja, também expulso.

Logo voltamos ao nosso assento original e de lá vimos o gol de honra palestrino, marcado por Fabiano Eller, contra a própria meta colorada. Pensei comigo nesse momento: “Foi só o Serra ir embora que o Palmeiras fez o gol, já sabemos quem é o pé-frio”. Em seguida, veio um alento diante de tudo aquilo: o Goiás vencera a Ponte Preta. Com isso, não seriamos rebaixados mais uma vez.

No caminho de volta para casa, pouco importava o resultado. Comentávamos entre nós o domingo mágico que tivemos, digno de relato para o filho, neto ou sobrinho, tão amante de futebol como aquele garoto do interior que hoje termina esse texto como se estivesse ainda dentro do estádio, naquele 26 de novembro de 2006.

Ficha Técnica
Palmeiras 1 x 4 Internacional

PALMEIRAS
Diego Cavalieri (Sérgio); Paulo Baier, Daniel, Dininho e Márcio Careca (Michael); Wendel, Marcinho Guerreiro, Valdívia e Juninho Paulista; Marcinho (Roger Bernardo) e Enílton
Técnico: Jair Picerni

INTERNACIONAL
Clemer; Elder Granja, Índio, Fabiano Eller e Hidalgo; Edinho, Wellington Monteiro, Vargas (Fabinho) e Fernandão; Alexandre Pato (Adriano) e Iarley (Rentería)
Técnico: Abel Braga

Local: Estádio Palestra Itália, em São Paulo (SP)
Público: Algo em torno de 8 mil espectadores
Árbitro: Clever Assunção Gonçalves (MG)
Assistentes: Marco Antônio Gomes (Fifa-MG) e Alessandro Rocha (Fifa-BA)
Cartões amarelos: Marcinho Guerreiro (P), Paulo Baier (P), Fabinho (I)
Cartões vermelhos: Juninho Paulista (P), Elder Granja (I),
Gols: Alexandre Pato, ao 1min, Fernandão, aos 4min, Daniel (contra) aos 34min, Iarley, aos 45min; Fabiano Eller (contra), aos 29min do segundo tempo

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