O Corneta Europa gosta de futebol europeu. E decidiu escrever um livro que mostra isso

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Presente no Twitter desde julho de 2009, o perfil Corneta Europa é bastante conhecido entre os fãs de futebol presentes na plataforma. O motivo, como o nome deixa claro, são seus comentários quase sempre desabonadores a respeito de jogadores e clubes de destaque em países como Espanha, Itália, França, Portugal e Alemanha, além de centros de menor projeção do continente.

Mas isso não quer dizer que o Corneta Europa não goste de futebol europeu. Pelo contrário.

Prova disso é o livro-reportagem À Sombra de Gigantes: Uma viagem ao coração das mais famosas pequenas torcidas do futebol europeu, escrito pelo jornalista gaúcho Leandro Vignoli – justamente o responsável pelo perfil. O projeto relata o cotidiano de clubes de grandes centros da Europa, mas que são costumeiramente ofuscados por conterrâneos maiores.

A obra aborda equipes como Espanyol, Rayo Vallecano (ambos da Espanha), Munique 1860, Union Berlim, St. Pauli (da Alemanha), Milwall, Fulham, Leyton Orient (os três da Inglaterra), Belenenses (de Portugal) e Red Star (da França), entre outros. Para tal, Vignoli passou 50 dias na Europa, entre fevereiro e abril de 2017, assistindo a 15 jogos in loco.

Red Star, em Paris (Crédito: Divulgação)

Ao chegar na Europa, o projeto ganhou corpo. “Eu já tinha essa ideia fazia um tempo, só que com bem menos times. Como o projeto virou essa coisa maior depois que eu planejei o roteiro, o plano sempre foi o de voltar para escrever um livro”, contou Vignoli, jornalista que já foi locutor da rádio Unisinos FM, social media do SporTV e repórter do Comitê Rio 2016, entre outros trabalhos.

De forma a pagar o lançamento, Vignoli iniciou uma campanha de crowdfunding. Para isso, deixou de lado o anonimato do Corneta Europa no Twitter, e não se arrepende. “Talvez perca alguma graça um personagem fake que não é mais fake, mas quero acreditar que as pessoas soubessem que era alguém por trás daquilo, não o Puyol de verdade”, brinca, em referência ao ex-zagueiro espanhol cujo rosto sempre foi a identidade da conta na rede social.

A meta para o lançamento era arrecadar R$ 15 mil até o dia 15 de setembro – a quantia foi atingida antes mesmo do final de agosto, mas a arrecadação segue até o prazo final. A ideia é que o livro seja lançado entre o fim de outubro e o começo de novembro, com tiragem inicial de 600 exemplares.

Em meio à campanha de financiamento do livro, o Última Divisão conversou por e-mail com Leandro Vignoli. Confira:

Última Divisão: Na época da viagem, você já tinha a ideia do livro em mente? Ou a ideia veio depois?
Leandro Vignoli: Eu já tinha essa ideia fazia um tempo, só que com bem menos times. Como o projeto virou essa coisa maior depois que eu planejei o roteiro, o plano sempre foi o de voltar para escrever um livro, sim.

UD: Ao longo da viagem, que tipo de diferença – cultural, esportiva – você percebia entre os clubes? O que dá para destacar da relação entre os torcedores e os clubes retratados no livro?
LV: São várias. As torcidas na Alemanha cantam o tempo inteiro e não vaiam ninguém – nem o adversário. É bonito, mas parece meio alheio ao jogo. Na Inglaterra não tem essa cultura dos ultras, então deixa a coisa mais personalizada e o xingamento rola solto. O inglês parece um torcedor mais reativo ao que acontece no campo – ele não vai ficar pulando e cantando com o time tomando piaba, por exemplo. Na Itália é um misto: o Torino é o berço dessa tradição de ultras na Itália, mas eles cornetam também. É um espectro muito parecido com o do Brasil, de caos e demência quando vence e “acabou a paz” quando perde. Mas em comum entre todos é que eles acham os clubes uma coisa especial – inclusive o fato de quase nenhum dos times ganharem algo é que faz deles algo especial.

UD: Em geral, a gente vê uma relação de antagonismo entre clubes maiores e menores – tanto lá como aqui. Você acompanhou alguma relação diferente neste sentido?
LV: Existem casos e casos. A torcida do Munique 1860 odeia o Bayern com força, assim como a relação do Espanyol e Torino com Barça e Juve. Uma coisa interessante foi notar o quanto a torcida do St. Pauli detesta o Hamburgo. É algo praticamente não comentado, já que se explora mais a questão do ativismo social do clube – mas é uma animosidade real, que não é muito recíproca do HSV na real. No mais, é uma relação mais asséptica na maioria dos casos. Ninguém no Rayo, por exemplo, dá a mínima para o Real Madrid, pois são três mundos de distância, assim como alguns torcedores do Red Star até simpatizam com o PSG.

Rayo Vallecano, em Madri (Crédito: Divulgação)

UD: A respeito do livro em si: antes do crowdfunding, existiu alguma conversa com editoras?
LV: Fiz o contato com algumas, mas nunca foi uma conversa que foi para frente. Editora é ótimo porque poupa um enorme trabalho em fazer tudo sozinho, mas ao mesmo tempo não é mais impossível lançar sem elas. E o financiamento coletivo acaba funcionando como um teste também, para descobrir se há público interessado. Parece que sim.

UD: A partir da meta do crowdfunding batida, em quanto tempo você prevê a publicação? Algum “tour” de lançamento previsto?
LV: A campanha tem de ir até o dia 15 de setembro. Aí mais o tempo da produção do livro – capa, revisão, etc. – ,suponho que, no final de outubro ou começo de novembro, ele deve ganhar vida. Eu adoraria fazer uma “tour”, mas eu não previ isso no orçamento (risos). Mas certamente em Porto Alegre, que é de onde eu sou, e SP, que é onde eu moro, pode rolar uma Brahminha.

UD: Você possivelmente é ou vai ser cobrado a respeito de um projeto semelhante a respeito de Brasil ou América Latina. Algo em mente nesse sentido?
LV: Eu quase que incluí Montevidéu e Buenos Aires, que tem dezenas de clubes “à sombra de gigantes”. Mas o abismo financeiro, embora enorme para nossos padrões, não dá para comparar com a Europa. Barcelona e Real Madrid e Arsenal tem cada vez mais torcedor na Indonésia, China ou sei lá onde. A globalização parece ótima, na teoria, mas ninguém em Singapura torcerá para o Leyton Orient – o que só faz o abismo crescer, e eu tento falar disso um pouco também. Onde estamos, para onde vamos, com essa tamanha discrepância. Aqui, por enquanto, estamos a salvo de algum árabe comprar um time sul-americano – embora existam outros problemas que também daria um livro. No Brasil eu assistiria um jogo de cada um dos Estaduais, o que talvez não fizesse sucesso para todos aqueles que pedem o fim dos Estaduais (risos).

UD: Por fim, o lançamento do livro quebra boa parte do anonimato a respeito de um baita personagem nas redes sociais. Você vê um ônus nisso, algum risco? Acha que vai ser mais cobrado pelo fato da atuação contra a “arigozada” do futebol europeu?
LV: O perfil cresceu de uma forma que muita gente passou a associá-lo como o “cara que não gosta de futebol europeu”, quando, na real, eu sempre quis só baixar a bola dos exageros, mostrar contradições, apontar os “arigós”. Refletir que um cara como o Fellaini é analisado com condescendência só pelo fato de ser europeu. Só que eu faço isso no Twitter, não tem como fugir muito de certas caricaturas – toda galhofa tem um fundo de verdade. Talvez perca alguma graça um personagem fake que não é mais fake, mas quero acreditar que as pessoas soubessem que era alguém por trás daquilo, não o Puyol de verdade (risos). O bônus é que muita genta já achava sem graça, e agora tem quem culpar.

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