O Coritiba das fusões

0 780

Publicidade

Uma das principais características do futebol paranaense diz respeito a formação de seus clubes. O estado, principalmente no interior, é o lar de equipes que se mudam de cidade sem muita cerimônia. Além disso, não é raro ver times que se fundem uns com os outros, procurando força e desapegando-se da tradição (que nem sempre já existe) e de suas torcidas.

O caso mais conhecido é o do Paraná Clube. Fruto da junção entre Colorado e Pinheiros em dezembro de 1989, a equipe da Vila Capanema é, na verdade, o produto final da união entre cinco agremiações: Britânia, Palestra Itália, Ferroviário (que viraram o Colorado), Savoia e Água Verde (“pais” dos pinheirenses). E mesmo outra força do futebol local, o Atlético-PR, é fruto do casamento de dois times, América e Internacional.

Pouco se fala do Coritiba nesse ínterim. No entanto, o clube do Alto da Glória também tem sua participação na “mistureba” de times que forma o futebol paranaense – inclusive no noticiário das últimas semanas. O Coxa, aliás, já esteve para ser Paraná Clube, e quase se uniu exatamente ao Atlético, seu principal rival.

Charge da revista Placar em 1988 (Reprodução)
Charge da revista Placar em 1988 (Reprodução)

Uma das primeiras vezes em que o nome do Coritiba esteve envolvido com força em tal proposta foi em 1988. Na época, a cidade de Curitiba contava com quatro clubes de destaque: Atlético-PR, Colorado, Pinheiros e o próprio Coritiba. A capital paranaense discutia se era capaz de comportar tantos times, com a resposta pendendo para o não. E mesmo com três títulos paranaenses no currículo (1967, 1984 e 1987), o Pinheiros parecia o mais disposto a interferir no cenário.

Começou-se então um flerte com o Coritiba, que vinha em decadência desde o título do Campeonato Brasileiro de 1985. Após a taça conquistada sobre o Bangu no Maracanã, o Coxa entrou em grave crise financeira, que nem mesmo a promoção de bingos promovida por seus diretores atenuou. No Campeonato Paranaense, não conquistou títulos. A fusão então parecia ser a resposta para fortalecer coxas-brancas e pinheirenses

Inicialmente, nasceria o Coritiba Pinheiros Futebol Clube, que teria (por exigência azul) um pinheiro ao lado do escudo coxa-branca – havia também a possibilidade de a fusão resultar em um novo time, chamado Paraná Clube, com as cores verde, azul e branca. No acordo que formaria uma possível potência paranaense, o Coritiba entraria com a tradição no futebol, e o Pinheiros entraria com seu grande quadro de sócios (cerca de 60 mil na época).

A diretoria do Coritiba, liderada pelo presidente Bayard Osna, não aceitou a exigência de alteração no escudo e vetou a negociação. Curiosamente, uma pesquisa da época indicou grande número de torcedores coxa-brancas entre os sócios do Pinheiros – a rigor, 53,8% dos torcedores entrevistados eram usuários da sede social do rival. Por isso, havia o temor no Pinheiros de que a fusão engolisse o patrimônio social do clube.

No início de 1989, durante reunião do Conselho Arbitral da Federação Paranaense que definiu o regulamento do Campeonato Paranaense, o Pinheiro acabou se desentendendo com principais clubes do estado. Em represália, encerrou as negociações com o Coritiba. O clube da Avenida Kennedy partiu então pra cima do Colorado – em tese, o mais modesto dos quatro grandes clubes curitibanos. O resto é história.

Mas os anos se passaram, e a crise do Coritiba não foi embora. Em 1989, a equipe recusou-se a jogar contra o Santos na última partida da primeira fase do Brasileirão (motivo: dependia do resultado das partidas de Portuguesa, Goiás, Grêmio, Fluminense e Cruzeiro para definir sua classificação, e não queria jogar antes dos rivais como estava agendado). Acabou punido com a perda de pontos e foi rebaixado. No ano seguinte, teria caído para a Série C, se a CBF não tivesse cancelado a terceira divisão nacional de 1991. Em 1992, garantiu o retorno à primeira divisão, sendo só o 12° dos 12 promovidos da segunda divisão.

O retorno à elite não encerrou o calvário do Coxa, que foi apenas o sétimo colocado no Campeonato Paranaense de 1992. Então, pouco antes do Brasileirão de 1993 (que começaria em setembro e voltaria a ser disputado no segundo semetre), surgiram novos boatos envolvendo a fusão do clube. O alvo, desta vez, seria o pior rival.

A notícia apareceu em agosto daquele ano. O Atlético-PR também passava por uma delicada situação financeira. Na época, inspirados pelo sucesso do jovem Paraná Clube (campeão estadual em 1991 e 1993), os dois clubes teriam iniciado uma aproximação. Evangelino Neves (ainda presidente do Coxa) e José Carlos Farinhaque (mandatário-mor do Furacão) logo desmentiram a história, e viram seus times serem rebaixados no mesmo ano.

A recuperação do Coritiba, assim como a do Atlético-PR, só veio na segunda metade da década de 90. Desde então, os dois times freqüentaram quase que ininterruptamente a Série A – o Coxa esteve na Série B em 2006 e 2007, e voltou revelando nomes como Henrique, Pedro Ken e Keirrison. O Atlético, modelo de gestão exportado para outros estados, foi campeão brasileiro em 2001. E nunca mais se falou em “Atletiba FC”.

Você pode gostar também
Comentários
Carregando...