O Bolívar da Libertadores não é zebra, e pode incomodar mais

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Você é um daqueles que reclamou do nível técnico da Copa Libertadores da América de 2014? Não deveria. Embora nenhum time brasileiro tenha chegado às semifinais, a competição reservou boas surpresas. Uma delas, o Bolívar, eliminado nesta quarta-feira (30) diante do San Lorenzo.

”La Academia”, como é conhecido o time de La Paz, garantiu a melhor campanha da história do futebol da Bolívia na competição, que jamais havia colocado um clube entre os quatro melhores do torneio. Até então, Jorge Wilstermann (1981), Blooming (1985) e o próprio Bolíviar (1986) já haviam chegado às semifinais, mas com outro formato de competição – as semifinais eram disputadas em dois triangulares, dos quais saíam os vencedores para as finais.

Mas como explicar a presença do Bolívar entre os quatro primeiros colocados da competição, deixando para trás equipes como Flamengo, Emelec, Léon e Lanús? A altitude? Não exatamente – até porque os 3,6 mil metros de altitude de La Paz sempre estiveram lá, e nunca levaram os clubes paceños (o gentílico referente à cidade) tão longe.

Por isso, o blog pediu respostas a quem entende: Freddy Suárez, jornalista boliviano, apresentador do portal Terra para a América Latina. Gentilmente, Freddy aceitou o convite e explicou o que colocou o Bolívar entre os semifinalistas da Libertadores. Uma dica: mais importante que os números da altitude são os da Brightstar. Por isso, não se surpreenda se o time aparecer novamente nos próximos anos entre os melhores da América do Sul.

O Club Bolívar, entre os grandes da América

Por FREDDY SUAREZ

Siga no Twitter: @fredo_terra

O futebol boliviano tentou neste ano, por meio da Copa Libertadores, recuperar a glória alcançada em 1994, quando participou da Copa do Mundo disputada nos Estados Unidos. Passaram-se 20 anos desde então, e o torneio continental ofereceu esta chance ao Bolívar de La Paz.

La Academia se juntou ao Jorge Wilstermann (Cochabamba) e ao Blooming (Santa Cruz de La Sierra) como as únicas três equipes bolivianas a chegar às semifinais desta competição internacional. Os celestes, porém, são os que contam com mais participações internacionais em seu cartel – 28 Copas Libertadores, 6 Copas Sul-Americanas e uma Copa Conmebol escrevem esta trajetória.

Mas como o Bolívar voltou ao primeiro plano do futebol internacional?

Afundada em uma grave crise e com dívidas muito altas, a instituição praticamente hipotecada encontrou a salvação em 15 de outubro de 2008, data de um marco do futebol boliviano: a conversão de La Academia em uma empresa bem sucedida de forma transparente. O Bolívar e a Bolívar Administración, Inversiones y Servicios Asociados (BAISA) chegaram a um acordo mediante contrato para cumprir com este objetivo.

(Crédito: Willie T. Jacobs/Wikimedia)

Marcelo Claure Bedoya (foto ao lado), presidente da BAISA, é um empresário boliviano radicado nos Estados Unidos e se encarregou de comandar este projeto com uma nova forma de administrar economicamente um clube de futebol para que, em 20 anos, seja autossuficiente. O convênio tem um prazo: até 2028, aportar US$ 1 milhão por ano para a equipe principal. Já se investiu mais da metade de um total de US$ 20 milhões.

De onde sai este dinheiro? “O dinheiro é proveniente de meus fundos pessoais”, diz Claure. O milionário boliviano criou em 1997 a Brightstar, uma empresa especializada em comunicação sem fio com base em Miami. A operação cresceu desde então, com operações em 50 países e geração de mais de 4 mil empregos. A decisão de investir no Bolívar foi circunstancial, para salvar o clube de seu iminente fechamento e por sua paixão pelo futebol.

Posta em prática, a sociedade iniciou a reformulação do elenco e a contratação de uma legião de espanhóis como treinadores, Miguel Ángel Portugal (2012 a 2013) e Xabier Azkargorta (desde 2014), além dos jogadores Juan Miguel Callejón, José Luis Sánchez Capdevila e Edu Moya. Além disso, La Academia paceña elevou os preços do mercado nacional desde que passou a ser administrado pela BAISA em 2008. Nos dois últimos anos, seus investimentos têm subido – a tal ponto que, na temporada anterior a 2014, seu orçamento anual superou os US$ 2,5 milhões, com uma planilha mensal de mais de US$ 200 mil. É a equipe mais cara da Bolívia.

O adeus da Libertadores 2014

O Bolívar realizou uma boa campanha até a pausa da Libertadores para a Copa do Mundo no Brasil, quando os mais apaixonados e fanáticos torcedores bolivaristas ficaram deslumbrados com os resultados e ofereceram seu apoio incondicional; agora, eles podem se sentir desiludidos e decepcionados por não chegarem à final da Copa Libertadores de 2014, porque faltou planejamento por parte de seus dirigentes e da comissão técnica para concretizar este sonho.

Este Bolívar versão 2014 não conta com o melhor plantel de sua história – conta com sua equipe mais cara. E apesar de ter chegado muito longe, coloca em evidência que isto não foi suficiente para conquistar o título. O adeus ao torneio internacional deverá servir para repensar o que deixou de ser feito e tentar corrigir os equívocos que levaram a sua eliminação de uma participação que poderia ter sido épica para o futebol boliviano.

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