O artilheiro (mais injustiçado) do país

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Fausto é um goleador nato. Com bom posicionamento, faz gols com a (aparente) facilidade de um atacante bem calibrado. O problema é que não importa quantos gols faça, o camisa 9 do Linense não aparece em nenhuma das famosas listas de artilheiros do Brasil. Tudo isso porque ele atua na segunda divisão de uma liga regional, a Série A-2 do Campeonato Paulista.

Apesar do sentimento de injustiça, Fausto não desiste e segue marcando. No dia em que atendeu o Última Divisão para uma entrevista exclusiva, o atacante havia passado em branco na derrota do Linense para o PAEC, mas ainda era o artilheiro do campeonato, com 15 gols em 16 partidas. Hoje, Fausto soma 18 gols em 18 jogos, média de um por partida que ainda não é suficiente para colocá-lo nas principais listas de artilheiro do país. Uma pena.

UD: Este ano você tem conseguido manter a média de quase um gol por jogo. Você acha que dá para repetir o feito da temporada 2008, quando chegou a ter mais de um por partida?
Fausto: Em 2008, foi um campeonato bem atípico. Afinal, disputar 24 partidas e marcar 25 gols não é muito comum, é uma média bem alta. Minha meta hoje é manter essa média (de um por jogo) mesmo sabendo que é difícil. Se ela baixar um pouco, não vou ficar me cobrando e botando pressão em cima porque sei que é um número muito difícil de alcançar. Por isso ter 16 jogos com 15 gols é uma média muito interessante também.

UD: E o que você acha daquelas listas de artilheiro do Brasil, que desvalorizam um pouco quem joga em campeonatos como a Série A-2 do Paulista?
Fausto:
É uma pena, porque a A-2 é muito mais forte do que muito Estadual aí disputado por time grande da Série A do Brasileiro. Você pega por exemplo o Guarani, que manteve a base do acesso no ano passado (no Brasileiro), com o mesmo goleiro Douglas, com o mesmo pessoal da defesa Dão e Neto, no meio Walter Minhoca, no ataque Fabinho e Ricardo Xavier. Todo esse pessoal jogou a Série B e fez um baita de um campeonato. Perderam os laterais, mas é uma equipe que pode terminar essa rodada na zona do rebaixamento, além de já estar ‘eliminado’. Outro exemplo é o Votoraty, que vem fazendo uma campanha muito boa na Copa do Brasil e também está brigando pela classificação. Então, é uma pena eles não contarem a A-2, já que ela é uma divisão muito mais forte que muito Estadual que tem times da primeira divisão do Brasileiro.

UD: Muita gente da imprensa te procura por causa desse título, de artilheiro do Brasil?
Fausto:
Eu não sei como eles fazem esta lista, mas hoje (domingo retrasado) eu dei uma entrevista para a Rádio Gaúcha. De fora de São Paulo, acho que só eles me procuraram. Mas o pessoal tem perguntado sobre isso, sim. É bem legal…

UD: Claro, isso te dá uma boa visibilidade, né? Inclusive, em 2008, você estava pau a pau com Kléber Pereira, Alex Mineiro…
Fausto:
Verdade, eu cheguei até a liderar. Quando eu fiz o 33º gol, eu estava na ponta, acho que dois ou três na frente deles. Mas depois fui emprestado para o Goiás e tive pouca oportunidade. Das 13 rodadas que fiquei lá, só joguei quatro, sendo só uma como titular, naquele jogo em Gama contra o São Paulo, quando eles foram campeões. Eu acho que faltou um pouco de oportunidade lá e isso fez com que eu perdesse a artilharia do país.

UD: E como foi jogar lá no Goiás, num time de maior expressão do que o Linense?
Fausto:
Na verdade, o que muda são os nomes dos jogadores, o salário que eles recebem e a mídia, já que o jogo deles passa para o Brasil inteiro. Mas quanto a dificuldade, é a mesma que eu encontro aqui nos campos do interior. Nem mais, nem menos. Tenho companheiros no Linense que jogariam tranquilamente no Goiás.

UD: Naquela época, o empréstimo não poderia ser renovado?
Fausto:
Na verdade, o Linense exigiu a minha volta, mesmo sendo final de ano. E para eu ir para o Goiás, eles me obrigaram a renovar um pouco mais meu contrato, que venceria no meio de 2009. Aí pelos seis meses que fiquei no Goiás, tive que prorrogar até agora, quando termina o Estadual (30 de junho de 2010).

UD: Quantos gols você tem na carreira? Você conta?
Fausto:
Não, não tenho essa contagem. A minha carreira como atacante começou em 1999, e naquela época a internet ainda estava começando. Pesquisando hoje, a gente só acha números de 2005 e 2006 para frente. Eu acredito que tenha uns 200, mas não é uma contagem exata.

UD: Há quanto tempo você já está no clube?
Fausto:
Estou aqui desde 2007, mas antes tive uma passagem entre 1999 e 2000. Naquela época, disputei dois campeonatos para eles, tinha acabado de sair das categorias de base. Depois, voltei em 2007 e só saí para esse empréstimo do Goiás.

UD: Como é ser um ídolo no Linense? Você já fez mais de 100 gols pelo time…
Fausto:
Eu sou morador da cidade, né? Tenho residência fixa lá, casei lá, minha mulher é de lá, minha filha nasceu faz pouco tempo lá. Então, tenho um relacionamento bem bacana com o pessoal de Lins e a torcida do Linense é apaixonada pelo clube, e essa paixão às vezes extrapola um pouco e vai além do futebol. Por isso tem que tomar um pouco de cuidado e saber lidar com certo tipo de torcedor também, mas a maioria gosta de mim e tem um carinho por mim. E isso é bem bacana.

UD: Você completou 100 gols pelo Linense e ganhou uma camisa especial. Como foi isso?
Fausto:
Foi uma homenagem bem legal da diretoria, que tem me valorizado bastante e tem feito um marketing bom em cima dos gols que eu tenho feito. Quando eu fiz aquele centésimo gol, joguei com o número 100 – foi contra o Guarani, aliás. Foi uma homenagem bem legal.

UD: Qual partida foi marcante na sua carreira? A final entre Juventus e Linense, em 2007, seria uma delas?
Fausto:
Foi um jogo bem marcante em emoção. O jogo estava praticamente perdido e a gente conseguiu uma virada fantástica. Bater um pênalti aos 48min é uma emoção que eu nunca senti. Converti o pênalti, mas o juiz acabou dando mais um minuto de acréscimo e eles marcaram o gol que deu o título para eles. Outro que me marcou muito foi o jogo pelo Goiás, contra o São Paulo, no Gama. A mídia toda estava em cima daquele jogo porque o título poderia ir para o São Paulo, como foi. Durante a semana toda, a imprensa do país inteiro atrás do Goiás para saber do time, até porque o Grêmio tinha interesse no resultado. E foi o único jogo que entrei como titular, já que o Iarley ficou de fora pelo terceiro amarelo. Aquela foi uma semana bem marcante.

UD: Tem gente que te chama de Chuck Norris, você gosta desse apelido?
Fausto:
Esse é um apelido que o pessoal do Futebol Interior colocou. Não sei quem, mas mandaram um e-mail para lá com umas comparações minhas com o Chuck Norris. Foi uma brincadeira que fizeram, mas o cara que enviou não se identificou e na torcida ninguém me chama de Chuck Norris. Mas não vejo com maus olhos, está tudo tranqüilo.

UD: Recentemente, você teve uma filha, né? O que mudou na sua vida?
Fausto:
Isso, minha filha nasceu na semana passada e agora sou pai. Aumentou a responsabilidade e muda muita coisa, principalmente como pessoa. Coisas que você não dava valor você passa a dar. Notícias do dia a dia que passavam despercebidas, hoje prendem a sua atenção. Umas geram até sentimento de revolta. Vi esses dias no Jornal Nacional a história de um pai que foi passear no parque com o filho de oito meses, como fazia todos os domingos, e um motorista bêbado entrou lá e atropelou os dois. Todo dia tem na televisão e passa batido, mas hoje gera um tipo de revolta, um sentimento de querer punição. Isso foi uma coisa que mudou em mim.

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