O amor ao clube não é justificativa para passar por cima do respeito ao próximo

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Um menino negro – talvez não tão menino, afinal já consegue distinguir o que é brincadeira do que é discriminação.

Assistia ao jogo do seu time de coração nada tranquilo – afinal, apaixonado por seu clube, não gosta de vê-lo perder, ser desclassificado.

Nervoso e apreensivo, gritava palavras de incentivo, alternando com momentos de silêncio onde mordia o escudo, preso a camiseta.

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Irrequieto, viu a bola subir para a área e o centroavante cabecear em direção ao gol. Em meio ao entrevero dentro da área, viu a bola rolar mansamente para a rede.

Era o gol redentor, de desempate.

O gol da classificação.

O gol do alívio.

Mas, antes de comemorar, viu o braço do bandeirinha erguido, sinalizando impedimento.

Silenciou.

Num desejo insano, quase gritou mil impropérios. Contudo, silenciou ao ouvir os gritos do torcedor que estava ao seu lado.

“Negão safado, ladrão! Macaco. Só podia ser negro mesmo.”

Ouviu as ofensas e olhou para o torcedor que vestia a mesma camisa do seu time. O individuo o encarou, com certeza percebeu sua cor, mas continuou com os gritos.

“É o que eu sempre digo: negro, quando não caga na entrada, caga na saída”.

Osvaldinho, nosso amigo torcedor, sentiu o coração acelerar. Sentiu a raiva crescer. Segundos depois, sem perceber, estava de pé com o colarinho da camisa de alguém entre seus dedos. Um alguém que, antes do incidente, o havia abraçado na comemoração de um gol. Que havia gritado o nome de todos os jogadores, inclusive os negros, saudando-os com orgulho e admiração.

Separados pela turma do deixa-disso, Osvaldinho e o outro indivíduo se entreolharam com raiva. Nosso jovem torcedor queria a presença da polícia para levar o autor de tais ofensas racistas para a delegacia. A turma de estranhos praguejava que os dois voltassem a seus lugares, pois queriam continuar assistindo a partida.

“Amigo, deixa disso. O Arnaldo – e neste momento descobriu o nome do individuo – estava de cabeça quente. Ele não é racista. Além do mais, o bandeirinha errou mesmo”, disse alguém ao seu lado.

Osvaldinho não aceitou as desculpas dos que defendiam o agressor, nem os pedidos de desculpas do próprio. Seu desejo era saber se o auxiliar da arbitragem havia escutado as ofensas. Os seguranças do estádio, atualmente chamados de stewards, chegaram e levaram os dois para o Juizado dos Torcedores.

Em meio ao debate dentro da pequena sala utilizada pela Promotoria do Torcedor para avaliar os incidentes do estádio, os dois foram afastados, mas nada de os ânimos arrefecerem. O plantonista os chamou, mas eles não respeitavam um ao outro e falavam ao mesmo tempo. O que fez a autoridade ouvir um e depois o outro em separado.

Pelo lado de Osvaldinho, não existia testemunhas. Pelo lado de Arnaldo, um amigo que conversava com todos os na salinha e dizia que aquilo tudo não passava de um mal-entendido. Que seu amigo não era racista.

Após as insistências de Osvaldinho, um Boletim de Ocorrência foi registrado. Neste momento, Arnaldo tentou trocar os termos utilizados, mas desistiu e assumiu ter cometido injúria racial após ser orientado por seu advogado que chegou ao local. Osvaldinho, que queria registrar o incidente como racismo e não como injúria, alegou que o agressor não utilizou os termos pejorativos para ofender somente a uma pessoa, mas a uma coletividade – tanto que ele estava ali por sentir-se ofendido. Entretanto, a brechas na lei conduziram o caso para o Art. 140 da Lei penal brasileira.

Entre todas as conversas paralelas que aconteceram na pequena sala, Osvaldinho ouviu que, se levasse o caso adiante, poderia prejudicar seu clube. Ouviu o agressor dizer não ser racista por ter amigos negros, que a empregada de sua mãe era negra e a considerada “quase da família”, que já havia se relacionado com mulheres negras. E todas essas desculpas faziam sua zanga aumentar. Afinal, a cada incidente racista, as pessoas utilizam essas mesmas justificativas, sem perceber o quanto são racistas.

Naquele momento, pouco interessava o amor pelo seu clube.

Naquele momento, pouco importava a vida pessoal do agressor.

Naquele momento, Osvaldinho queria justiça.

Lembrar das inúmeras vezes que sofreu com o racismo velado na escola, das piadinhas racistas e do olhar sempre cruel dos seguranças era o que lhe motivava a não baixar a cabeça, a não silenciar, a não ir embora, a não deixar pra lá como é o desejo do sistema.

Aquele homem negro ofendido, em meio a sua labuta, poderia ser seu pai ou um familiar. Era um desconhecido, mas tinha a mesma cor de pele e sofria da mesma crueldade que deveria unir não só os negros.

Osvaldinho queria ter a oportunidade de dizer ao mundo que o lado mais cruel do racismo é intimidar as vítimas a não prestarem queixa, é matar o sonho de milhões de crianças negras que não tem forças para lutar contra o olhar cruel da indiferença.

Para sua tristeza, após horas e horas em uma minúscula sala onde todos o acusavam de insensível por não compreender o agressor, Osvaldinho lembrou que o futebol lhe deu a oportunidade de estudar em um colégio particular, uma bolsa de estudos para jogar pelo time da escola. Agora, o mesmo esporte bretão lhe mostrava o lado mais cruel da sociedade.

O futebol lhe mostrava que no país com o maior número de negros fora do continente africano, que o país onde 52% da população é negra, poucos se importam com sua dor, para a dor de sua mãe, irmãos, família e outros tantos negros.

Aquele incidente era a prova cabal  que a discriminação racial ainda vai continuar existindo e excluindo seu povo. Mas decidiu, enquanto aquele ônibus velho lhe levava para casa, que jamais vai silenciar – nem pelo amor ao seu clube, nem que isso lhe custe o emprego, que custe a paz. Pois paz nunca terá enquanto for julgado por sua cor de pele.

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