Nuno Leal Maia, o defensor do futebol teatral

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Rio de Janeiro, 1993. O modesto São Cristóvão, que havia sido o berço do fenômeno Ronaldo um pouco antes, em 1992, anunciou seu novo treinador: ninguém menos que o ator Nuno Leal Maia. O “Homem de Itu” foi apresentado em novembro, tendo recebido as boas-vindas de Paulo Cesar Caju e Carlos Alberto Parreira. Era o começo da curiosa carreira de Nuno como técnico de futebol.

Uma carreira que era alternada com a de ator de novelas da Globo. Por isso, muitos treinos foram comandados pelo celular, cujas ordens eram repassadas para o auxiliar Romeu Evaristo, ninguém menos que o Saci do Sítio do Pica-Pau Amarelo.

Em entrevista concedida à Revista VIP em 2008, contou que um dos motivos de sua saída foi o desmanche do elenco. “Quando montei o time, o pessoal do Vasco veio e levou todo mundo. Fui questionar e os caras disseram que era assim mesmo”, explicou o professor Pasqualete de “Malhação”.

Nuno Leal Maia sendo recebido pelo presidente do Londrina, em 1995
No Londrina, sendo recebido pelo presidente; ao fundo, o auxiliar e saci do Sítio, Romeu Evaristo

Em seguida, aceitou proposta do Botafogo da Paraíba. Era 1994, quando passou um tempo no nordeste à frente do clube da estrela vermelha, que dividia a atenção do ator com a novela “Pátria Minha”. De lá, também trouxe boas histórias – para nós, claro, porque para ele serviu apenas para minar a vontade de seguir como treinador de futebol, esporte que tanto gosta.

“O presidente era boa-praça. Até o dia em que a gente foi viajar e um jogador pediu pra descer no meio, pra ficar na micareta de uma cidade lá. Deixei ir, mas não jogou mais. Aí, na final, o diretor de futebol chegou e me disse: “Bota o cara, que o diretor do América tá aqui e quer comprar ele”. Entreguei as contas no meio do jogo”, declarou o Gaspar Kundera de “Top Model” na mesma entrevista dada à VIP.

Depois, voltou ao sul do país, mas não para o Rio de Janeiro. Foi parar no Paraná, precisamente no norte do estado, onde dirigiu o Londrina. De longe, a campanha no Campeonato Paranaense foi a melhor de sua curta carreira: em nove jogos, foram cinco vitórias, três empates e uma derrota (para o Coritiba).

 

Foi demitido apenas porque o clube, que vivia grave crise financeira na época, não teve ‘cacife’ para manter o badalado treinador, contratado pelo recém-eleito presidente do clube, Marcelo Caldarelli. Nuno Leal Maia, aliás, era apenas uma das promessas de campanha do dirigente, que ainda tinha a intenção (mas não cumpriu, claro) de contratar o goleiro colombiano Higuita e o atacante e hoje comentarista Walter Casagrande.

Depois do Londrina, o Tony Carrado de “Mandala” assumiu a responsabilidade de comandar o também paranaense Matsubara. Não se sabe o motivo pelo qual abandonou a carreira de treinador, mas é provável que os compromissos com as novelas fossem mais rentáveis para o ator, já que ele sempre se dividiu entre as duas funções. No fundo, só aceitou a aventura como treinador porque é apaixonado por futebol.

Tanto que até hoje costuma bater uma bolinha quando pode, lembrando seus bons tempos de juvenil do Santos (foi praticamente um Menino da Vila, como já dito!). Além destas experiências todas,  Nuno Leal Maia também foi supervisor do Bangu em 1988 – ou seja, tem experiência de gestão esportiva – e sempre defendeu o futebol-arte.

“O que tentei foi uma experiência teatral dentro do futebol. Queria teatralizar um pouco a coisa, aquele negócio de futebol-arte. Mas percebi que era impossível. Como se vai fazer futebol-arte com a mercadologia do futebol brasileiro? Eles acham que se ganha mais dinheiro vendendo e comprando jogador do que fazendo um espetáculo bonito. É burrice”, afirmou em 2008.

E será que Nuno Leal Maia pensar em voltar ao futebol algum dia? “Acho que não. Só volto se tiver algum presidente maluco por aí, que resolva montar um time parecido com um circo. Uma coisa mais teatral, como era o Santos de antigamente”, complementou o ator naquela entrevista. Presidente maluco? Alguém falou em presidente maluco? Pois garanto que, com Ricardo Teixeira no comando, Nuno está em casa, apenas esperando o telefone tocar.

Nuno na Briosa?

Esse vale um parágrafo a parte. Em abril de 2010, uma notícia surgiu como uma bomba e balançou o submundo do futebol alternativo: a Portuguesa Santista, recém-rebaixada à quarta divisão estadual e afundada em dívidas, teria convidado o ator para ser parceiro e, se fosse o caso, treinador. Pois o bon vivant foi esperto e, claro, recusou a proposta. E colocou mais um capítulo na história do futebol alternativo.

Confira o currículo do ator, treinador e mito:
Bangu – 1988 (supervisor)
São Cristóvão – 1993
Botafogo-PB – 1994
Londrina – 1995
Matsubara – 1996
Portuguesa Santista – 2010 (recusou)

Abaixo, a campanha no Londrina:
Matsubara 1 x 1 Londrina
Londrina 2 x 1 R. Branco
Paraná 1 x 1 Londrina
Londrina 1 x 0 F. Beltrão
Londrina 1 x 0 Batel
Toledo 1 x 3 Londrina
Londrina 2 x 1 União Bandeirante
Coritiba 2 x 0 Londrina
Londrina 1 x 1 Atlético-PR
(fonte: Gazeta do Povo)

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