Nunca houve um homem como ele

Folhapress
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É uma história que os mais velhos fãs de futebol já conhecem. Mas boa parte da nova geração ainda não está por dentro da história de Heleno de Freitas.

Para ele não bastava ser galã, se vestir bem, pentear os cabelos perfeitamente, andar sempre em um Cadilac conversível ou ser formado em Direito. “Só” isso não daria o destaque que precisava. “Só” isso não o tornaria tão diferenciado quanto queria. Ele sempre desejou mais. E conseguiu.

Astro do Botafogo nos anos 40, Heleno era dono de um grande talento com a bola nos pés e uma enorme imaginação para provocações, atos inesperados e atitudes inusitadas. Sua genialidade ia muito mais além das quatro linhas, se tranformava fora de campo e virava loucura. Loucura essa que depois o matou. Mas a tristeza fica para o final. Por enquanto é hora de conhecer as grandes histórias que transformaram Heleno em uma figura ímpar do futebol nacional.

A explosão do craque

(Reprodução)

Vaidoso como poucos de sua época, Heleno se preocupava com cada fio de seu curto e liso cabelo preto. No começo de carreira, ia para campo perfeitamente penteado e não demorou para ser chamado de “craque galã” pela torcida do Botafogo. Mas não era só a beleza dele que chamava a atenção, é claro.

Com grande talento, era dono de um futebol vistoso, que dava preferência para as jogadas estéticas e não exatamente objetivava os resultados. Dessa forma, passou a ser chamado de “Artista das multidões”, graças ao seu grande envolvimento com a torcida do Botafogo.

Todo esse estilo único e até inovador passou a transformá-lo em um mito, sobre o qual todos diziam ser único, um verdadeiro “Diamante Branco”. Difícil de ser lapidado, mas que trazia consigo um brilho intenso.

Mas não vieram só elogios através das alcunhas recebidas por Heleno. Quando era chamado de “Gilda”, ele se enfurecia. Era uma referência à uma personagem de Rita Hayworth, que vivia uma mulher altamente explosiva nos cinemas. Bastava qualquer reclamação vinda do craque do Botafogo para surgirem os gritos de “Gilda! Gilda!”.

Até que a própria torcida passou a provocá-lo dessa forma, mesmo que ele pedisse o contrário. Não teve jeito: em um certo dia, Heleno cansou da piada, foi em direção à social de Generial Severiano e simplesmente abaixou o próprio calção. Um escândalo!

Um lutador em campo contra os hermanos

O talento de Heleno o levou para a Seleção Brasileira em 1946, ano em que participou do Sul-Americano. Em um dos confrontos, no clássico contra a Argentina, ele deixou a sua marca. E dessa vez não foi com gols.

O jogo aconteceu de forma violenta desde o seu início. Era pancadaria para todo lado. O grau de violência era tamanho que alguns jogadores não queriam sair do vestiário após o intervalo. Foi quando o ténico Flávio Costa esbravejou e ordenou que todos fossem para o campo. Heleno obedeceu e poucas vezes foi visto um jogador apanhar tanto em campo. A diferença é que ele não deixava barato e poucas vezes foi visto um jogador bater tanto em campo.

Casamento e arma longe do Botafogo

Toda a confusão armada no clássico não impediu que Heleno fosse jogar na Argentina, pelo Boca Juniors, após uma saída contubarda do Botafogo. Sem causar grande impacto nos gramados de lá, o principal destaque aconteceu quando ele se casou Hilma, filha de um diplomata local. Mas o relacionamento logo terminou, quando ela ainda estava grávida.

Daí foi para o Vasco e conseguiu ganhar o Campeonato Carioca de 1949, seu primeiro e único título de expressão na carreira. Entretanto, isso não foi exatamente um sinal para o sucesso do jogador no time cruzmaltino.

Foi lá que Heleno arrumou uma confusão tão grande com Flávio Costa que chegou a apontar uma arma descarregada para o treinador. A ameaça não deu certo, Heleno foi desarmado e ainda apanhou durante a briga.

Não era um jogador. Era “O jogador”

Sem qualquer ambiente para trabalhar no Brasil, após tantas confusões, outro país da América Latina surgiu mais uma vez como destino na carreira errante de Heleno de Freitas.

O atacante foi parar no Atlético de Barranquilla, da Colômbia, clube que o recebeu com honrarias e grande festa. Assim ficou mais fácil para que o brilho do craque voltasse a aparecer. Longe do Rio de Janeiro, ele reencontrou seu futebol e, segundo Matheus Trunk, leitor do Última Divisão, existe a lenda que uma estátua foi levantada para homenagear o jogador. Ela teria sido nomeada com uma alcunha simples, mas imponente: “El Jugador”. Uma lenda que mostra a grandeza de Heleno até fora do Brasil.

Para colocar um ponto final

O sucesso na Colômbia mudou pouco a dura personalidade de Heleno. Ele voltou para o Brasil, fez testes no Santos, clube em que teve uma curta passagem. Logo ele voltou para o Rio de Janeiro, desta vez para atuar pelo América.

Apenas a vaidade tinha sido deixada de lado. O temperamento era o mesmo. Com cabelos dessa vez totalmente desgrenhados, no final do ano de 1951, ele não correspondeu às expectativas geradas pelo seu retorno, tendo sido expulso logo aos 35 minutos do 1º tempo. Na saída, fez questão de mostrar que ainda era o mesmo de anos atrás: tentou agredir um fotógrafo com uma garrafa.

Se toda sua carreira foi cheia de excentricidades únicas, o final foi exatamente o avesso e extremamente comum para ex-jogadores: abandonado, chegou a pedir esmola nas ruas. Nilton Santos, seu ex-companheiro de Botafogo, conta que viu essa lamentável cena. O pouco dinheiro conseguido dessa forma não era usado para sobreviver, mas sim para alimentar o seu vício por éter.

Mais tarde foi diagnosticado que Heleno tinha sífilis cerebral há um bom tempo e que a doença já estava em um estágio avançado demais para ser curada. A família o internou em um sanatório e o elenco do Botafogo chegou a visitá-lo na época. Encontraram o galã deformado, descabelado e desdentado. Ou seja, muito próximo de colocar um final em uma história longa e recheada de curiosidades.

A arte se rende ao artista

Para conhecer melhor a história do craque, há um filme com Rodrigo Santoro e Alinne Morais lançado em 2012 de nome Heleno. Fora isso, há outras homenagens: a música “Poema dos olhos da Amada”, de Vinícius de Moraes, é um presente do poeta para o craque desde os tempos do casamento com Hilma; e o livro “Nunca houve um homem como Heleno“, escrito por Marcos Eduardo Neves, é um belo retrato do que foi a vida desse personagem que merece sempre ser resgatado.

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