Nunca foi tão bom voltar no tempo

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Moçoilos com ternos e gravatas verdes, e chapéus Panamás. Moçoilas com blusas à meia altura, saias de bolinhas, sapatinhos brancos e guarda-chuvas. O ano? 1941, dizem. A descrição acima poderia ser facilmente um baile nostálgico, mas acreditem: era a entrada da Rua Javari deste sábado, pleno agosto de 2014.

A ocasião era um flashback dos saudosos torneios-início que moldavam esta época. Quatro clubes disputaram: Juventus, Germânia, Paulistano e Palestra Itália, cada qual por um motivo peculiar. O Moleque Travesso, que fora fundado por palestrinos, alugava seus domínios para a competição. Os germânicos, atual Pinheiros, estavam ali porque eram os proprietários do terreno do Parque Antarctica antes do Palestra comprá-lo, e cederam sua área social para a primeira festa dos ítalos-brasileiros da Turiassu. Já o Paulistano não emprestou ou cedeu nada, mas foi o time derrotado no primeiro título paulista dos alviverdes de 1920. O Palestra, bom, este dispensa apresentações, mas vale lembrar que, em 1942, tornou-se Palmeiras devido o Brasil declarar guerra ao Eixo (dentre eles, os italianos), na Segunda Guerra Mundial.

Dito isso, necessito fazer uma ressalva. Não estaria escrevendo essa prosa, caso uma boa alma, um senhorzinho, não me desse o seu ingresso para eu entrar no complexo juventino. Em meio aos meus passos perdidos, descubro que as bilheterias estavam fechadas. Questiono outro torcedor desnorteado e ele solta uma ofensa impublicável sobre o nosso time de coração. Começamos bem.

Adentro, enfim, e retorno 73 anos na história. Jogadores com vestimentas magníficas: camisas manga compridas, lisas, apenas com escudos antigos e golas semelhantes a um guardanapo. Calções e meias impecavelmente polidos. Bola (aparentemente) de couro e laranja. Árbitros com vestimentas feitas sob medida. Até os instrumentos (leia-se apito e bandeirinhas) proporcionavam som e cores, respectivamente, da época. Estava imerso neste universo quando alguém me atentou para um detalhe nada discreto: as chuteiras coloridas. Uns até encarnavam o “figurino” de época e jogavam com as raras peças pretas, mas a grande maioria não.

Chega de ti-ti-ti. Aos fatos: o Germânia venceu o Juventus por 1 a 0. Gol de… Ninguém. O placar terminou em branco, contudo, o número 1 refere-se ao número de escanteios. Germânia venceu pelo número de escanteios!? Como!? Na regra, seguindo os padrões dos extintos Torneio-Início, o primeiro critério de desempate são os escanteios, seguido de cobranças de pênaltis – o mesmo batedor cobra três penalidades, e, se precisar de alternadas, o próprio continua batendo. Além disso, há outras preciosidades no regulamento, como, por exemplo, a possibilidade de recuar a bola para o goleiro sem ser punido, a ausência de cartões e placas de substituição, e a duração do jogo (dois períodos de 20 minutos, número que varia nos dois jogos finais).

Não duvido, ou melhor, acredito que alguns palestrinos abandonaram este texto com o argumento semelhante da minha professora de Redação no colegial: fuga do tema. Cadê o Palestra? Cá estamos. Aos gritos de “Ê ô, ê ô, Evair é o terror”, o homem que nos tirou da fila entra no gramado. Edu Bala, da segunda academia, também. Adãozinho, campeão da Série B, segue os passos. Adãozinho? A competição baseava-se em cinquentões e sessentões (com barrigas nada salientes), mas o volante eternizado pelo Azulão atuava profissionalmente até outro dia. Melhor para nós. Esquerdinha, outro parceiro de São Caetano, o acompanhava. Faltava um. O último, atrasado, de propósito, era o maior: o Divino. Gritamos e celebramos como se ele anotasse o seu 154º gol pelo Verdão. Porém, aos 72 anos de vida, se limitou a correr alguns metros.

A bola rolou e paralisei na arquibancada. Não dava para tirar o olho do camisa 10. Esse momento seria a segunda oportunidade que o assistia in loco. Na primeira, estava sem óculos e, no Pacaembu lotado para a despedida de nosso santo milagreiro, não lembro de quase nada. Apenas de proclamar palavras de baixo calão para Edílson, o Capetinha, quando ele roubou a bola do Divino.

Pois bem. Ademir, agora, estava na minha frente, em um campo minúsculo, por alguns inesquecíveis minutos. Eu, obviamente, prevenido contra minha miopia. A conjuntura perfeita. O bailar, o controle, a calma, a discrição eram os mesmos de antes. Ele continuava acertando todos os passes. A redonda sorria quando estava em seus pés. Ele nos fazia sorrir. Ele poderia fazer um gol contra que aplaudiríamos. No entanto, o maior pecado dele foi uma falta. Ridículo, o juiz. Apitar contra Ademir deveria ser um crime inafiançável.

A partida foi bacana, também. Jorginho, aquele do porco (da Placar), tirou o goleiro e abriu o marcador. Sofremos a virada do Paulistano em um piscar de olhos, com lances bobos. Doeu olhar Ademir cabisbaixo. Os técnicos, talvez o leitor conheça: Dudu, o fiel escudeiro do Divino, e Leivinha. Dudu, simplesmente, encarou o jogo como Copa do Mundo. Gritou mais que Felipão, falando nisso. Esse é dos meus, pensei. Ganhou tudo com o Verdão e perder em amistoso, bolinha de gude, vestindo o célebre manto, era insanidade.

Ficamos em êxtase quando Evair triscou, empatando o placar. A caixinha dos meus óculos foi pelos céus, e, durante alguns segundos, não liguei. O garoto do banco atrás estava com ela no colo, e me devolveu com gargalhadas. Viramos no bumba-meu-boi com um pênalti claríssimo. Estávamos na final.

Como o texto possui o intuito alviverde, preciso fazer uma observação. Que senhor jogador era aquele camisa 8 do Juventus! Contra o Germânia, mostrou o cartão de visitas. Contra o Paulistano, consagrou-se. Não fez nenhum gol, nenhuma assistência, e não salvou nenhuma bola em cima da linha. Não precisava. Estava em todos os lugares do campo, com brio, com 50 anos nas costas, com classe. Assemelhava-se fisicamente com Ciro Gomes ou Sávio Spínola, talvez uma mescla de ambos. Não falei o melhor: era primeiro volante. Uma aula para os brucutus da posição. Que inteligência dentro das quatro linhas. O terceiro lugar ficou com o Moleque Travesso após explorar o rombo da defesa adversária, e anotar cinco tentos a zero.

Poderia divagar sobre o dramalhão na final entre Palestra e Germânia. Poderia falar o quanto Evair nos deixou felizes ao marcar o pênalti libertador e vitorioso. Poderia dizer muitas coisas. Mas apenas dois fatos marcaram o segundo título do centenário: Ademir não estava em campo, e Dudu foi nada menos do que incrível. Como esbravejou, avisou, reclamou. Estava quase no meio-campo gesticulando, muitas vezes. Chegou ao ponto de receber um tapinha no ombro do atleta adversário e não gostar. Fora isso, e Evair, não abrimos um sorriso sequer. Quase perdemos um torneio nosso! Uns dirão: isso é Palmeiras. Porém, é assim com Botafogo, Flamengo, Corinthians e todos os outros. Sofremos e nos reerguemos sucessivamente.

Por fim, aguardava ver o Divino comemorando. Não o vi. Mas vi Adãozinho beijar um escudo que ele desconhece sua grandeza – e desconfio desse amor. Na saída, recebo outra dádiva de Deus: Dudu estava tirando fotos. “Dudu, por favor, uma foto!”. Ele acena positivamente, mesmo querendo ir embora. Eu o agradeço e ele sai. Não acredito no registro. Uma certeza fica incontestável: precisamos de mais Dudus no Palmeiras, sempre.

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