Novorizontino, pai e filho

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Meu pai nasceu em Novo Horizonte (SP), e, aos 28 anos, eu nunca havia tido a oportunidade de visitar a cidade, de conhecer melhor a história de minha família. Por isso, durante as férias, fui amadurecendo a ideia de viajar até lá com meu pai. O pretexto para tal: um jogo do Novorizontino pela Série A3 do Campeonato Paulista.

“Vamos, pai?”

De início, ele não se animou muito. Mas, depois de uns dias, adiou alguns planos e topou. Aproveitaria para ver alguns primos que ainda moram por lá, e que eu não conhecia. Na verdade, eu nem sabia quantos eram, seus nomes. Apenas imaginava que nós ainda tivéssemos família por lá.

Chegado o dia da viagem, meu pai e eu acordamos cedo, colocamos a bagagem no carro e partimos para umas três horas e meia de estrada. Não era um dia muito bonito: embora fizesse calor, não havia sol no céu. Ainda assim, chegar à cidade foi uma experiência muito feliz desde o primeiro minuto.

Almoçamos em um restaurante pequeno, e meu pai começou a conversar com a caixa do local. Ela informou que a escola onde ele estudara quando pequeno, o PTQ, era ali por perto. Fomos até lá. Depois, ligamos para o primo do meu pai e fomos até sua casa. Ele, sua mulher e o neto pequeno do casal nos receberam muito bem para uma daquelas conversas na sala de casa que são tão raras hoje nas grandes cidades.

Logo, o primo do meu pai nos conduziu por um passeio pelas ruas de Novo Horizonte. Havia algumas décadas que meu pai havia se mudado da cidade, e muitos conhecidos ele não via desde então. Por isso, cada visita era uma alegria. Pude conhecer a casa onde meu pai morou quando trocou a roça pela cidade para estudar, os parentes que o acolheram, a história de vida do meu pai. Cada casa visitada era um novo nó na garganta.

Mas acho que nenhum soco no estômago naquele dia foi tão forte quanto a visita que meu pai e seu/nosso primo quisram fazer ao lar de idosos da cidade. Ali, meu pai pôde reencontrar e conversar com uma antiga professora de sua infância. Ele a reconheceu com facilidade, mas talvez ela – que certamente teve muitos alunos – tenha encontrado alguma dificuldade. Ela está bem, alimenta-se bem, e apenas caminha com alguma dificuldade.

Bem, talvez alguns de vocês já estejam um pouco irritados com este relato, perguntando-se do jogo.

Depois de revermos cinco dos irmãos que moram lá e que são primos do meu pai (a sexta irmã mora no Paraná), fomos para o hotel no qual eu havia feito reservas na cidade – um bastante tradicional, na rua ao lado da Igreja Matriz de Novo Horizonte. Tomamos banho, e nos arrumamos para o jogo. Para tal, levei duas camisas: uma do atual Grêmio Novorizontino, profissional desde 2011, e outro do antigo Novorizontino, aquele que foi vice-campeão paulista de 1990 sob o comando de Nelsinho Baptista. Meu pai escolheu a primeira, mais nova, e eu fui com a segunda, mais antiga.

(Aqui, um parêntese: sempre vale lembrar que os dois Novorizontino não são o mesmo clube, embora ambos despertem o mesmo carinho pela cidade. Clique aqui e entenda.)

O genro do primo do meu pai – acho que era isso – passou no hotel para nos buscar de carro. Meu pai, o primo e eu fomos então ao Estádio Jorge Ismael de Biasi, inaugurado em 1987 e batizado em homenagem ao patrono do “primeiro” Novorizontino. Ali, o primo do meu pai comprou os ingressos para a arquibancada. Entramos e nos acomodamos nas arquibancadas de cimento do estádio para acompanhar Novorizontino x Água Santa, jogo válido pela segunda rodada da segunda fase da Série A3 do Campeonato Paulista.

O jogo, a torcida, o estádio

O Estádio Jorjão é confortável. Naquele dia, umas 3 mil pessoas compareceram para acompanhar o jogo. Pude acompanhar muitas famílias e muitos amigos. A principal torcida organizada do clube, a Garra do Tigre, é composta por torcedores do primeiro Novorizontino e do atual. Fundada em 1985, a torcida é mais velha que o próprio clube, fundado oficialmente em 11 de março de 2011. Ainda assim, as camisas do antigo time da cidade são minoria entre os torcedores.

Nas arquibancadas, a Garra do Tigre faz seu batuque e abre suas faixas. Nos cânticos, muita inspiração nas músicas de grandes clubes brasileiros – de “poropopó” a “e ninguém cala/esse nosso amor”. Na entrada em campo, o Novorizontino foi recebido com uma empolgada queima de fogos, e cada jogador teve seu nome gritado pelos torcedores. Quando a assistente Maria Núbia Ferreira Leite correu para assumir sua lateral do campo, próxima à geral, os torcedores também dedicaram a ela empolgados gritos de “bandeira, bandeira”.

Novorizontino entra em campo veloz e imponente: um bom motivo para unir pai e filho (Crédito: Emanuel Colombari)
O jogo começou ruim para o Novorizontino, já que o rival de Diadema tinha mais posse de bola. O zagueiro Da Silva, por exemplo, conheceu o céu e o inferno em menos de um minuto com a torcida: depois de acertar um belo passe de peito rente à lateral, recebeu a bola de volta no pé, mas furou e viu a jogada terminar com um lateral para os adversários.

O primeiro tempo foi de muitas oportunidades para o time da casa, comandado pelo técnico Guilherme Alves – aquele mesmo, atacante com passagens por Marília, São Paulo e Corinthians, vice-campeão brasileiro em 1999 pelo Atlético-MG. Com o jogo um tanto quanto faltoso, a torcida reclamava com frequência do árbitro Paulo Sérgio dos Santos. Após um primeiro tempo sem gols, a torcida Garra do Tigre mudou de lado no estádio para fazer pressão no goleiro adversário.

Torcida fiel compareceu em peso ao estádio (Crédito: Emanuel Colombari)

O intervalo em Novo Horizonte, aliás, é bem simpático. Enquanto o Tigrão (mascote do clube) passeia pelo gramado e cumprimenta crianças junto ao alambrado, pequenos fãs são chamados para chutar bolas de uma distância pouco inferior a metade do campo. Quem acerta o gol vai permanecendo, até que fique apenas o vencedor.

De uns sete da primeira rodada, apenas três – todos com cerca de dez anos – passaram para a segunda rodada. Mais um foi eliminado logo ali. A disputa parecia equilibrada, mas o jovem Gustavo Antônio chutou e acertou a trave. Um sonoro “uuuuuh” se fez presente nas arquibancadas, onde muita gente torcia por ambos, enquanto o torcedor levava as mãos à cabeça. O outro torcedor (não identifiquei o nome) parecia rezar na linha do meio de campo, como fazem os jogadores profissionais em disputas de pênaltis. Deu seu chute e acertou. Não vi se ganhou algum prêmio, mas imagino que sim. No final do jogo, vi Gustavo Antônio deixar o gramado consolado pela mãe.

No segundo tempo, o Água Santa logo abriu o placar, aos 2min, em pênalti que Magrão cometeu e Danilo converteu, com um chute forte e no alto, sem chances para o goleiro Yuri. A torcida não desanimou, mas parte do público da geral correu para as lanchonetes (cobertas) assim que uma ameaça de garoa se transformou em realidade. Dali, mesmo com dificuldades, era possível ver parte do jogo.

O cachorro, no entanto, sofreu: em desvantagem, não conseguiu ver o jogo (Crédito: Emanuel Colombari)
Atrás no placar, o técnico Guilherme Alves sacou o volante Pedrão e colocou em campo o atacante Guilherme. Rápido e insinuante, o camisa 16 passou a dar (mais) trabalho à defesa do Água Santa, até que marcou o gol do empate, em um chute rasteiro aos 12min.

(Na verdade, não vi que foi rasteiro, já que estava procurando um ângulo de visão lá das arquibancadas cobertas onde eu estava com meu pai e o primo dele – este viu o gol. Confirmei depois pela TV.)

Com garoa no segundo tempo, parte do público procurou lanchonetes cobertas; com dificuldades, era possível ver pouco do jogo (Crédito: Emanuel Colombari)
O Novorizontino seguiu pressionando, mas sem conseguir a virada. O Água Santa, por sua vez, dava muito trabalho com o lateral esquerdo Thiago. Veloz e técnico, sobe com facilidade ao ataque, e até pedalou para cima dos marcadores. Sem saírem do 1 a 1, Novorizontino e Água Santa terminaram a segunda rodada da segunda fase com quatro pontos, liderando a chave. Sertãozinho (3) e São José dos Campos (0) vêm logo atrás.

Fora de campo

Meu pai e eu acordamos no dia seguinte, tomamos café da manhã e deixamos o hotel – eu pretendia pagar a conta, mas ele foi mais rápido e aproveitou enquanto eu fui buscar as malas no quarto. Saímos, e ele me levou à Matriz da cidade, ali perto, onde ele foi batizado. Saímos de lá e fomos visitar mais primos. Demos uma volta pela cidade e fomos visitar familiares que ainda vivem na roça. Entre uma parada de outra, muitas histórias da infância do meu pai, em alguns poucos lugares que resistem. No local onde ficava a casa onde ele nasceu e morou, quase nada resta: um enorme canavial toma conta da região.

No fim, o pior nó na garganta. A passagem pelo cemitério de Novo Horizonte. Ali, pela primeira vez, vi o túmulo de meu avô – em tempos de internet, eu jamais havia visto nem mesmo uma foto dele. Ali por perto, vi os túmulos de minha bisavó, meu bisavô, minha tataravó e de meu tio-avô. Até então, eu não sabia nem mesmo o nome deles.

Valeu a pena demais ter encarado a estrada para ver o jogo do Novorizontino. Se possível, gostaria que todos os jogos de futebol que eu pude ver na vida pudessem me ensinar tanto. Aprendi muito, e poucas vezes vi meu pai tão feliz. Quando chegar àquele momento em que a gente é obrigado a pensar em tudo o que fez na vida, vou ter um grande orgulho de ter podido conhecer melhor o meu pai – e graças à “ajudinha” do Novorizontino.

Obrigado, pai! =)

(E obrigado também a tanta gente pela acolhida carinhosa, em ordem alfabética: Ana Paula, Fernando, Guilherme, Dona Lola, Dona Santina do hotel, Jonas, Juvelácio, Laurinda, Mercedes, Nêgo, Nico, Rodrigo do hotel, Valmir, Zé… Peço desculpas caso tenha esquecido alguém, mas prometo voltar em breve para mais visitas!)

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