Na Série A2 e à deriva, Atlético Sorocaba só poupa cúpula fiel a reverendo

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A parte de cima da tabela do Campeonato Paulista terminou com times do interior muito festejados: Bragantino e Ponte Preta conquistaram vagas nas quartas de final, o Penapolense eliminou o São Paulo no mata-mata em pleno Estádio do Morumbi, Ituano e Botafogo se enfrentaram por uma vaga nas semifinais (e o time de Itu avançou, tirando posteriormente o Palmeiras no caminho às finais). A parte inferior da classificação, no entanto, expôs a derrocada de um clube: o Atlético Sorocaba.

A pré-temporada foi bastante promissora no clube, que contratou uma série de reforços conhecidos para 2014: o goleiro Deola (Palmeiras), o lateral direito Fabinho Capixaba (com passagens por Palmeiras, Coritiba, Avaí e Criciúma), o meia Boquita (ex-Corinthians, Portuguesa e Ceará), e os atacantes Lenny (ex-Fluminense e Palmeiras) e Ewerthon (ex-Corinthians e Palmeiras). À frente do elenco, estava o técnico Ivan Baitello, ex-Mirassol.

A coisa, porém, não se desenrolou como a diretoria planejava. Baitello durou apenas as cinco primeiras rodadas, deixando o clube com duas derrotas e três empates. Roberto Cavalo foi contratado para ocupar a vaga, conquistando a primeira vitória do time apenas na oitava rodada – 1 a 0 contra a Ponte Preta. Com 11 pontos em 15 jogos, o time encerrou a primeira fase na lanterna do Grupo A e foi rebaixado para a Série A2 com Comercial (12 pontos), Oeste (11 pontos) e Paulista (4 pontos).

Seria natural que, após a queda, o time passasse por uma reformulação. É o que acontece neste momento no Atlético Sorocaba – mas de forma muito mais grave. Na terça-feira (dia 1º), o clube demitiu todos os funcionários do departamento de futebol. As informações foram divulgadas pelo repórter Rodrigo Gasparini, do jornal Cruzeiro do Sul (clique aqui e confira).

“Entre os profissionais demitidos está o gerente de futebol, Ney de Paula. Responsável pelas contratações dos jogadores, ele foi apontado por parte da torcida como o principal culpado pelo rebaixamento para a segunda divisão”, diz a reportagem da publicação. “O corte atingiu também funcionários antigos do Atlético, como o roupeiro Aldo Caciolato, o massagista Passarinho e o preparador de goleiros Ednei Uguetto. O assessor de imprensa, Paulo Henrique Monteiro, também foi demitido, assim como profissionais ligados às áreas de preparação física e fisioterapia.”

As baixas, porém, pouparam dirigentes ligados à Associação das Famílias pela Unificação e Paz Mundial, conhecida como Igreja da Unificação. Fundada pelo reverendo sul-coreano Sun Myung Moon, morto em 2012, a entidade mantém o clube desde 2000 – o presidente do clube, Heung Tae Kim, foi indicado na época pelo Reverendo Moon e se mantém no cargo até hoje. Nos bastidores, comenta-se que o dinheiro vindo da Coreia do Sul parou de chegar ao clube no começo de 2014, complicando a situação em campo.

“Antes do campeonato começar, ninguém – nem nós, da imprensa – imaginava que a campanha poderia ser tão ruim. No papel era um time razoável, com uns caras experientes: Deola, Fabinho Capixaba, Boquita, Ewerthon. E o técnico era o Ivan Baitello, que tinha um certo nome no interior. Mas quando começou pra valer, ficou bem claro a quantidade de erros que eles cometeram. Aí o clima foi piorando cada vez mais”, contou Rodrigo Gasparini ao blog.

“Até o pessoal que é funcionário – esses que foram demitidos agora – estava bem diferente, preocupado… O papo que corria era que o time precisava se salvar de qualquer maneira, por causa da situação financeira. Aí, com o rebaixamento, eles simplesmente fecharam as portas e não recebem a gente lá, não atendem o telefone”, completou. Segundo ele, cada ponto conquistado no Campeonato Paulista custou ao clube R$ 236 mil.

Sem assessor de imprensa, os diretores da equipe não têm falado com a imprensa – Waldir Cipriani, vice-presidente de futebol, e Maurício Baldini, vice-presidente administrativo, permaneceram no clube. Ambos são ligados à Igreja da Unificação.

Dirigentes ligados à Igreja da Unificação, como Waldir Cipriani (foto), Benedito Sampaio e Maurício Baldini permaneceram no clube (Crédito: Divulgação)

“O que está acontecendo agora, eu nunca vi acontecer lá em todo esse tempo que cubro o clube”, contou Rodrigo Gasparini. “Por mais fechado que eles sejam, a diretoria sempre falou depois dos campeonatos. Agora, não. Essa coisa de dispensar o departamento de futebol inteiro também nunca se viu”, completou o jornalista.

Com o rebaixamento no Campeonato Paulista e o desmanche na diretoria, a participação do Atlético Sorocaba na Copa Paulista (segundo semestre) é uma incógnita. No Campeonato Paulista Sub-20, que começa em 10 de maio, o elenco deve ficar sob responsabilidade de Benedito Sampaio, diretor de marketing do clube – e, segundo o jornal Cruzeiro do Sul, outro membro da igreja do Reverendo Moon. “Homem de confiança dos diretores, Sampaio deverá ser o responsável por montar a comissão técnica, o elenco, obter os patrocínios e arrumar um espaço para treinamentos”, diz o texto. Os jogos do time serão disputados em Tatuí.

Volta por cima (ou para baixo)

Em Sorocaba, a dúvida em torno do Atlético Sorocaba é tamanha que o público vê duas possibilidades reais para 2015: uma queda para a Série A3 ou o acesso à Série A1. A aposta no acesso é a Copa do Mundo – ou o fim dela. Como a cidade receberá a seleção da Argélia durante o Mundial, as atenções do clube se concentraram na reforma do centro de treinamentos para os argelinos. Passada a hospedagem, o retorno dos investimentos pode possibilitar a montagem de equipes fortes.

“Eles estão completamente voltados a terminar as obras no CT para receber a Argélia. Mesmo durante o campeonato, a diretoria quase nunca falava de futebol e sim, sempre, da Copa do Mundo. O hotel que estão construindo lá é de alto nível e vai complementar um outro, também muito bom, que já existe – é onde os jogadores ficam concentrados. A estrutura em si do CT é boa”, contou Rodrigo, que aponta outra possibilidade antagônica – mas, ao mesmo tempo, complementar.

“O que chamou a atenção é que houve uma mudança de discurso nos últimos tempos em relação ao motivo de ter tanta estrutura. Antigamente, a ideia era ter um time forte e utilizar a estrutura para ganhar uma grana extra. Agora, o discurso do time forte acabou. Eles falam só do dinheiro que tudo isso pode trazer, pois querem alugar para pré-temporadas de times, para convenções de empresas, casamentos, qualquer coisa”, disse.

Somando-se a mudança de direção ao longo do Campeonato Paulista e o possível corte de investimentos da Igreja da Unificação, ganhou força a possibilidade de um clube mais modesto, que deixaria a estrutura à disposição da Igreja para ganhar dinheiro, como um clube social. Há quem aposte também no encerramento das atividades a médio prazo, deixando as instalações apenas como empreendimento comercial.

Rebaixado, Atlético Sorocaba demite cúpula e poupa dirigentes ligados a Reverendo Moon; futuro de clube é incerto (Crédito: Divulgação)
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