Muito além do “futebol irresponsável” – A história da Copa Africana de Nações

Torcida do Níger, seleção estreante na CAN 2012
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Sugestão de trilha sonora para ler o post: 2Face – African Queen

Super águias, elefantes, leões indomáveis e outros seres emblemáticos voltarão a medir forças a partir de amanhã, em busca da supremacia do futebol africano, o mais legal de todos em termos de apelidos de seleções.

A 29ª Copa Africana de Nações será a segunda consecutiva sem a presença da seleção egípcia, a mais vitoriosa do torneio. Também será mais uma oportunidade para Gana e Costa do Marfim, há anos consideradas as equipes mais fortes do continente, transformarem o enorme favoritismo em título.

Katlego, bola oficial da CAN 2013
Katlego, bola oficial da CAN 2013

Era da “modernidade”

Dois anos e meio após sediarem a primeira Copa do Mundo em solo africano, os estádios da África do Sul devem conferir à competição uma modernidade jamais vista, apesar dos grandes e controversos investimentos realizados pelos governos de Gabão, Guiné Equatorial e Angola nas últimas edições.

A Copa Africana cresce como negócio, mas o descontentamento dos clubes europeus, forçados a ceder jogadores por até um mês no meio da temporada, custará o fim de uma longa tradição. A partir da próxima edição, o torneio deixará de ser disputado a cada dois anos e passará a ser realizado a cada quatro, como todas as outras copas continentais da atualidade.

Aos 34 anos, Didier Drogba ainda busca o seu primeiro título com a camisa da Costa do Marfim
Aos 34 anos, Didier Drogba ainda busca o seu primeiro título com a camisa da Costa do Marfim

A mudança, motivada por fatores externos, repete o que já ocorreu com a Copa América em 2001, também obrigada a se adaptar ao calendário “mundial” por pressão das equipes europeias.

O que os cartolas do Velho Mundo não levam em conta é que esses torneios são mais antigos que a própria Eurocopa!

A Copa América é a mais velha do tipo no mundo, por representar uma continuação do Campeonato Sul-Americano, disputado entre 1916 e 1967. Na África, a primeira competição entre seleções foi realizada em 1957, um ano após a primeira Copa Asiática (1956), mas três anos antes do primeiro campeonato da Europa (1960) e décadas mais antiga que a Copa das Nações da Oceania (1973) e a Copa Ouro da Concacaf (1991).

São, portanto, 56 anos de disputas regulares na África.

Já havia um campeonato interno muito antes do continente passar a ter vaga cativa na Copa do Mundo (em 1970, com o Marrocos, primeiro africano a jogar o torneio após o Egito, convidado em 1934) e de ganhar seu primeiro jogo em Mundiais (com a Tunísia, que derrotou o México por 3 a 1, em 1978).

A Copa Africana já estava consolidada bem antes do primeiro país da região avançar da fase de grupos da Copa do Mundo (Marrocos, em 1986) ou ganhar o primeiro título pela Fifa (Nigéria, campeã da Copa do Mundo Sub-17, em 1985).

Mesmo antes do resto do planeta olhar para a África, já havia futebol (muito bem) organizado por lá.

Independência futebolística

A ideia de se criar uma entidade para organizar o futebol africano antecedeu a independência de grande parte dos países da região. Ainda colônias, Somália e do Sudão se uniram a membros das federações de Egito e África do Sul em um congresso da Fifa em Lisboa, em 1956, para definir as primeiras diretrizes do que viria a ser a Confederação Africana de Futebol (CAF).

Mapa da descolonização africana – toda a parte rosa e roxa não era independente quando a primeira CAN foi disputada

No dia 8 de fevereiro de 1957, em Cartum, capital do Sudão, os anfitriões, juntamente a egípcios, etíopes e sul-africanos fundaram a associação que regulamenta o futebol na África até os dias atuais. Hoje a entidade conta com 56 membros.

Foram justamente os quatro fundadores que protagonizaram a primeira edição da Copa Africana, realizada no mesmo mês, também na capital sudanesa. Dias antes do início do torneio, porém, a África do Sul (onde imperava o regime do apartheid) foi desclassificada por convocar apenas jogadores brancos.Caf-logo-

A Etiópia foi beneficiada e se qualificou diretamente para a decisão, na qual perdeu por 4 a 0 para o Egito (com 4 gols de El Diba, recorde em uma final), que eliminara antes os donos da casa com uma vitória por 2 a 1 na semifinal.

Faraós reinam desde a primeira edição

Foi o primeiro dos sete títulos africanos da seleção egípcia – soberana no continente, apesar de não repetir o mesmo sucesso em Copas do Mundo. O segundo desses triunfos, já na edição seguinte, em 1959, foi conquistado pela bandeira da República Árabe Unida, que juntou politicamente, entre 1958 e 1971, o Egito à Síria.

O torneio daquele ano reuniu as mesmas três nações da primeira edição e foi disputado em um triangular de pontos corridos, com o Sudão na segunda posição e a Etiópia em terceiro.champions_map_of_egypt_2010_africa_map_cards-p137197150972923162b26lp_400

Se os dois primeiros campeonatos foram seletos, como era a CAF na época, a partir da terceira edição a Copa Africana instaurou a sua democracia característica: para o torneio de 1962, apenas a Etiópia, como país-sede, e a República Árabe Unida, detentora do título, se classificaram automaticamente.

Para a definição das outras duas vagas, sete países (Tunísia, Marrocos, Nigéria, Gana, Uganda, Quênia e Zanzibar – atualmente parte da Tanzânia) disputaram eliminatórias, que qualificaram ugandenses e tunisianos. Ambas as seleções, no entanto, caíram no jogo de estreia e a final foi novamente realizada por etíopes e egípcios, desta vez com vitória dos primeiros.

Gana, Nigéria e Camarões – surge o “trio de ferro” da África Negra

Nos anos seguintes, uma nova força emergiu: Gana, que viria a se tornar o segundo país mais vitorioso da competição, chegou a quatro finais entre 1962 e 1970, com dois títulos.

Congo-Kinshasa (posteriormente Zaire e atualmente Rep. Democrática do Congo) e Sudão derrotaram os ganeses nas outras decisões, impedindo o que poderia ser o único tetracampeonato da história.

Já com 8 times por edição a partir de 1968 e partidas televisionadas desde 1970 (apesar de restritas a poucas residências no continente), a Copa Africana chegou à maturidade na década seguinte, com disputas equilibradas e cinco campeões diferentes em uma década: Congo-Brazzaville (1972), Zaire (1974), Marrocos (1976), Gana (1978) e Nigéria (1980).

Antes de alcançar o primeiro título, os nigerianos amargaram dois vices consecutivos. Com apenas duas taças (a outra conquistada em 1994), o país mais populoso do continente é o que mais “bateu na trave”. Foram ao todo quatro segundos lugares e incríveis sete terceiras colocações nigerianas ao longo da história.

Na edição seguinte, em 1982, um novo título ganês. Em 1984, pela primeira vez apareceu com destaque o país que é o mais bem-sucedido do continente em Copas do Mundo: já com o lendário Roger Milla, a República dos Camarões venceu seu primeiro título. O vice, para variar, foi da Nigéria.

Grandes times da África para o mundo

Depois da primeira taça, os camaroneses se mantiveram em alta. Perderam na final para o Egito, em 1986, mas recuperaram o título em 1988, diante da… Nigéria.

Em 1990, a Argélia, que quatro anos antes realizou grande campanha na Copa do Mundo de 1986, ficou com o título. Em segundo lugar, como de costume, a Nigéria.

Taribo West, símbolo da Nigéria na Copa do Mundo de 1998
Taribo West, símbolo da Nigéria na Copa do Mundo de 1998

O feito dos argelinos não foi único. Em ao menos outros três casos, as nações africanas de maior destaque nas Copas do Mundo conquistaram o continente com a mesma geração.

Já havia sido assim com os Camarões (campeão africano em 1988 e grande surpresa do Mundial de 1990). Também aconteceu com a Nigéria (finalmente campeã africana mais uma vez em 1994, abrindo uma era vitoriosa, com grandes campanhas nas Copas do Mundo de 1994 e 1998 e a medalha de ouro nas Olimpíadas de 1996 – olha o Kanu, ele é perigoooooooso… Acabou).

Por fim, o bi entre 2000 e 2002 (conquistado com o clássico uniforme sem mangas) marcou o renascimento dos camaroneses como grande força africana (qualidade comprovada com a medalha de ouro em Sydney-2000, outra memória triste do futebol brasileiro, e o vice na Copa das Confederações 2003, marcada pela morte de Mark Vivien Foe).

Camarões conquistaram a África jogando de regata
Camarões conquistaram a África jogando de regata

Neste meio tempo, três equipes tradicionais levantaram seus primeiros (e até hoje únicos) títulos: em 1990, a campeã foi a Costa do Marfim, após uma pitoresca vitória nos pênaltis por 11 a 10 contra a Gana. Em 1996 (quando o número de participantes do torneio saltou para 16), a festa foi da África do Sul, quatro anos depois de ser readmitida pela Fifa da mais longa punição a uma seleção de futebol, por conta do regime apartheid.

Em 2004, liderada pelo brasileiro naturalizado Francileudo dos Santos, a Tunísia bateu o Marrocos na final, na única decisão da história realizada apenas entre países da “África Branca”, como são conhecidas as nações árabes do norte do continente.

Ápice e fim do “Império Egípcio”

Os egípcios já haviam conquistado seu quarto título continental em 1998, mas foi em 2006 que teve início o maior domínio da competição em todos os tempos: a geração de Hassan e Aboutreika se sagrou campeã três vezes consecutivas, todas de forma invicta. A supremacia só acabou quando, surpreendentemente, os “faraós” foram desclassificados por seleções inexpressivas nas Eliminatórias para as Copas de 2012 e 2013. As zebras foram, respectivamente, Níger e República Centro-Africana.

Torcida do Níger, seleção estreante na CAN 2012
Torcida do Níger, seleção estreante na CAN 2012

Se a CAN 2010, realizada em Angola, representou o maior momento do futebol do Egito, o torneio também ficou marcado pelo episódio mais triste de toda esta história contada até aqui.

No dia 8 de janeiro, a seleção do Togo, menor nação do continente a disputar uma Copa do Mundo (história contada neste sensacional documentário), foi vítima de um ataque armado da FLEC, grupo que luta pela independência da província angolana de Cabinda, região mais rica em petróleo do país.

O ônibus togolês foi metralhado a 72 horas do início da competição, matando três pessoas (o motorista angolano, o assessor de imprensa da seleção e um assistente técnico), além de ferir outras nove (incluindo o treinador e jogadores). A equipe se retirou da competição e, em uma das punições mais absurdas da história do esporte, foi multada e suspensa de competições oficiais por dois anos por um suposto W.O.

Os togoleses foram readmitidos a tempo de disputar as Eliminatórias para a CAN 2012, marcada por zebras. Além do já citado fracasso egípcio, outros dois gigantes do continente, Nigéria e Camarões, foram eliminados, respectivamente, por Guiné e Senegal. No caso nigeriano, um profeta anteviu a decepção.

O que ninguém poderia prever é que uma seleção desacreditada derrotaria os dois favoritos disparados do torneio: Gana e Costa do Marfim.

Já três vezes vice-campeã da CAN e carregando uma goleada contra a Itália nas Olimpíadas de Seul-1988 como seu maior feito, a surpreendente Zâmbia bateu os marfinenses na final em uma longa decisão de pênaltis – algo que já havia ocorrido anos antes com a seleção de Drogba, que, ao menos, saiu vencedora da sequência de 24 penalidades contra Camarões nas quartas de final da CAN 2006.

O título foi dedicado à memória dos jogadores zambianos mortos em um terrível acidente aéreo em 1993. Coincidentemente, a maior tragédia e a maior alegria do esporte do país tiveram o Gabão com palco.

Espaço aberto para novas forças

Ao todo, 14 seleções já venceram a Copa Africana de Nações (Egito – 7 vezes; Gana e Camarões – 4; Nigéria e R.D. do Congo – 2; Costa do Marfim, Zâmbia, Tunísia, Sudão, Argélia, Marrocos, Etiópia, África do Sul e Congo – 1). Nenhum outro continente chega perto deste recorde: foram nove vencedores diferentes na Eurocopa, sete na Copa América e na Copa da Ásia, e três na Copa da Oceania e na Copa Ouro da Concacaf.

Entre os times que nunca levantaram o caneco, Mali é o que mais se aproximou, com um vice (1972) e um terceiro lugar (2012). Estrelas internacionais como KeitaDiarra e Sissoko dão ao país chances razoáveis de triunfar em 2013, apesar de atravessar o seu momento político mais conturbado da história. Em 2010, a equipe escreveu uma página gloriosa ao empatar em 15 minutos um jogo no qual era derrotada por 4 a 0 diante de Angola.

Kanouté, maior craque da história do futebol de Mali, se aposentou da seleção em 2010 e não disputará a CAN 2013
Kanouté, maior craque da história do futebol de Mali, se aposentou da seleção em 2010 e não disputará a CAN 2013

A outra equipe tradicional que jamais venceu o campeonato é Senegal, responsável por um dos grandes momentos do continente em Copas do Mundo, com o belo futebol exibido em 2002. Mesmo contando com Demba Ba, jogador africano mais promissor na atualidade, os Leões de Teranga não se qualificaram.

Como a história mostra, qualquer coisa pode ser esperada da Copa Africana que está por começar. O continente berço da humanidade é cada vez mais representativo na maior paixão do planeta.

Aconteça o que acontecer nos gramados, um momento marcante já está garantido na edição de 2013: será a primeira participação de Cabo Verde, que, com uma área de 4 mil km² e 500 mil habitantes, é o quinto menor país africano tanto em território quanto população.

Nada mais justo do que encerrar esta cronologia com imagens da festa nas ruas cabo-verdianas por ver seus “tubarões azuis” se unirem a super águias, elefantes, leões indomáveis e tantos outros seres emblemáticos em um torneio de charme incomparável.

 

 

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