Mocidade Independente (dos gramados) de Padre Miguel

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A relação entre Carnaval e futebol no Brasil sempre foi mais próxima do que nosso empirismo cultural imagina. É comum, especialmente em São Paulo, que torcidas organizadas de clubes formem escolas de samba – casos de Gaviões da Fiel (Corinthians), Mancha Verde (Palmeiras) e Dragões da Real (São Paulo).

Da mesma forma, as raízes históricas de algumas tradicionais escolas de samba estejam em times de futebol. Em São Paulo, é o caso da Vai-Vai. No Rio, da Porto da Pedra.

Os dois exemplos, porém, não são isolados. Também no Rio de Janeiro, uma das mais vitoriosas escolas das últimas décadas nasceu do futebol. Estamos falando da Mocidade Independente de Padre Miguel.

O começo foi despretensioso: no começo da década de 1950, alguns amigos do bairro de Padre Miguel começaram a se reunir para jogar bola. Em 1952, a pelada ganhou contornos mais organizados e se transformou em um time amador. Nascia então o Independente Futebol Clube.

Naqueles tempos, o Independente costumava se aventurar em campos de bairros vizinhos, como Bangu e Campo Grande. Na época, o clube já atraía nomes que seriam importantes na história da escola de samba – casos de Silvio Trindade (Tio Vivinho), Alfredo Briggs Filho, Renato da Silva, Djalma Rosa, Olímpio Bonifácio, Ivo Lavadeira, Orozimbo de Oliveira, Mestre André, Tião Marino, Altamiro Menezes (Cambalhota) e Geraldo de Souza (Prego), entre outros.

O próprio Ivo Lavadeira, um dos responsáveis pelo nascimento da Mocidade Independente de Padre Miguel, dizia que a história do clube “começou com o futebol”.

“Começou em 1952. Eu vim morar em Padre Miguel em 1952. Tinha uns colegas onde eu morava, e eu perguntei: ‘Vocês jogam bola?’. Disseram assim: ‘A gente brinca’. ‘Vamos fazer um time?’ Aí fizemos um time, o Independente Futebol Clube”, disse Lavadeira em entrevista ao programa Esporte Espetacular, da Rede Globo, em 2010.

Naquela época, o time chegou a contar com dois “quadros”, de titulares e reservas. O primeiro, segunda os fundadores, chegaram a passar um ano invicto. Por outro lado, o segundo apresentava nível técnico inferior.

Curiosamente, Ivo Lavadeira – falecido em outubro de 2014 – só topou jogar futebol porque porque não gostava de samba. “Eu detestava samba. Gostava de soltar pipa e jogar bola”, disse, ainda na entrevista de 2010.

Acontece que o fundador do clube tampouco era bom de bola. “Eu só entrei no time titular uma vez só. Faltou um goleiro e me botaram no gol”, contou ainda.

As vitórias do Independente eram bastante comemoradas no Ponto Chic, em região de forte comércio do bairro. Ali, segundo o site oficial da Mocidade Independente, os jogadores, “bons de bola e excelentes na percussão, reuniam-se em rodas de samba que acabavam se transformando em um verdadeiro bloco carnavalesco”.

“Nós saímos para jogar bola. Quando voltamos, tinha o povo esperando em Padre Miguel. Começamos dali. Dali para bloco, de bloco para escola de samba”, contou Ivo Lavadeira em 2010.

As comemorações do time deram origem a um bloco de carnaval em 1955. Em 1956, desfilou como escola de samba. Em 1957, participou do grupo de acesso do Carnaval do Rio de Janeiro. Em 1958, foi campeã do grupo de acesso. Daí em diante, nunca mais deixaria de figurar na elite da folia carioca, conquistando o título da festa em cinco ocasiões: 1979, 1985, 1990, 1991 e 1996.

O desfile da Mocidade em 1979 (Crédito: Acervo O Globo)
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