Millonarios, a testemunha viva do Eldorado Colombiano

Nestor Rossi, Alfredo di Stéfano e Adolfo Pedernera: o Balé Azul do Millonarios em campo (Crédito: MIllonarios/Site oficial)
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O Millonarios ressurgiu no cenário do futebol continental, graças à chegada do time às semifinais da Copa Sul-Americana de 2012 (perdeu para o Tigre) e a participação na Copa Libertadores de 2013 (no grupo do Corinthians). Desta forma, foi fundamental para trazer novamente à tona um dos principais momentos da história do futebol colombiano, do qual foi protagonista: a Liga Pirata da Colômbia na década de 50, conhecido como o Eldorado Colombiano.

Eles estão de volta - ou quase. (Crédito: Ricardo Matsukawa/Terra)
Eles estão de volta – ou quase. (Crédito: Ricardo Matsukawa/Terra)

A coisa começou em 1944, com a fundação da Futbolistas Argentinos Agremiados (FAA), entidade de classe criada para defender os interesses dos jogadores profissionais na Argentina. O órgão nasceu justamente no momento em que o país discutia (tardiamente) a profissionalização do esporte. Entre as alegações da FAA, a de que um atleta que atuasse pelo menos cinco vezes pelo time profissional de um clube deveria ser considerado um profissional, com direito a salário próprio.

Acontece que as propostas da FAA eram seguidamente rejeitadas pela Asociación de Fútbol Argentino (AFA), entidade máxima (até hoje) do futebol local. Em meio a tensões, os jogadores profissionais dos clubes declararam greve geral em 9 de novembro de 1948 – o campeonato local foi concluído com jogos de atletas amadores, assegurando o título ao Independiente de Avellaneda. De quebra, a greve se espalhou, chegando ao Uruguai no mesmo ano.

Aí entra uma coincidência de datas que deu um impulso importante no Eldorado Colombiano. Também em 1948, a Colômbia organizou a primeira divisão local, chamada de División Mayor del Fútbol Colombiano, ou apenas “Dimayor”, após iniciativa de Alfonso Senior Quevedo, presidente da Adefútbol – então entidade máxima do futebol local. Assim, a partir de 15 de agosto de 1948, a Colômbia passou a ter campeonato local, iniciado com a vitória do Atlético Municipal (Medellín) sobre a Universidad de Pereira por 2 a 0.

Alfonso Senior Quevedo (centro), o homem responsável pelo Eldorado (Crédito: MIllonarios/Site oficial)
Alfonso Senior Quevedo (sentado), o homem responsável pelo Eldorado Colombiano (Crédito: MIllonarios/Site oficial)

Como o país não era ligado à Fifa, os dirigentes poderiam investir grandes valores em jogadores argentinos e uruguaios sem preocupação com transferências, contratos, vínculos ou passes de atletas. Era como receber uma bolada para jogar uma pelada de alto nível. E a partir da greve dos jogadores da FAA na Argentina, essa relação custo-benefício começou a se fazer valer para os argentinos na Colômbia.

O Millonarios – não por acaso, fundado também por Alfonso Senior Quevedo – entra aí na lista, com uma das mais notáveis formações da história do futebol sul-americano. O chamado Balé Azul tinha como principais nomes Alfredo di Stéfano (vindo do River Plate) e Adolfo Pedernera (signatário da criação da FAA e vindo do Huracán), além de nomes como Nestor Raul Rossi, Julio Cozzi, Anthony Baez, Hugo Reyes e Reinaldo Mourin. Muitos deles vinham do River Plate, vice-campeão do Sul-Americano de 1948 vencido pelo Vasco da Gama.

Nestor Rossi, Alfredo di Stéfano e Adolfo Pedernera: o Balé Azul do Millonarios em campo (Crédito: MIllonarios/Site oficial)
Nestor Rossi, Alfredo di Stéfano e Adolfo Pedernera: o Balé Azul do Millonarios em campo (Crédito: MIllonarios/Site oficial)

Não por acaso, o Millonarios se destacou dos demais times na época, conquistando os títulos da Dimayor em 1949, 1951, 1952 e 1953 (este, já sem Di Stéfano, no Real Madrid), além do vice-campeonato colombiano de 1950. Logo em 1949, o argentino Pedro Cabillón marcou assombrosos 42 gols em 20 jogos pelo Millonarios e foi o artilheiro. No ano seguinte, o paraguaio Casimiro Avalos foi o artilheiro do torneio, com 27 gols em 30 jogos pelo Pereira (que foi apenas o 13° colocado) – Heleno de Freitas, pelo Atlético Júnior, de Barranquilla, marcou “apenas” nove.

O auge do Balé Azul veio entre 1951 e 1952, quando o time foi campeão, com Di Stéfano como artilheiro nos dois anos – 31 gols no primeiro ano, 19 gols no segundo. No entanto, para evitar um choque com países filiados a ela, a Fifa proibiu os clubes colombianos de disputar competições internacionais, além de suspender a seleção cafetera. Assim, os clubes foram se desfazendo de seus astros internacionais, até o fim do Eldorado. Di Stéfano, por exemplo, foi para o Real Madrid em 1953.

Ainda houve tempo para brilharecos, como os Mundialitos de Clubes de 1952 (abaixo) e 1953, vencidos pelo Millonarios contra clubes como Real Madrid, Botafogo, River Plate, Rapid Viena e Espanyol. Com as regras da Fifa em vigência, era impossível aproveitar brechas ou greves para atrair astros. Ainda assim, na década de 60, o time foi tetracampeão entre 1961 e 1964, na década do último fôlego do Eldorado Colombiano.

1952 foto diario ltimas noticias - archivo cadena capriles

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