MG: sem prazo para contar com Bruno, Montes Claros defende "oportunidade" a goleiro

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O telefone de Joevile Paulo Mocelin tem tocado com mais frequência desde 28 de fevereiro, quando o Montes Claros FC oficializou a contratação de Bruno Fernandes das Dores de Souza. Ao atender o telefonema, o gaúcho deu uma risada bem humorada. Afinal, já sabia do que se tratava o telefonema.

Fundado em 28 de agosto de 1992, o Montes Claros nunca teve o destaque nacional que vem tendo desde o fim de fevereiro. Afinal, a última contratação do clube não é um jogador com o perfil do atleta que disputa o Módulo II do Campeonato Mineiro: trata-se de Bruno, goleiro formado pelo Atlético-MG, com passagem por Corinthians e Flamengo, e condenado a 22 anos e três meses pelo assassinato triplamente qualificado da modelo Eliza Samúdio, sua então amante, em 2010. Sim, o goleiro Bruno.

Mocelin sabe que a aposta é polêmica, mas quer bancar. “Quem não quer ter um goleiro como o Bruno?”, perguntou o dirigente em entrevista ao blog. “Eu sempre fui torcedor dele. Sou gremista, sempre quis o Bruno no Grêmio”, completou ele – não por coincidência, o distintivo do clube fundado por ele é inspirado no do clube de Porto Alegre.

Empresário do ramo de churrascarias no Norte de Minas, “seu Vile” baseia sua confiança em Bruno em dois pilares: a política nacional e a fé. A família toda é frequentadora da Igreja Batista – menos ele, já que “mexe com jogo”, o que iria de encontro com a religião dos Mocelin. Por isso, ele acredita na “oportunidade” para recuperar o ex-goleiro do Flamengo.

O outro pilar são os escândalos da política nacional, em especial as denúncias do chamado Mensalão. Mocelin cita José Dirceu com frequência, justamente para apontar exemplos de nomes que prejudicam mais a sociedade do que o goleiro Bruno. “Os maiores bandidos estão no meio da política”, aponta o dirigente. “Tem gente que mata mais que esse pessoal do Mensalão? Quantas pessoas morrem por causa desses caras?”, questiona.

Polêmicas e argumentos à parte, a situação de Bruno no Montes Claros não é tão simples quanto Joevile Mocelin gostaria. O registro do jogador foi divulgado no Boletim Informativo Diário (BID) da CBF no dia 28 de fevereiro. Bruno tem contrato de cinco anos, mas não sabe quando – e se – poderá voltar a jogar futebol profissionalmente.

Bruno está preso em regime fechado na Penitenciária Nelson Hungria, em Contagem (MG), a cerca de 360 km de Montes Claros. Em primeiro lugar, o detento precisa de uma autorização judicial para se transferir para a cidade do novo clube. Por enquanto, é nisso que trabalha a defesa do jogador.

O segundo problema: mesmo caso consiga a transferência, o jogador só poderá requerir o direito ao regime semiaberto quando cumprir 40% da pena – ou seja, no começo de 2020, quando terá 35 anos. No entanto, segundo o jornal O Estado de S. Paulo, a defesa do atleta tenta uma autorização antes disso para que Bruno saia da prisão sob escolta para treinar e jogar, mesmo sem conseguir a progressão para o regime semiaberto.

Vai dar certo? O Montes Claros não sabe, mas não se preocupa. “O advogado dele tem trabalhado em Belo Horizonte (…). Nós não tocamos, não. Só acolhemos se ele vier para cá”, disse Joevile (foto ao lado). “Se vier para cá, que venha pra jogar bola o quanto antes. Mas não tenho prazo: seis meses, um ano… Se precisar renovar o contrato, a gente renova. Não tem problema”, completou o dirigente. No contrato firmado, o salário de Bruno é de R$ 1.430,00.

Bruno vai voltar a jogar? Não se sabe. Mas o Montes Claros quer dar uma chance. Você daria a mesma chance?

Confira a entrevista:

Última Divisão – Como surgiu a ideia de contratar o Bruno?

Joevile Paulo Mocelin – Eu sempre fui fã do Bruno. A gente quer dar uma oportunidade. Todo mundo merece uma nova oportunidade. Nós procuramos trazer ele para cá. Minha família é evangélica, e a gente vê que as pessoas merecem uma oportunidade a mais. Foi um dos motivos pelos quais a gente procurou ele. Se ele vier jogar, ótimo. Quem não quer ter um goleiro como o Bruno? Não foi por outra coisa. A gente vê a nossa política: os maiores bandidos estão no meio da política. Vamos aí esse negocio de Mensalão. Tem gente que mata mais que esse pessoal do Mensalão? Quantas pessoas morrem por causa desses caras? O pessoal não vê que nossa justiça é tão falha que não vê que quem faz a lei é só para eles. Ele perdeu a cabeça, está pagando pelo que ele fez. A gente não é a favor (do crime), mas dá uma oportunidade para ele, porque cadeia não recupera ninguém. Mais criminoso que nossos políticos, não tem ninguém.

Última Divisão – Mas não tem como negar que a contratação trouxe atenção para o clube, né?

Joevile Paulo Mocelin – Mas não foi pensando em mídia, não. O Montes Claros é um time humilde, que vem caminhando com as próprias pernas. Não temos segundas intenções. Não tivemos essa intenção.

Última Divisão – A ideia da contratação foi estudada por muito tempo?

Joevile Paulo Mocelin – Eu sempre fui torcedor dele. Sou gremista, sempre quis o Bruno no Grêmio. Ele passou pelo Atlético-MG, pelo Flamengo… Seria da Seleção Brasileira, se não fosse a besteira que (Bruno e cúmplices) fizeram. Qualquer homem perde a cabeça na situação que aconteceu com ele. A gente é pequenininho, não temos intenção de politica.

Última Divisão – Houve oposição no clube?

Joevile Paulo Mocelin – Não. Eu consultei meus patrocinadores. Tenho ajuda dos Supermercado BH e da Prefeitura. Consultei eles. Mas tive o aval das duas partes. Se um deles não concordasse, não traria para cá. Nossa diretoria é humilde, nosso clube nasceu da pelada. Ainda tenho uma certa liderança, não houve objeção de nada. Em um pesquisa, disseram que 59% (da torcida) é favorável. Mas não estou arrependido, não.

Última Divisão – Como a cidade tem reagido à contratação?

Joevile Paulo Mocelin – O pessoal aceitou bem, aqui no Norte de MG. O pessoal aceitou bem. Um ou outro se manifesta contra. Mas nem Deus fez tudo perfeito; não serei eu que irei contentar todo mundo.

Última Divisão – Que tipo de impacto o senhor imagina que a contratação vai trazer para o time neste momento? O Montes Claros vem bem no Módulo II…

Joevile Paulo Mocelin – Conversei como nossos atletas, muitos deles evangélicos também. Todos eles querem ajudar. Sabem que vai ser difícil ele jogar – temos três goleiros que vêm bem (Gabriel, Gilmar e Tiago). Ele não vai vir para essa temporada.

Preso desde 2010, ex-goleiro do Flamengo assinou contrato com o Montes Claros, clube do Módulo II do Campeonato Mineiro; presidente do time desmente apelo midiático e assegura ser fã de atleta, que pode jogar em 2020 (Crédito: Renata Caldeira/TJ-MG)

Última Divisão – E como os jogadores receberam a notícia?

Joevile Paulo Mocelin – Foi tranquilo, todo mundo numa boa. Não teve objeção nenhuma. Temos 24 atletas inscritos. É um time pequeno, mas todo mundo aceitou numa boa. Pelo contrário: todo mundo quer ajudar.

Última Divisão – Mesmo contratado, a situação para liberação do Bruno é complicada. O clube tem feito algum trabalho jurídico para facilitar essa apresentação?

Joevile Paulo Mocelin – O advogado dele tem trabalhado em Belo Horizonte. A gente, não. Ele é quem cuida, a pessoa responsável que olha para a gente. Nós não tocamos, não. Só acolhemos se ele vier para cá.

Última Divisão – O Montes Claros tem algum prazo para apresentar o Bruno?

Joevile Paulo Mocelin – Não. Ele está inscrito. Se vier para cá, que venha pra jogar bola o quanto antes. Mas não tenho prazo: seis meses, um ano… Se precisar renovar o contrato, a gente renova. Não tem problema.

Última Divisão – Como foi a conversa para acertar com ele?

Joevile Paulo Mocelin – Conversamos com o advogado. Mostramos interesse. Tivemos um treinador aqui (Dárcio Souza) que é amigo do advogado. Falamos sobre a possibilidade de o Bruno voltar a jogar bola. Através dessa conversa preliminar é que falamos com o advogado.

Última Divisão – O senhor falou em ressocialização do jogador. O clube tem alguma outra iniciativa neste sentido?

Joevile Paulo Mocelin – Nós trabalhamos na categoria de base com o pessoal menos favorecidos, com uns 80 meninos. A gente faz um trabalho sem custo nenhum com esses meninos. Não é um CT, é um campo de terra, onde a gente trabalha os meninos no campo à tarde. Acompanha escola dos meninos e tudo.

Montes Claros e o Módulo II do Campeonato Mineiro

O Módulo II equivale à segunda divisão do Campeonato Mineiro, com acesso à primeira divisão (Módulo I) e rebaixamento à terceira (Segunda Divisão). Em 2014, a competição tem 12 clubes divididos em dois grupos, o Grupo A (Amética-TO, Betim/Ipatinga, Democrata-GV, Democrata-SL, Social e Tricordiano) e Grupo B (Araxá, Mamoré, Montes Claros, Nacional, Patrocinense e Uberlândia). Em cada chave, os times se enfrentam em turno e returno (10 jogos).

Após o fim da primeira fase, o último colocado de cada grupo cai para a Segunda Divisão, enquanto os três primeiros de A e B (seis times no total) vão para a segunda fase. Na fase final, as equipes disputam um hexagonal em jogos de ida e volta (dez jogos por equipe); os dois primeiros colocados são promovidos para o Módulo I.

Terminada a primeira fase no último domingo (9), o Montes Claros terminou o Grupo B como o primeiro colocado, à frente dos também classificados Mamoré e Uberlândia – o Nacional de Uberaba foi rebaixado na chave. No Grupo A, Democrata-GV, Social e Tricordiano passaram para o hexagonal final, enquanto o Democrata-SL foi rebaixado para a Segunda Divisão.

(A excelente foto que abre o post é de Alexandre Battibugli, da Placar)

Destaque no Módulo II do Campeonato Mineiro, Montes Claros FC assinou com goleiro Bruno, mesmo sem saber quando poderá contar com o jogador (Crédito: Facebook/Reprodução)
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