Meu reencontro com o futebol islandês: do funk carioca ao sonho na Eurocopa

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O ano era 2010. Eu, recém-formado na faculdade de jornalismo, assinei uma das primeiras matérias da carreira graças ao Facebook, ainda uma rede social emergente no Brasil. Só mesmo através da internet foi possível localizar um jogador de futebol na obscura Islândia, país presente nos noticiários apenas em raras e inusitadas circunstâncias – como o caos aéreo europeu provocado pelas cinzas de um de seus vulcões.

Sim, o insólito parece sempre acompanhar os islandeses, e, como era quase inevitável, foi esse o espírito da minha reportagem. De que outra forma alguém se interessaria pelo futebol do 79º colocado no ranking da Fifa? A história a ser contada era sobre as curiosas danças apresentadas pelos jogadores do FC Stjarnan, equipe da primeira divisão local, após os gols (com destaque para a “Bicicleta Humana”, coreografia inspirada em um música do grupo brasileiro Mulekes Piranha).

Ih, caramba, uma bicicleta humana!

Essa combinação surreal (de jogadores islandeses com o funk carioca) me levou a entrevistar Jóhann Laxdal, zagueiro do Stjarnan e um dos melhores “dançarinos” daquele time. Na minha matéria, que pode ser lida aqui, o futebol da Islândia era colocado em segundo plano diante de toda a bizarrice da situação. Em apenas um momento, Laxdal teve a oportunidade de comentar sobre as chances de seu país em se classificar para a Copa do Mundo de 2014:

Acho incrível um brasileiro, que mora no país de melhor futebol do mundo, torcer para a Islândia. É muita honra, um grande sonho, mas é algo quase impossível se classificar para a próxima Copa, já que enfrentamos nações muito difíceis nas Eliminatórias da Europa“, disse o jogador, em agosto de 2010.

Pois é, o “quase impossível” não aconteceu por muito pouco. Naquelas Eliminatórias, a Islândia terminou em segundo lugar em um grupo com Suíça, Eslovênia, Noruega, Chipre e Albânia (outra nação que saiu da ostracismo futebolístico recentemente). Os nórdicos poderiam ter jogado o Mundial caso superassem a Croácia na repescagem, mas não foram páreos diante da equipe dos astros Modric, Rakitici e Mandzukici.

Aquele feito islandês já era enorme, porém, ainda não suficiente para me fazer lembrar de Laxdal. Depois vieram as Eliminatórias para a Eurocopa e outras mostras impressionantes de evolução: a seleção viking não precisou dançar “bicicleta humana”, pois já deveria ser naturalmente notícia por vencer a Holanda duas vezes (inclusive em Amsterdã), além de superar as tradicionais Turquia e República Tcheca. Mesmo assim, nada trazia à minha memória o papo que um dia tive com o bem-humorado zagueiro.

Laxdal e seu porco da sorte antes de um jogo do Stjarnan (crédito da foto: Facebook)
Laxdal e seu porco da sorte antes de um jogo do Stjarnan (crédito da foto: Facebook)

A EUROCOPA

O tempo passa, estamos em junho de 2016. A Islândia estreia na Euro, marca seu primeiro gol, se mantém invicta, consegue a classificação para o mata-mata, desperta curiosidade mundial… então, quando a história parecia boa o suficiente, a folclórica e minúscula nação choca o mundo ao eliminar a Inglaterra. Meu cérebro começa a processar algumas informações, sentindo algo muito familiar nessa série de acontecimentos.

De repente, jogadores e torcedores islandeses se unem para bater palmas sincronizadas, como se fosse uma dança comemorativa. Espera aí, Islândia + Futebol + Dança + Comemoração. Para tudo, agora as coisas se encaixam! Eu já entrevistei um jogador de futebol islandês que comemorava gols com danças, preciso dar um jeito de conversar agora com o bom e velho Jóhann Laxdal.

Seis anos depois, não foi muito difícil voltar a localizá-lo. Laxdal me respondeu prontamente, pouco mais de meia hora após o jogo. Direto da sua pequena Garðabær, cidade de 10 mil habitantes na grande Reykjavík (a capital do país), o zagueiro se lembrou de mim e não conteve a euforia com o resultado. Sua única frustração era não poder celebrar bebendo cerveja, pois seu time, o mesmo Stjarnan – atual quarto colocado na liga islandesa -, se preparava para enfrentar o Akranes fora de casa dentro de dois dias.

Meu primeiro gesto foi pedir desculpas por não tê-lo procurado em tanto tempo. Na sequência, parabenizei o país e manifestei minha alegria. O momento era grandioso demais, ele contava os minutos para rever o jogo em uma reprise na televisão local. Era sem dúvida um dos dias mais felizes da vida dele e minha aparição inesperada poderia soar um pouco incômoda, será que não?

Nem tanto, Laxdal tinha certeza que voltaria a ver aqueles lances inúmeras outras vezes ao longo da vida. Com a mesma gentileza de seis anos atrás, o islandês topou dar uma entrevista naquele instante. Segue o nosso papo:

SEIS ANOS DEPOIS, NOVA ENTREVISTA COM JÓHANN LAXDAL

Última Divisão: deveria ter te procurado muito antes, já quando a Islândia ficou perto de jogar a Copa em 2014. Vamos começar falando da sua carreira: o que mudou depois de 2010?
Jóhann Laxdal:
estou com 26 anos agora e minha carreira vai muito bem, continuo zagueiro do Stjarnan, o time da minha cidade. Em 2014 eu rompi os ligamentos do tornozelo e fiquei afastado quase todo o ano de 2015, mas agora estou de volta. 

Última Divisão: e o Stjarnan? O que mudou desde 2010? Vocês não dançam mais depois dos gols?
Jóhann Laxdal:
não dançamos mais como antes, aquela fase passou, mas temos feito coisas incríveis dentro de campo. Em 2014 fomos campeões nacionais e enfrentamos o Celtic na fase preliminar da Liga dos Campeões [duas derrotas: 2 a 0, na Escócia, e 4 a 1, na Islândia]. Um ano antes já havíamos jogado a Liga Europa e avançamos quatro fases. Passamos por Bangor [País de Gales], Motherwell [Escócia], Lech Poznan [Polônia] e caímos apenas diante da Inter de Milão [derrota por 3 a 0, na Islândia, e 6 a 0, na Itália].

Comemoração do Stjarnan se faz presente em quadro com quase 500 fatos marcantes na história do futebol, uma famosa caricatura de 2014 do cartunista Alex Bennet
Comemoração do Stjarnan se faz presente em quadro com quase 500 fatos marcantes na história do futebol, uma famosa caricatura de 2014 do cartunista Alex Bennett

Última Divisão: quais razões você aponta para esse desenvolvimento do futebol islandês? Isso aconteceu apenas com a seleção ou também pode ser notado no campeonato local?
Jóhann Laxdal: 
acredito que a nossa força mental seja muito boa e nos ajude bastante. Há alguns anos houve um grande investimento em futebol e hoje as crianças começam muito novas, por volta dos 7 anos de idade, e podem treinar entre 3 e 4 vezes por semana com técnicos que conhecem bastante. Estamos colhendo os maiores resultados com a nossa seleção, mas o campeonato local também está evoluindo.

Última Divisão: em 2010, quando conversamos, você já colecionava algumas passagens pela seleção nacional de base. Já atuou no time principal?
Jóhann Laxdal:
sim, fui convocado em 2013, mas depois me contundi e não tive mais chances. Quem sabe um dia no futuro… agora a seleção não procura mais tantos jogadores na liga local, pois muitos jovens talentosos têm sido contratados para outras ligas europeias.

Última Divisão: gostaria de jogar fora da Islândia e aumentar suas chances na seleção?
Jóhann Laxdal: 
quem sabe…

Última Divisão: qual o seu jogador favorito na seleção? Algum deles é seu amigo próximo?
Jóhann Laxdal:
Ragnar Sigurðsson [atleta do Krasnodar, da Rússia] é um zagueiro muito bom, gosto de vê-lo jogar. Conheço bastante gente da seleção, mas meu melhor amigo é o roupeiro, o Siggi Dúlla, ele é carismático e muito famoso na Islândia.

Última Divisão: quais eram suas expectativas no começo da Euro? E o que você espera agora? Como pode descrever o país neste momento?
Jóhann Laxdal:
esperávamos chegar entre os 16 melhores, certamente. Achávamos que poderíamos passar como terceiro no grupo [a Islândia foi a segunda colocada]. Mas vencer a Inglaterra foi muito melhor do que poderíamos imaginar e agora tudo é possível. O país está eufórico, todos saem nas ruas para assistir aos jogos e festejar. 

Última Divisão: você tem amigos que viajaram para a França e estão acompanhando tudo de perto?
Jóhann Laxdal: 
sim, alguns dos meus melhores amigos estão na França como torcedores. Acho muito legal poder acompanhá-los no snapchat.

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Stjarnan campeão islandês em 2014

Última Divisão: e pensar que essa festa toda já poderia ter acontecido na Copa de 2014… o que faltou para vencer a Croácia na repescagem?
Jóhann Laxdal:
não estávamos prontos e a Croácia mereceu, mas aqueles jogos nos tornaram mais fortes. Aprendemos muito. 

Última Divisão: o grupo nas Eliminatórias de 2018 terá os croatas novamente. Parece uma chave difícil para você (com Croácia, Ucrânia, Turquia, Finlândia e Kosovo)?
Jóhann Laxdal: 
acho que agora ninguém pode menosprezar a força da Islândia. Dois times desse grupo podem ir para a Copa [um pela repescagem] e entraremos confiantes. Todos aqui querem muito jogar o Mundial de 2018. 

Última Divisão: falando em menosprezar a Islândia, o que achou das declarações do Cristiano Ronaldo? [após empatar com a seleção nórdica, o craque português criticou o estilo de jogo defensivo do adversário e a maneira como celebraram o resultado] Jóhann Laxdal: achei lamentáveis os comentários. Mostram como ele não sabe perder. Para mim foi divertido ver um jogador vencedor como ele “chorando” na imprensa por nossa causa. 

Última Divisão: e o Gary Lineker? Viu o Twitter dele? [ex-jogador inglês, que no momento da entrevista tuitou que a Islândia tinha mais vulcões do que jogadores profissionais e por isso aquela era a pior derrota da história da Inglaterra]
Jóhann Laxdal: a mesma coisa [risos].

Última Divisão: por falar em futebol profissional, você era jardineiro e jogador amador quando conversamos em 2010. E hoje em dia?
Jóhann Laxdal: fui profissional por um curto tempo, mas agora estou mais para amador novamente. Trabalho hoje em uma loja de eletrônicos chamada Ormsson. 

Última Divisão: por fim, você mantinha contato com fãs brasileiros na época das comemorações com dança, tinha até uma conta no Orkut… ainda fala com alguém?
Jóhann Laxdal: ainda falo de vez em quando com um ou dois brasileiros, mas sempre conversas rápidas, não tenho mais fãs [risos].

Última Divisão: e o que achou do 7 a 1? Tem acompanhado o futebol brasileiro?
Jóhann Laxdal: foi inacreditável um placar daqueles em um jogo de tão alto nível. Mas, tirando a Copa do Mundo, não acompanho tanto o futebol brasileiro, então é difícil comentar sobre isso. 

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