“Marcos demonstrou que era falível como todo torcedor”

São Marcos de Palestra itália: obra de Celso Campos Júnior sobre o ídolo palmeirense
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Ser ídolo nos bons e maus momentos é algo restrito a poucos atletas. Dentro do Palmeiras, o goleiro Marcos Silveira Reis conviveu com esses dois lados da moeda. Foi um dos responsáveis pela conquista da Taça Libertadores da América em 1999, momento glorioso da história alviverde. Da mesma maneira, atuou pelo clube num dos períodos mais dramáticos do time de Palestra Itália: a disputa da Série B em 2003.

Publicada pela Realejo Livros em fevereiro deste ano, São Marcos de Palestra Itália foi a primeira biografia do goleiro a ganhar o mercado editorial. A obra foi assinada pelo jornalista e historiador Celso de Campos Júnior (autor também de Nada mais que a verdade- a extraordinária história do jornal Notícias Populares e Adoniran: uma biografia). Última Divisão conversou com o pesquisador sobre Marcos, Palmeiras e as relações do mercado editorial com o futebol.

Ultima Divisão: São Marcos de Palestra Itália é baseado em reportagens de jornais paulistanos. Você pretendia entrevistar o próprio goleiro e outros ex-jogadores para elaboração da obra?

Celso de Campos Júnior: As reportagens de jornais foram parte fundamental da pesquisa, mas não a única. Algumas entrevistas-chave, como por exemplo a do olheiro Neno, que levou Marcos para o Lençoense, e de Raul Pratali, seu primeiro técnico nos juniores do Palmeiras, serviram para recuperar detalhes esquecidos do começo da carreira do Marcos – detalhes que, na época, ficaram alheios ao próprio arqueiro, como a negociação do alviverde com a equipe do interior por seu passe. Quanto ao Marcos, obviamente uma entrevista especial para o processo de confecção do livro enriqueceria ainda mais o material. Entretanto, acredito que, com as reportagens que eu já havia feito antes com ele, e com o farto material coletado em suas entrevistas ao longo do tempo, foi possível cobrir sem falhas todo seu período profissional.

UD: Ser ídolo nos bons e maus momentos tornaram o Marcos um atleta diferenciado dentro do Palmeiras?

CCJ: Eu diria que, mais até do que a parte técnica, essa foi a principal razão de o Marcos ter se sido santificado pela torcida do Palmeiras. Sem essa postura, de nada adiantariam as defesas milagrosas – no frango seguinte, o goleiro teria sido transformado definitivamente em vilão, a torcida teria pedido sua cabeça. Curiosamente, Marcos se tornou “santo” justamente por seu aspecto mais humano: ele demonstrou que, como qualquer torcedor, era falível, mas que jamais fugiria à luta e procuraria dar sempre seu melhor. Isso fez o goleiro diferente não apenas no Palmeiras, mas em todo futebol brasileiro. Quantos jogadores dão a cara para bater dessa forma hoje em dia?

O autor Celso de Campos Júnior

UD: Poucos atletas profissionais tiveram a sinceridade demonstrada em entrevistas como o Marcos. Você acredita que podem surgir novos ídolos em grandes clubes com esse perfil?

CCJ: Em uma era de jogadores cada vez mais blindados pelos clubes e por suas legiões de assessores pessoais, de marketing, de imprensa, de imagem, acho difícil. Não deixarão de aparecer ídolos – até porque o futebol precisa disso -, mas o perfil certamente muda. Aliás, já mudou. Basta ver que os principais nomes do futebol brasileiro têm todos um discurso parecido, pré-moldado. Quando algum deles escapa do roteiro e escreve espontaneamente uma mensagem polêmica no twitter, logo vêm os desmentidos e as explicações estapafúrdias. Se for preciso, coloca-se até a culpa no primo, dizendo que o parente roubou a senha do atleta e saiu por aí escrevendo barbaridades em seu nome.

UD: Biografias de esportistas são algo comum nos Estados Unidos e Europa. Por quê esse segmento ainda é pouco explorado no Brasil?

CCJ: Havia um certo preconceito do mercado editorial brasileiro em relação aos livros sobre esporte, especialmente sobre futebol, algo que, felizmente, está sendo quebrado. As editoras perceberam que, preparando livros de qualidade, com edições caprichadas, o livro de futebol tem um mercado potencial enorme. Em relação às biografias, um problema adicional no Brasil é a questão de ser autorizada ou não – pelo biografado ou por sua família. Caso não sejam autorizadas, muitas editoras, com medo de um possível processo judicial, não se arriscam a lançar o livro, por melhor que seja o material. Mas a Lei das Biografias deve passar em breve no Congresso, e então espero que mais e mais obras apareçam.

UD: Novas biografias sobre o Marcos estão sendo preparadas no momento. O que você acha disso?

CCJ: Acho ótimo! Estou curioso para lê-las. Um nome como o Marcos e uma torcida como o Palmeiras merecem muito mais do que um livro. Até porque uma biografia sempre é diferente da outra – a visão e o estilo dos autores, as histórias abordadas, enfim, serão livros que se complementarão.

UD: Qual é a sua opinião sobre o momento atual do Palmeiras? A diretoria tem culpa por esse cenário?

CCJ: Diria que as diretorias, no plural, têm culpa no cartório. Pesquisando a história do Palmeiras nos últimos 30 anos, pelo menos, percebe-se uma constante entre a maioria absoluta dos diretores: pensa-se menos no clube e mais na própria carreira. O período de sucesso dos anos 1990 aconteceu, como todos sabem, quando a Parmalat implantou a política de gestão profissional do departamento de futebol. Antes e depois, o drama é o mesmo. Um amadorismo inacreditável. Alguém ousa dizer que isso acabou?

UD: Você pensa em escrever biografias sobre outros ídolos do futebol?

CCJ: Com certeza. O futebol brasileiro é cheio de boas histórias!

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