Los Cebollitas: o time histórico e pouco conhecido de Maradona

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Os “Cebollitas” eram praticamente imbatíveis nas categorias infantis da Argentina. Chegaram a ficar 136 partidas sem perder. Por isso um raro resultado negativo ficou marcado na memória de quem viu. Após empate por 2 a 2 com o time da província de Santiago del Esteros, o jogo foi para os pênaltis, pois decidia a semifinal do Torneio Evita. Os favoritos perderam por 3 a 1. O craque do time errou uma das cobranças e chorou. Foi consolado pelo técnico adversário, Elías Ganem: “não chore, irmão, você vai ser o melhor do mundo”. 

Aquele garoto de 13 anos era Diego Maradona. Alguns acreditam que ele cumpriu a profecia. Outros acreditam que ele chegou muito perto. Seja como for, a história mostra como “El Diez” era diferenciado desde criança.

Mas naquela época o apelido de Maradona era outro. Nem “El Diez” e nem “El Pibe”. Por causa dos cabelos longos, era chamado de “Pelusa”. E foi exatamente essa resposta dada por um amigo dele, Goyo Carrizo, quando um técnico perguntou se ele tinha amigos que também jogavam bem. “Pelusa é melhor que eu”. Os dois se enfrentavam em competições do bairro, em Fiorito, e tinham a mesma idade, 9 anos. 

Maradona e Carrizo

Então Maradona foi até uma avaliação do Argentinos Juniors, time que tem ótimo histórico na revelação de jogadores. É chamado de “berço de craques”, por participar da formação de jogadores como Claudio Borghi, Riquelme, Redondo, Sorín e Cambiasso, por exemplo. 

Mas por pouco o Argentinos não perdeu a chance de avaliar “Pelusa”. O garoto teve dificuldades para convencer o pai a lhe dar autorização e dinheiro para ir até o o local do teste. Quando chegou lá, a chuva impedia a realização de qualquer jogo. Maradona sabia que, se voltasse para casa, dificilmente o pai iria liberá-lo novamente. 

Mas então surgiu o homem que mudou toda história: Francis Cornejo levou os garotos para outro campo e, quando a bola rolou, ficou espantado com a habilidade de Maradona. Perguntou diversas vezes a Goyo se a idade estava certa. Depois foi verificar os documentos. Diego nasceu em 30 de outubro de 1960. Francis quase não acreditava no que tinha visto. 

Cornejo e Maradona

Então Cornejo se tornou um novo pai para Maradona. Passou a bancar a ida dele para os treinos do Argentinos Juniors, com passagens de ônibus, comida e até chuteiras. E mais importante que isso: treinou o garoto em um time que fez história: aquele “Los Cebollitas”, com garotos nascidos em 1960, que eram pequenos de estatura e por isso receberam esse apelido. A escalação base tinha Ojeda; Trotta, Chaile, Chammah, Montaña; Lucero, Dalla Buona, Maradona; Duré, Carrizo e Delgado.  

Em 1974, um ano depois da citada decepção nos pênaltis, eles se redimiram e ganharam o Torneio Evita, um dos vários troféus que aqueles garotos levantaram nas categorias infantis do Argentinos Juniors. Entre tantos recordes, eles até viajaram para jogar no Peru e no Uruguai, algo muito raro na época para jogadores infantis. Há quem diga que eles foram até usados como propaganda do regime peronista – foram tratados como exemplo de boa educação esportiva na Argentina. 

Mas isso pouco importava para aqueles adolescentes habilidosos. Eles só queriam se divertir. Em um determinado jogo, Maradona e Goyo não começaram jogando porque foram poupados. Os “Cebollitas” perderam por 1 a 0 no 1º tempo. Depois do intervalo, os dois entraram em campo, construíram seis gols em 15 minutos e começaram a brincar: apostaram quem ia acertar uma vaca que estava fora do campo. Isso gerou cenas bizarras, afinal eles chegavam perto do gol e chutavam a bola para longe. Poderiam ter feito dez gols, mas preferiram brincar. E Maradona venceu a aposta, claro. 

Maradona em estreia pelo Boca Juniors

Outra história curiosa aconteceu quando Maradona foi jogar em “La Bombonera”, estádio do Boca Juniors, clube do coração dele. Novamente os “Cebollitas” deram show. Porém, o técnico resolveu tirá-lo do campo em um determinado momento. A torcida do Boca que estava presente passou a vaiá-lo e pediu para que o garoto ficasse. Ele ficou. E começou ali a construir uma ligação que viria ser ainda maior com os xeneizes futuramente.

Mas é claro que um dia os “Cebollitas” iam acabar. Aos poucos os jogadores começaram a ir para outros times, viraram profissionais e muitos nem conseguiram isso. Goyo Carrizzo, o principal amigo de Maradona, teve a carreira atrapalhada por uma lesão grave no joelho direito.  

Estádio do Argentinos Juniors se chama Diego Armando Maradona

Já Maradona subiu para o profissional do Argentinos Juniors aos 16 anos. O resto da história é bastante conhecida e já tinha sido prevista por Ganem. Mas o início dela merece ser resgatada e eternizada. Maradona não seria o mesmo sem “Los Cebollitas”. 

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