Livro resgata carreira de goleiro da Academia do Palmeiras

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livro-caipira-sonhadorForam 17 anos como atleta profissional. Neuri Antonio Cordeiro defendeu 10 equipes de quase todas as regiões do Brasil, mas ficou mesmo famoso quando jogou no Palmeiras na época da Academia, atuando ao lado de ídolos como Dudu e Ademir da Guia. Aos 69 anos, o goleiro está radicado em Marília, interior de São Paulo, e ganhou uma biografia: Um Caipira Sonhador, assinado pelo jornalista Roberto Cezar e editado de maneira independente.

“Eu queria mostrar a minha história dentro do futebol e fora dele”, afirma Neuri. Atualmente, o goleiro é apresentador e comentarista esportivo da TV Cidade de Marília, onde apresenta os programas Bola na Trave (segunda à sexta das 11h30 às 12h30) e Bola e Viola (quartas das 20h às 21h30). O ex-atleta conversou por telefone com Última Divisão e relembrou passagens de sua carreira:

Última Divisão: Como surgiu a ideia do senhor escrever um livro sobre a sua carreira?

Neuri Cordeiro: Olha, eu sempre tive vontade de fazer um livro. Porque é aquilo que eu digo: um homem precisa plantar uma árvore, ter um filho e escrever um livro. Como eu já plantei várias árvores e os filhos estão grandes, eu decidi colocar aquilo no papel. Minha mulher me ajudou e um amigo jornalista, que é meu parceiro, acabou entrando para nos auxiliar. Ficou bacana e conta a minha história. Nós não fizemos isso com a intenção de ganhar dinheiro. Mas, sim, mostrar a minha história para as pessoas.

UD: O começo da carreira do senhor foi na Ferroviária de Botucatu e depois no América de Rio Preto. Isso numa época em que o futebol do interior de São Paulo era muito forte. O senhor conta muitas histórias dessa época na obra?

NC: Sim. Inclusive na época do América a gente brigava pra não cair, nossa intenção era ficar no meio da tabela. Depois, eu joguei no Marília e foi a mesma coisa. Mas foi uma época boa porque os times do interior daquele tempo poderia brigar pelo título hoje em dia. Uma época boa pra diversos times interioranos como Ferroviária, Botafogo de Ribeirão, Comercial, São Bento. Com os elencos daquele tempo os times poderiam ser campeões hoje.

UD: O Rubens Minelli foi uma pessoa muito importante na carreira do senhor?

NC: Muito. Ele que me levou da Ferroviária de Botucatu pro América. Depois nos cruzamos no Palmeiras. Ele acabou sendo meu treinador em dois clubes. Quando eu cheguei no Parque Antártica, o treinador era o Filpo Nunez. Com o professor Minelli foram uns dois anos de convivência. Ele foi uma pessoa muito importante e eu gosto muito dele.

Neuri e o time do Palmeiras na época
Neuri e o time do Palmeiras na época

UD: Uma das dificuldades do senhor se firmar no Palmeiras foi concorrer com o Leão na mesma posição. Como foi isso?

NC: Quando o Leão chegou, a minha briga para ser titular era com o Chicão. O Émerson era mais um que ia compor elenco. Ele não era visto com muito agrado por ninguém, na verdade. Quando eu cheguei haviam vários goleiros no elenco, como o Maidana, Perez, Raul Marcel. Aí o Leão deu uma sorte que eu e o Chicão nos machucamos. Ficamos 15 dias afastados e teve um jogo contra o Santos do Pelé na Vila Belmiro. Me lembro bem desse jogo. Ele acabou indo bem e ganhou a posição, foi no final de 69. Nisso, alguns foram sendo emprestados, como o próprio Bernardino, que veio do juvenil. Essa é a história.

UD: Depois era difícil ter alguma oportunidade no time titular?

NC: Era complicado. Depois, ele teve a sorte ser terceiro goleiro da Seleção em 1970, reserva do Félix e Ado. Quando ele voltou, eu estava jogando. O Mauro Pinheiro, comentarista da Rádio Bandeirantes, chegou a dizer nos comentários dele que eu era melhor que o Leão. Mas ele voltou da Seleção e ainda era mais novo. A pressão sobre o Minelli foi grande e a briga pela posição na época não era fácil.

UD: Depois do Palmeiras, o senhor acabou indo pro Vitória da Bahia. Como foi isso?

NC: Era difícil receber lá. Fiquei três meses e meio, mas não me adaptei. Mesmo assim, a gente acabou sendo campeão baiano. Acabei voltando ao Palmeiras, onde desejavam que eu ficasse, mas eu queria ter oportunidade de atuar. Minha ideia era rodar pelo Brasil para jogar, se possível. Não queria ficar sentado no banco. Por isso, acabei indo pro Atlético Paranaense. Fiquei um ano e acabou sendo difícil por essa questão do lado financeiro.

neurimariliaUD: Após esse período rodando, o senhor foi pro Marília e acabou fixando-se.

NC: Sim. No Marília eu fiquei três anos e foi tudo certo. Eles pagavam em dia. O problema naquela época era você receber em dia porque a gente ganhava pouco. No Palmeiras mesmo, quem ganhava mais era o Ademir da Guia. Ele devia ganhar em torno de 50 mil reais. Era um sistema totalmente diferente. Vim jogar em Marília, gostei da cidade, minha família gostou e acabei ficando. Tive até uma oportunidade de ir pra Portuguesa, mas não quis ir. Não tinha segurança nenhuma do que poderia ser ali. Eu gosto muito daqui (de Marília). Tanto que quero morrer aqui.

UD: Como foi essa passagem que o senhor teve pelo futebol de Mato Grosso?

NC: Foi muito positiva. Atuei no Operário e fomos campeões mato-grossenses. Fizemos uma campanha muito boa no Campeonato Brasileiro em 1976. Infelizmente, o futebol daquele estado caiu e hoje não tem nada. Está totalmente parado. Naquele tempo, tanto o Comercial quanto o Operário estavam muito bem. Na época, jogar lá tinha uma chiadeira danada porque Campo Grande e Cuiabá são muito longe. Você ficava um dia inteiro viajando pra ir lá jogar. Depois, eles dividiram o estado.

UD: Como foi a experiência do senhor como treinador?

NC: Olha, eu treinei somente três times: Marília, Tupã e Garça. Não tive grandes intenções de ir pra frente. O seu Mário (Travaglini, treinador) chegou a me indicar pra alguns times. Mas eu comecei a pesar as coisas. Sempre gostei de Marília e nunca fiz questão de ficar rico, ganhar muito dinheiro. Então, acabei ficando por aqui mesmo.

UD: O que senhor espera com esse livro?

NC: Foi um sonho que eu realizei. Tanto que o livro se chama O Caipira Sonhador. Todo ser humano precisa acreditar em seu sonho e realizar. Antes de eu virar jogador, eu morava num sítio no interiorzão. Meu sonho era um dia jogar no Palmeiras. Eu acreditei e trabalhei duro. Quando eu assinei contrato com o Palmeiras, acabei realizando esse sonho. É o que eu digo pra você e pros meu netos: você tem que acreditar e correr atrás. Porque os sonhos podem se realizar.

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