Livro conta a história dos jogos disputados na neve no Brasil

Arquivo Pessoal
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Já contamos aqui no Última Divisão sobre o histórico jogo da neve disputado entre Esportivo de Bento Gonçalves e Grêmio no estádio da Montanha em 1979. Aquela partida ficou famosa até hoje por ter sido a única transmitida na TV, proporcionando imagens curiosas e inéditas para todo o País.

Capa do livro ‘Pé-frio, futebol e neve no Brasil’
Capa do livro ‘Pé-frio, futebol e neve no Brasil’

Porém, além daquele jogo, há o registro de outros 7 jogos disputados sob a neve, todas ocorridas no Sul durante a década de 70. A história de todos esses raros jogos na história do futebol brasileiro foi compilada pelo jornalista e pesquisador Henrique Porto no livro Pé-frio, futebol e neve no Brasil. A obra está em pré-venda no site do Catarse e o lançamento está marcado para julho de 2020.

Pé-frio, futebol e neve no Brasil é dividido em oito capítulos, cada um recontando os principais momentos dessas partidas do ponto de vista dos jogadores, que não estavam acostumados a jogar sob condições tão severas de temperatura. Os jogos foram:

  • Juventude 2 x 0 Internacional de Santa Maria-RS (17/06/1975)
  • Caxias 2 x 2 Cruzeiro-RS (12/08/1978)
  • Chapecoense 3 x 2 Criciúma (31/05/1979)
  • Esportivo 0 x 0 Grêmio-RS (31/05/1979)
  • Caçadorense 3 x 1 Palmeiras-SC (31/05/1979)
  • Caxias 1 x 0 Grêmio Bagé (31/05/1979)
  • Internacional-SC 1 x 1 Avaí (31/05/1979)
  • Gaúcho 0 x 0 Farroupilha (31/05/1979)

Ocorridas em um tempo em que uniformes com tecnologia térmica não existiam, os atletas improvisaram: muitos foram a campo com meia-calça, jornal na chuteira e com agasalhos por debaixo da camisa, além de tomarem café com conhaque para manter o corpo aquecido.

Um dos destaques da história é Luís Felipe Scolari, então zagueiro do Caxias do Sul, que teve a chance de disputar dois jogos na neve no Brasil. Segundo ele, a bola ficou tão dura que parecia estar chutando uma bola de ferro.

O Última Divisão conversou com Henrique Porto, que contou algumas outras curiosidades dessas partidas inusitadas na neve.


Última Divisão: De onde veio a ideia do livro?

Henrique Porto: Tinha acabado de escrever a história do Juventus de Jaraguá do Sul (SC), que é a cidade onde resido, e quando estava pesquisando sobre os jogos de 1979 do clube, me deparei com essa história dos jogos na neve. Já tinha ouvido falar dessa história, mas nunca tinha me aprofundado muito.

Quando ouvi sobre isso novamente, a primeira coisa que fiz foi pesquisar se o Juventus não estava entre as equipes que jogaram na neve. Fui ver que o Juventus foi jogar contra o Figueirense em Florianópolis, e nevar lá seria meio difícil, então comecei a me aprofundar nos outros jogos. Foi aí que apareceu o jogo da Chapecoense e da Caçadorense contra o Palmeiras de Blumenau.

Então, comecei a pesquisar mais sobre a história desses jogos, visitando arquivos históricos e tentando encontrar personagens. Minha ideia inicial era falar só sobre esses três jogos de Santa Catarina, mas quando já estava com o texto pronto, minha esposa sugeriu incluir outros jogos com neve no Brasil, até para ampliar a obra. Foi então que comecei a pesquisar sobre o Rio Grande do Sul, porque sabia que teve aquele Grêmio e Esportivo, e encontrei outros jogos que não são citados em lugar nenhum, como o do Gaúcho contra o Farroupilha.

UD: Seis desses jogos aconteceram em 31 de maio de 1979. Qual é a explicação para tanta neve no Sul nesse dia?

HP: O inverno naquele ano foi muito rigoroso não só na América do Sul, mas no mundo inteiro. Chegou até a nevar no deserto do Saara. E foi um fenômeno que pegou a Região Sul de supetão, porque já era para estar frio mas não era aquele inverno intenso ainda. Só que naquela noite ele chegou muito forte: teve campo que chegou a medir 30 cm de neve com a bola rolando. E em cidades mais altas acabou nevando bastante.

Naquela noite em específico, uma quarta-feira, teve rodada só do campeonato catarinense e gaúcho. Cheguei a pesquisar do paranaense também, mas não teve jogo naquela quarta-feira, o que é uma pena, porque senão a gente teria mais alguns jogos para contar a história.

Internacional de Lages e Avaí em 31 de maior de 1979 (Reprodução/Globo Esporte)

UD: Você chegou conversar com algum jogador ou treinador que estavam nestes jogos? Como eles se recordam da experiência?

HP: O relato mais legal foi do Aíta, jogador do Grêmio Bagé. Ele conta que naquela época não havia os recursos que temos hoje, como usar uma camisa térmica para o frio. Então eles acabaram jogando “no pelo”, porque ninguém imaginava que ia nevar ou fazer tanto frio naquela noite e todo mundo teve que improvisar.

Eles chegaram a colocar jornal na chuteira para diminuir a umidade, a grande maioria jogou com uma agasalho de viagem e uma calça de moletom por baixo do uniforme e teve muito café com conhaque. Todo mundo relata que café com conhaque foi o que eles tomavam para manter o pique e a empolgação. E o Felipão falou que lá em Caxias era café com graspa (a pinga feita de vinho).

E teve também a dificuldade natural de jogar na neve. Na Europa, a bola, por exemplo, é laranja para facilitar a visualização na neve. E depois eles precisam, de tempos em tempos, limpar a marcação para que os jogadores possam enxergar onde começam e terminam as linhas do campo.

Mas, naquela vez, ninguém tinha experiência. Então nevou e não dava para ver marcação nenhuma, a bola era branca, a luminosidade dos estádios era pouca, e todo mundo acabou sofrendo por causa disso. O Felipão relatou que a bola ficou muito dura, parecia que estava chutando uma bola de ferro. E fora que o campo ficava escorregadio e depois que neve derretia virava um lamaçal.

A grande questão é que ninguém estava preparado para jogar futebol na neve e um dos principais focos do livro é mostrar justamente o quanto eles sofreram dentro de campo. É bonito jogar na neve? É, mas e as pessoas que não estavam sequer preparadas para aquela situação? Ainda mais que grande parte dos jogadores nunca tinha visto neve na vida, imagina jogar nessas condições.

UD: Quais as histórias curiosas que você descobriu desse dia?

HP: Teve a história do Aíta, que estava em lua de mel e o time não tinha todos os jogadores para entrar em campo. Ligaram para ele e ele topou ir — e acabou entrando numa fria, literalmente, com a mulher passando frio no estádio.

Também teve o caso do Felipão, que jogou dois jogos na neve quando ele ainda era o zagueiro Luis Felipe do Caxias. Até no livro faço uma relação sobre o quanto jogar em situações tão adversas como atleta ajudou ele a ser esse técnico mais cascudo e matreiro que ganhou fama na época do Criciúma, no Grêmio e no Palmeiras.

Teve também o caso do goleiro Jurandir do Criciúma, que acabou jogando de meia-calça. Ele estava no hotel, viu que estava nevando e começou a pensar o que poderia fazer para afastar o frio. Então, ele lembrou que, quando as mulheres vão em festas, elas usam saia e não passam frio. Daí ele decidiu sair na cidade para comprar uma meia-calça e, na hora do jogo, forrou com jornal.

Outra história curiosa desse jogo é que os jogadores do Criciúma mal conseguiram tomar banho após o jogo porque a água congelou nos canos do Índio Condá. E além de tudo ainda tiveram que dar carona para o árbitro da partida, já que as estradas estavam quase todas intransitáveis.

Felipão no Caxias do Sul (Gazeta Press)

UD: E conseguiu encontrar algum bravo torcedor que estava no estádio?

HP: Quando comecei a fazer o livro não foquei muito em torcedor, mais em quem estava dentro de campo. Mas consegui um relato de uma pessoa aqui de Jaraguá que eu conheço pessoalmente e nem sabia que ele estava em um desses jogos, para ver como esse mundo é pequeno.

Ele conta que estava nesse primeiro jogo do Juventude contra o Inter de Santa Maria junto com a irmã. A história que se conta é que a nevasca foi muito forte nesse primeiro dia e a cidade inteira foi para a rua. E como o jogo não foi desmarcado, e o estádio fica em uma região bem central de Caxias, todo mundo correu para ver o jogo porque era algo inédito. E uma dessas pessoas era esse conhecido.