Lamartine Babo: Rei do Carnaval e do Futebol

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Em junho de 1963, perdemos Lamartine Babo, grande compositor de marchinhas de carnaval como “O Teu Cabelo Não Nega”, “Grau 10” e “Marcha do Grande Galo”. Lamartine nasceu no Rio de Janeiro em 10 de Janeiro de 1904 e começou compondo valsas aos 14 anos, também compôs músicas religiosas e operetas. Mas foi realmente com o carnaval que Lamartine ficou conhecido, recebendo inclusive o título de “Rei do Carnaval”. Mesmo tendo sido um leigo em técnica musical, ele criava as melodias instrumentais com sua própria boca (imitando um trombone) e assim os músicos que o acompanhavam faziam as harmonias e os temas instrumentais.

Bom, caro leitor, você não está enganado, este sim é o Última Divisão. Ainda um blog sobre futebol. Não estamos mudando nossas pautas para o mundo da música; a relação de Lamartine com o futebol é bastante estreita e curiosa.

Lamartine Babo

Estamos em 1949 e o Brasil está se preparando para receber no ano seguinte o então Campeonato Mundial de Futebol. Todos estavam se agitando de alguma forma para participar da grande festa que estava se anunciando. Os donos das grandes companhias fonográficas planejavam lançar algo diferente: um compacto com marchas dos principais clubes do futebol carioca composto por um grande nome da música.

Fanático por futebol e principalmente pelo América, tão fanático a ponto de sair vestido de diabo pelas ruas do Rio de Janeiro para comemorar o título carioca de 1960, Lamartine com certeza era a melhor escolha para a composição desses hinos. O grande problema é que o lado boêmio do compositor falava mais alto e ele passou meses enrolando os empresários, que queriam as músicas para lançar no ano seguinte. Diz a lenda que Lamartine compôs os seis principais de forma forçada e em apenas uma noite. Os empresários o convidaram para um baile fictício e, quando ele chegou na festa, logicamente não havia nada. Lamartine então se viu obrigado a compor naquela noite e fez uma única exigência aos empresários: deixar o hino do América, seu clube do coração, por último.

Assim, em apenas uma noite, Lamartine criou seis grandes obras do futebol brasileiro. Pela ordem de criação daquela noite histórica, Fluminense, Botafogo, Flamengo, Bangu, Vasco da Gama e América. O que só prova a genialidade e versatilidade de Lamartine, pois criar hinos belíssimos em poucas horas (principalmente América, Bangu e Fluminense, na minha humilde opinião) é algo para gênios.


 

Rapidamente as marchas caíram no gosto popular e os torcedores começaram a cantar nos estádios as músicas de Lalá. Com o sucesso, o compositor não parou por aí, e no ano seguinte, completou as marchas dos outros times da primeira divisão estadual na época: São Cristóvão, Bonsucesso, Madureira, Olaria e Canto do Rio, de Niterói. Estes, junto com o do Bangu, que não foi gravado no compacto com os outros cinco hinos, foram apresentados na rádio Mayrink Veiga pelo próprio Lamartine no programa ” Trem da Alegria”.

“Existem algumas versões sobre a composição destas músicas. Um ano antes, ele tinha feito os hinos dos grandes clubes, que fazem sucesso até hoje. Por isso uns dizem que ele foi desafiado pelos seus companheiros a compor os hinos restantes. Outros dizem que ele fez essas músicas incentivado por um patrocinador. Ninguém sabe ao certo como começou esta história”, disse, em entrevista à Folha de São Paulo, o músico e produtor Luís Filipe de Lima, que recuperou as gravações originais.

E foi justamente com os clubes menores que as então marchas ganharam status de hino, já que os quatro grandes do estado já tinham hinos oficiais compostos, ao contrário dos outros. O América oficializou a marcha de Lamartine em homenagem ao falecimento de seu torcedor .

Alguma curiosidades merecem destaque nos hinos de Lalá, como o fato dele citar grandes ídolos do passado nas letras, retratar hábitos da cidade e tratar sempre dos torcedores. O hino do Canto do Rio é um dos mais curiosos, já que pouco fala de futebol: a letra versa sobre uma “morena do Canto do Rio” que, segundo pesquisadores, era sua namorada na época. Por causa disso muita gente considerava essa música como uma das várias marchinhas de Carnaval que Lamartine escreveu, mas com a descoberta das gravações de 1950 ficou claro que a letra foi escrita para o clube de Niterói.  O hino do Madureira é o único cuja gravação original não foi encontrada.

 Outra curiosidade é o fato de um dos hinos mais belos não só da carreira de Lamartine como do futebol brasileiro ser plágio. Na verdade o hino do América foi baseado na música “Row Row Row”, trilha de um musical da Broadway chamado “Ziegfeld Follies”, composta em 1912. Lamartine provavelmente conheceu a música quando o musical virou um filme recheado de estrelas, como Fred Astaire, Judy Garland e Gene Kelly e ganhou o festival de Cannes em 1947.

O hino do Fluminense, por exemplo, foi feito sobre uma melodia já existente do maestro Lírio Panicali, criada por encomenda do governo de São Paulo. Quem conta a história é o comediante Paulo Silvino, filho do compositor Silvino Neto ao jornal O Globo:

“Encomendaram para o Lírio um hino para a bandeira de São Paulo. Lírio fez a música; e meu pai, a letra. Mas a história do hino não foi para frente e nunca mais se falou sobre isso. Quando o hino do Fluminense estorou, meu pai imediatamente reconheceu a melodia e falou com Lamartine, que disse que falou com o Lírio, que, por sua vez, cedeu a melodia.”

Não quero de maneira nenhuma desmerecer os dois hinos – que, já citei no texto, são dois dos meus favoritos – e muito menos a genialidade de Lalá. Sua obra para os clubes do Rio se imortalizou e marcou tanto que uma dessas melodias deve estar na sua cabeça neste momento. E, mesmo que se torça para um outro time, há que se reconhecer que o hino do rival, seja ele qual for, também é bem bonito. Isso é uma herança do grande trabalho de Lamartine Babo.

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