Kukín Flores: de gênio indomável a eterno ícone do Futebol Alternativo

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Carlos “Kukín” Flores Murillo, ou apenas Kukín Flores. Muitos não devem reconhecê-lo pelo nome, mas certamente se lembram da foto clássica em que ele posa junto a uma faixa de isolamento ao lado do campo e que durante anos foi capa da comunidade Futebol Alternativo no Orkut. Em 17 de fevereiro de 2019, aos 44 anos, Kukín morreu após sofrer uma parada cardíaca. O corpo foi encontrado em seu imóvel no distrito de San Miguel, em Lima.

Descanse em paz, Kukín

Eternizado como ícone do Futebol Alternativo no Brasil, Kukín também será lembrado como mais um caso de grande talento desperdiçado no futebol sul-americano. Nascido na cidade litorânea de Callao, a oeste de Lima, o meia tão habilidoso quanto polêmico era uma fábrica de histórias pitorescas.

O menino-prodígio que chegou a ser comparado a Diego Maradona pelo técnico argentino Jorge Sampaoli — o que é, no mínimo, considerado uma blasfêmia do outro lado da fronteira —, tem diversos episódios folclóricos: brigou com adversários, com colegas de time, com técnicos, com torcedores, com jornalistas, chegou a interromper a carreira por problemas pessoais, sofreu com o vício em drogas e álcool, e tinha crises de alucinações. Por isso, dentro do Peru ele era tratado como a promessa que nunca se cumpriu.

Se Kukín Flores não conseguiu títulos importantes (venceu apenas um Apertura em 1999 pelo Alianza Lima) nem destaque em grandes clubes, ao menos havia um lugar em que ele era tido como um herói. Foi no Sport Boys de Callao que ele começou a carreira como jogador em 1991, aos 17 anos. Torcedor declarado do time,  rapidamente virou ídolo do Los Rosados e acumulou diversas idas e vindas. Como regra geral, sempre que aprontava alguma em outro clube, ele voltava para Callao, onde era recebido de braços abertos.

Por conta de sua morte prematura, Callao parou para homenagear seu filho pródigo.  Torcedores do Los Rosados lotaram o estádio Miguel Grau e deram um último adeus a Kukín em um velório digno de um grande ídolo. Depois, fizeram um cortejo fúnebre até o cemitério Baquíjano, que fica a alguns metros do estádio, entoando as mesmas canções que costumam ferver as arquibancadas em dias de jogo.

 

Garoto-problema

Não foi apenas no Sport Boys que Kukín se destacou. Por conta de seu grande talento passou por diversos clubes (incluindo Athletico-BRA, Aris Salónica-GRE e Belgrano-ARG), mas por conta do seu temperamento inconsequente não conseguiu se firmar em nenhum.

Em 1992, o Sport Boys foi enfrentar o Atlético Nacional no estádio Atanasio Girardot pela fase de grupos da Libertadores da América.  Quando o jogo estava empatado em 2 a 2, o que era um ótimo placar para o time peruano, Kukín Flores malandramente simulou ter sido agredido pelo jogador adversário e, assim, iniciou uma briga generalizada em campo.

O mesmo aconteceu na seleção peruana, na qual estreou com uma bela atuação contra a Holanda semifinalista da Copa de 1998. Ele conta que a diferença entre os times era gigantesca, tanto na parte técnica quanto física. Em entrevista, ele lembra que quando disputou uma bola com o zagueiro holandês Jaap Stam, a sensação era a de estar se chocando contra uma parede. Mesmo assim, foi um dos principais nomes daquele amistoso.

Até que, em 2000, nas Eliminatórias para a Copa no Japão e Coreia do Sul, Peru perdia de 1 a 0 em casa para a Colômbia quando a torcida passou a pedir Kukín. O técnico Francisco Maturana atendeu ao chamado e o colocou em campo. Mal entrou e já obrigou o goleiro Óscar Córdoba a fazer uma boa defesa após disparar um chutaço de longe.

O Peru acabou perdendo o jogo, mas sua boa atuação não foi em vão: olheiros do Anderlecht-BEL assistiram à partida e avisaram que queriam levar Kukín para conhecer o clube. Feliz da vida com a chance de defender um time relevante da Europa, ele saiu para comemorar com amigos em um bar em Callao. Porém, torcedores o reconheceram e não ficaram felizes em vê-lo tomando uma cervejinha justamente após a derrota da seleção. Uma briga se instaurou no local e Kukín acabou machucando a perna na confusão. Por conta disso, ele foi cortado da seleção e nunca mais seria convocado.

Kukín deu trabalho contra a Colômbia (Difusión)

 

Momentos de desequilíbrio

Houve momentos ainda mais graves na biografia de Kukín Flores. Certa vez, quando defendia o pequeno Colegio Nacional de Iquitos, Flores deixou a concentração e saiu pela rua seminu, gritando que a alma de uma mulher o perseguia. Alguns anos depois, em 2014, quando já estava aposentado, ele foi encontrado inconsciente, seminu e completamente alcoolizado em uma rua de Lima.

Outro caso bizarro aconteceu em 2013, quando caiu do quarto andar de um prédio, de uma altura de cerca de 25 metros. Segundo o próprio Kukín Flores, ele queria entrar na própria casa usando a janela. Por milagre não sofreu sequelas do acidente, mas ficou um bom tempo internado com múltiplas fraturas. Depois, ele reconheceu que estava bêbado no momento do acontecimento.

Kukín Flores sobreviveu de uma queda fatal em 2013

Apesar desse histórico sinistro, Kukín nunca foi pego no antidoping. O motivo disso seria um truque para burlar o teste que ele teria aprendido com uma enfermeira. A revelação foi feita em 2014 em um programa de TV peruano, na qual admitiu que usava cocaína e maconha quando ainda jogava. Sobre o truque em si, ele não quis revelar dizendo:

“Não vou revelar como fazia porque não quero dar ideias publicamente nem fazer mal a ninguém. Se fiz algum mal na vida, foi a mim mesmo. Mas meu truque nunca falhou”

 

Legado

Certa vez, entrevistado para o programa de televisão Los Titulares, Kukín respondeu como queria ser lembrado depois de morrer. Ele respondeu: “mais do que como um bom jogador, quero que se lembrem de mim como uma grande pessoa.”

Prova disso foi a declaração de seus ex-companheiros de time que foram ao velório lembrar a memória de Kukín Flores. Todos lembraram como ele era um cara que sempre tentava ajudar os outros. Mais especial ainda foi a declaração de seu filho, que disse: “Vou sentir muita falta, eu o amava, praticamente o amava.”

Por essas e outras que a história de Carlos Kukín Flores será sempre lembrada pelos fãs do Futebol Alternativo não somente por ser o rosto da comunidade do Orkut, mas por representar a história de tantos outros jogadores de talento que não chegaram ao estrelato — seja porque a sorte não os acompanhou, seja porque viver sem limites fazia mais seu estilo.

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