Ionara Ferreira: da pequena Paraisópolis ao título em Rondônia

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Quase todo município brasileiro tem, pelo menos, um ou uma atleta no futebol, e na pequena Paraisópolis, no sul de Minas Gerais, com população estimada em 21 mil habitantes (dados de 2018 do IBGE), não é diferente.

Em 2014, aos 18 anos, Ionara Ferreira Lima saiu de casa em definitivo para viver o sonho de ser jogadora de futebol. Após passar pelo futsal e por times amadores da cidade onde nasceu, a atleta foi para a Associação Desportiva Taubaté, clube que leva o nome da cidade do interior paulista, localizada no Vale do Paraíba. Hoje, aos 24 anos, a habilidosa meio campista, conhecida por protagonizar belos lances, armar jogadas, pela dedicação e comprometimento, carrega o número 10 e defende a equipe até hoje.

Admiradora da Rainha do futebol Marta, Ionara diz que sempre sonhou com o profissionalismo, mas nunca imaginou que conheceria tantas pessoas de diversos lugares, várias cidades e que viveria uma boa experiência a cada oportunidade. Lembra o quanto foi doloroso sair casa e deixar família e amigos e se diz uma mulher batalhadora.

“Me considero uma pessoa que já superou muitos desafios, que sempre correu atrás das minhas coisas. Nesse caminho aprendi muito e amadureci como pessoa e mulher”, afirma.

Paixão da infância

Ionara Ferreira Lima nasceu no dia 9 de dezembro de 1995, na Maternidade Santa Tereza, em Paraisópolis. É filha de José Pereira Lima e Anicéia Ferreira Lima e tem um irmão mais novo, Willian Ferreira Lima. Quando criança, gostava de participar de brincadeiras com amigos e seus primos, sempre acompanhada da paixão pelo futebol. “Desde criança eu ‘brigava’ na rua porque sempre quis participar das brincadeiras e dos jogos”, lembra.

Ela começou no futsal aos 12 anos quando treinou no Poliesportivo de Paraisópolis com um grupo de meninas treinadas por “Paçoca”. “Foi muito bom porque, a partir dali, meu interesse aumentou ainda mais e virou amor e profissão”, recorda.

A jovem juntou-se também à equipe feminina de futsal de sua escola, a E. Estadual Antônio Eufrásio de Toledo, conhecida no município como “Ginásio”, para a disputa dos Jogos Escolares de Minas Gerais (JEMG). “Foi o início de tudo, onde tive a experiência de disputar meu primeiro campeonato. As excursões, dormir em outra cidade e viajar com as meninas como um time foram momentos importantes para meu início”, afirma.

 

Primeiros passos

Se para muitos homens já é muito difícil o caminho até o profissionalismo, para elas é ainda mais tortuoso. Hoje, depois de muita luta, podem se juntar a escolinhas de futebol para meninas, mas nem sempre foi assim. Além disso, aquelas que tomam gosto pelo esporte quando mais novas, em época de escola, muitas vezes só conseguiam praticar o esporte no meio dos meninos. Ionara conta que já foi alvo de piadas por ser a única garota no meio dos garotos durante campeonatos.

Além de enfrentar o preconceito, a meia diz que o futebol feminino ainda luta para ter mais visibilidade e sofre com a questão financeira. “Muitas pessoas não reconhecem o esporte feminino, tratam como uma subprofissão”, desabafa.

Mesmo assim, ela perseverou. Entre 2012 e 2013, Ionara começou a jogar pelo Lorena, clube que leva o nome da cidade, no Vale do Paraíba, mas apenas ia para a cidade quando havia jogos. Foi em 2014, no Taubaté, que iniciou sua carreira profissional, clube que representa até hoje.

Na campanha no Campeonato Paulista 2018, a paraisopolense disputou 18 jogos e marcou um gol, o qual a própria considera o momento mais emocionante da carreira, no empate contra o Corinthians.

Em 2019, ela juntou suas coisas e foi para Rondônia, onde defendeu as cores do Real Ariquemes. Lá, fez história por ter sido peça fundamental no primeiro título estadual da equipe. Com a conquista, o conjunto garantiu vaga no Campeonato Brasileiro Feminino Série A2 de 2020.

A final foi de grandes emoções. Porto Velho e Real Ariquemes empataram a dois no interior e a grande decisão seria na capital, Porto Velho. Mas, ainda no primeiro tempo, a camisa 8 Rafaela abriu o placar na marca da cal para as visitantes, que conseguiram manter a vantagem e conquistar o caneco.

Apesar da curta passagem (foram apenas quatro jogos disputados), a paraisopolense diz que a experiência foi sensacional. “A cidade de Ariquemes é muito quente e tive dificuldades em me adaptar nos primeiros dias. Mas foi inexplicável a experiência de disputar um campeonato diferente e ainda voltar com o título”, comenta.

 

Expectativa para 2020

Em fevereiro, Ionara se apresentou ao Taubaté para o início dos trabalhos para a temporada com olhos para o Paulista 2020. Com a pandemia e o consequente cancelamento das atividades esportivas e dos treinamentos coletivos, a atleta retornou para sua cidade natal. Cinco meses depois, o Burro da Central, como é apelidado, retomou os treinamentos com vista a disputa do Paulistão Feminino 2020 na última quarta-feira, 26 de agosto.

Durante o período de quarentena, as atletas receberam orientações para realizarem os treinamentos em suas casas em duas sessões diárias de segunda a sexta-feira. Os treinos são acompanhados pela equipe do AD Taubaté por chamadas de vídeo e trabalham a condição física e exercícios preventivos a lesão.

Ionara Ferreira

Os clubes femininos paulistas decidiram pelo não cancelamento da temporada e, quando houvesse condições, o campeonato seria disputado. Assim, no último dia 28 de agosto, a Federação Paulista de Futebol e os Clubes do Campeonato Paulista Feminino 2020, realizaram Conselho Técnico, por videoconferência, em que ficou definido que o torneio começará no dia 30 de setembro com encerramento no dia 20 de dezembro. Todavia, quatro, das 16 equipes que disputariam a edição antes da pandemia, desistiram. Por isso, um novo formato foi estabelecido e os times foram divididos em dois grupos na primeira fase. O Taubaté está no grupo 2 composto também por Corinthians, Juventus, Santos, São José e Nacional.

Confira o comunicado publicado no dia 28 de agosto de 2020

AD Taubaté

O Burro da Central, como é carinhosamente conhecido pelos torcedores, foi fundado em 1914. O clube é membro da Federação Paulista de Futebol e possui equipe masculina e feminina. Eles disputam o Campeonato Paulista A2 e elas o Campeonato Paulista Feminino.

A casa do Taubaté é o Estádio Joaquim de Morais Filho mais conhecido como Joaquinzão. A capacidade é para receber 9.600 torcedores e é a casa tanto do time feminino quanto masculino.

Brasileirão A2

O AD Taubaté fez uma boa campanha pelo Campeonato Brasileiro A2, em 2019. O clube paulista venceu todos os jogos do Grupo 5, que era composto ainda por Cruzeiro (Minas Gerais), Fluminense (Rio de Janeiro), CRESSPOM (Distrito Federal), Vasco (Rio de Janeiro) e Aliança (Goiás). Nas oitavas, o Taubaté teve como adversário o ESMAC, do Pará, e conseguiu avançar com saldo de dois a zero. Nas quartas-de-final, no duelo entre paulistas, o time da capital levou a melhor. O Taubaté venceu por um gol diante da sua torcida mas perdeu por 3-0 na casa do Tricolor paulista.

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