Indian Super League: liga de estrelas ou showbol com grife?

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Apesar de populosa, a Índia ainda é um país desconectado do mundo do futebol. O esporte já é o segundo mais popular, atrás apenas do críquete, mas jogadores locais não fazem sucesso além das fronteiras e times de lá nunca tiveram grandes campanhas em torneios regionais. Apesar disso, muita gente acredita que o país possa reverter esse cenário — inclusive a Fifa, que definiu o país asiático como sede do Mundial Sub-17 daqui a três anos e pode indicá-los como país-sede do Mundial de 2026, concretizando o maior sonho dos indianos fãs de futebol.

Expectativa da liga é usar jogadores badalados para atrair atenção ao futebol local
A julgar pela emoção dos fãs (neste caso, de Pirès e do Arsenal), a ISL já pode ser considerada um sucesso

No entanto, o primeiro grande passo para a Índia se inserir no cenário do futebol mundial já foi dado no último domingo, quando teve início a Indian Super League (ISL), um ambicioso projeto que está levando jogadores de nível mundial para disputar um torneio com duração de dois meses no país. Estão lá jogadores como Del Piero, Materazzi, Trezeguet, Anelka, Ljungberg, Luís García, Mikael Silvestre e Robert Pires, além dos brasileiros Elano, André Santos e até Zico (como técnico, vale dizer).

Em 2012, já levantávamos, aqui neste mesmo Última Divisão, a possibilidade de a Índia ganhar uma liga com estrelas mundiais. No texto “A silenciosa aposta indiana na NBA do futebol”, Emanuel Colombari apresentou aquele que viria a ser o protótipo da ISL atual, a Premier Soccer League (PSL). Nela, já havia muito do que vemos hoje: grandes estrelas mundiais (Crespo, Cannavarro, etc.) se misturando a jogadores pouco badalados de várias partes do mundo e jovens promessas do futebol indiano, todos disputando um torneio curto.

A maior diferença entre os projetos é que, ao contrário da liga atual, as partidas do antigo torneio seriam disputadas em um mesmo lugar. Digo “seriam” — assim, no passado — porque o plano não vingou e o campeonato sequer saiu do papel. Os motivos não foram esclarecidos, mas acredita-se que a falta de datas para o torneio e as dificuldades financeiras foram os principais obstáculos para que a “NBA do futebol indiano” fosse adiante.

Mas o tempo passou e uma nova tentativa aconteceu. Desta vez, com muito mais aporte financeiro e investimento em marketing, o torneio está sendo disputado por oito equipes de todas as regiões do país — mais uma tática para tentar fortalecer o futebol local. São elas: Atlético de Kokalta, Chennaiyin FC, Delhi Dynamos FC, FC Goa, FC Pune City, Kerala Blasters FC, Mumbai City FC, Northeast United FC.

Para dar mais peso aos times recém-criados, os organizadores firmaram parcerias com alguns times mundialmente reconhecidos. É o caso do Atlético de Kokalta, que é uma franquia do Atlético de Madrid e possui seis jogadores espanhois em seu elenco, entre eles Luís García, meia de 36 anos, que venceu a Champions de 2005 pelo Liverpool. Já o Pune City FC fechou uma parceria com a Fiorentina e tem três italianos no elenco, além de quatro dos cinco membros da comissão técnica. David Trezeguet, campeão mundial em 1998 pela França, é o destaque do time, que também conta com o grego Kostas Katsouranis, vencedor da Euro 2004 que disputou a última Copa do Mundo no Brasil.

Outro que também se ligou a um time europeu é o Delhi Dynamos, que fechou uma parceria com o holandês Feyenoord. Ainda que tenha apenas dois holandeses no time, “contratou” alguns atletas de países próximos: dois tchecos, dois dinamarqueses e dois belgas. Neste caso, o principal jogador é um italiano, o atacante Alessandro Del Piero, campeão mundial em 2006 que, aos 39 anos, parte para mais uma aventura na carreira. No time, estão ainda o brasileiro Gustavo Marmentini, meia de 20 anos formado na base do Atlético-PR (time que, aliás, tem parceria com a liga), e o belga Kristof van Hout, goleiro mais alto em atividade no mundo, com 2m08cm de altura.

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Usando adornos típicos da Índia, Materazzi também foi bem recebido pelos torcedores locais

Outra característica curiosa do torneio é que duas equipes terão técnicos-jogadores. No Chennaiyin FC, o italiano Marco Materazzi, campeão mundial em 2006 e atualmente com 41 anos, acumulará as duas funções. Porém, poderá dividir as responsabilidades com o experiente Elano, que deixou o Flamengo em agosto passado. Os dois ainda terão a companhia dos defensores franceses Bernard Mendy, 33 anos, ex-PSG; e Mikael Silvestre, 37, ex-Manchester United. Entre os jovens do time, destaque para o brasileiro Bruno Pelissari, meio-campo de 21 anos, também vindo do Atlético-PR.

Já no Kerala Blasters, o veteraníssimo goleiro inglês David James, de 44 anos, se desdobrará nas funções de treinador e jogador. Esta, porém, não será a primeira vez de James, já que ele também se dividiu assim no islandês IBV Vestmannaeyjar, clube que levou ao sexto lugar na primeira divisão local do ano passado. Sob seu comando, estarão dois brasileiros: o zagueiro Erwin, 20, e o atacante Pedro Gusmão, 22, ambos oriundos do time sub-23 do Atlético-PR.

Falando em brasileiros, o principal deles a assinar com um time da nova liga indiana tem experiência em desenvolver o esporte em lugares inóspitos. Zico, que dispensa qualquer apresentação, está novamente à frente de um projeto improvável – lembra do Uzbequistão, do Iraque e mais recentemente do Catar? – e espera repetir na Índia o feito conseguido em suas passagens pelo Japão. Sob seu comando no FC Goa estão o francês Robert Pirès, 40 anos, campeão mundial em 1998; e o brasileiro André Santos, 31, campeão da Copa das Confederações em 2009.

Depois de "aventuras" no Iraque e no Uzbequistão, Zico chega para ajudar a desenvolver o futebol da Índia
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Outro time a contar com um brasileiro é o Northeast United, que tem mais uma cria do Atlético-PR em seu elenco: Guilherme Batata, meia de 22 anos, que disputou o Mundial Sub-17 de 2009 pelo Brasil. Ao lado dele estão jogadores de 11 nacionalidades, além da indiana, o que faz desta equipe a mais internacional do torneio. Na liderança desse elenco global estão o zagueiro espanhol Joan Capdevilla, 36, campeão mundial em 2010; e o goleiro grego Alexis Tzorvas, 32, que também disputou aquela Copa. Destaque também para a dupla de zâmbios Isaac Chansa, campeão da Copa Africana de Nacões em 2012, e Kondwani Mtombi.

O Mumbai City FC, por sua vez, talvez seja um dos elencos mais fortes da nova Indian Super League. Especialmente porque conta com três grandes jogadores no elenco: na defesa, o alemão Manuel Friedrich, 35, ex-Werder Bremen, Bayer Leverkusen e mais recentemente Borussia Dortmund; no meio, o sueco Fredrik Ljungberg, 37, que fez carreira no Arsenal e recentemente largou a aposentadoria; e no ataque, o francês Nicolas Anelka, 35, que tem títulos importantes pelo Real Madrid, Arsenal e Chelsea e quase veio parar no Atlético Mineiro.

O problema é que Ljungberg apresentou uma lesão e ficou fora da primeira partida, assim como Anelka, que ainda tenta se livrar da suspensao de cinco jogos sofrida após comemorar um gol pelo inglês West Bromwich Albion com gestos anti-semita. Sem eles e com o brasileiro André Moritz (ex-Flu e Bolton, contratado dias antes da estreia), o time perdeu sua primeira partida na ISL para o Atlético de Kokalta, por 3-0.

O primeiro jogo da liga, aliás, foi um estrondoso sucesso de público. Com 70 mil pessoas lotando o estádio (o torneio local tem média de 2,5 mil espectadores), a festa de abertura teve luzes, shows e a presença de vários jogadores de críquete e atores de Bollywood (a Hollywood de lá), que são vistos como grandes estrelas no país. Alguns deles, aliás, são investidores das novas franquias criadas, o que trouxe ainda mais credibilidade e dinheiro ao torneio. Tanto que o prêmio prometido ao vencedor chega a 80 milhões de rúpias (aproximadamente R$ 3 milhões), cerca de 12 vezes mais do que o valor pago ao campeão do campeão indiano.

Com esta fórmula — novas franquias com forte apelo de marketing + jogadores reconhecidos mundialmente + (dinheiro)³ –, a Indian Super League espera colocar o país de vez no mapa do futebol mundial. Porém, é prudente esperar para ver qual será o real impacto de uma liga de dois meses disputada por veteranos sobre o público indiano. Tudo indica que a ISL deverá mesmo se tornar uma liga importante (ao menos regionalmente), mas o risco de se tornar apenas um torneio sazonal, um showbol com grife, ainda é muito grande.

ONDE ACOMPANHAR (tabelas, fichas dos jogadores, cobertura jornalística e streaming): www.indiansuperleague.com (todas as partidas terão transmissão ao vivo, em vídeo de alta definição, via internet)
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