Ilhas Faroe e o milagre de Landskrona

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O dia 12 de setembro de 1990 era para ser apenas a primeira partida em uma competição oficial da seleção das Ilhas Faroe. Mas acabou sendo algo muito maior do que eles mesmos imaginavam. A improvável vitória por 1 a 0 sobre a Áustria é até hoje lembrada como um dos resultados mais inusitados da história do futebol.

Até 1988, o arquipélago que fica ao norte da Escócia e que pertence ao Reino da Dinamarca não tinha oficialmente uma seleção de futebol. Naquele ano, a federação de futebol das Ilhas Faroe se filiou à Fifa e o time disputou seu primeiro jogo oficial: um amistoso contra a “vizinha” Islândia que acabou em derrota por 1 a 0. Dois anos depois, eles finalmente se tornaram membros da UEFA e conquistaram o direito de disputar as eliminatórias para a Eurocopa de 1992.

A missão de montar uma equipe ficou a cargo do islandês Páll Guðlaugsson, então com 32 anos e em sua primeira experiência como treinador de futebol. Com uma população de pouco mais de 50 mil habitantes (para se ter uma ideia, o país caberia no estádio Serra Dourada), as Ilhas Faroe não tinham mais do que 1.500 praticantes de futebol na época.

Então, Guðlaugsson praticamente fez um catado de jogadores amadores. O goleiro Jens Martin Knudsen, que ficou famoso por usar uma touca de pompom para proteger a cabeça durante a partida, era também ginasta e goleiro de handebol e trabalhava em uma fábrica de peixes. O capitão do time, o zagueiro Jóannes Jakobsen, era músico e produtor. O meia Kurt Mørkøre, que jogava na seleção ao lado do irmão mais novo Allan, profissionalmente era padeiro. E Torkil Nielsen, autor do gol histórico, era jogador de xadrez e vendedor.

Jens Martin Knudsen e sua famosa touquinha
Jens Martin Knudsen e sua famosa touquinha

Outro detalhe: mesmo tendo o mando de campo, a partida seria disputada em Landskrona, na Suécia, pelo simples detalhe de que na ocasião não havia gramados naturais no arquipélago, apenas sintéticos, o que era proibido pela UEFA. Por isso, todos os jogos das Ilhas Faroe naquela competição acabaram sendo mandados no município de 30 mil habitantes.

Contra eles jogaria um time profissional que tinha acabado de disputar a Copa do Mundo na Itália, embora tivesse caído na fase de grupos. Liderados pelo artilheiro Toni Polster, o maior goleador da história da seleção, os austríacos esperavam não menos do que uma sonora goleada contra os faroenses. Tanto que eles cancelaram o último treino antes da estreia e foram assistir a Dinamarca jogar um amistoso contra o País de Gales em Copenhagem.

Em sua auto-biografia, Knudsen conta como Guðlaugsson conseguiu usar esse fato para motivar seus comandados durante a preleção. Ele teria dito:

Pensem na bandeira faroense. Na sua bandeira. Leve-a com vocês para o campo. Façam o maior esforço possível para parar esses austríacos arrogantes com uma única missão: ganhar o jogo para os faroenses. Hoje à noite vocês irão retribuir sua terra natal. A oportunidade é agora e será um desastre se vocês não conseguirem!

Talvez as palavras do técnico tenham causado algum efeito. O plano mais otimista dos jogadores das Ilhas Faroé, segundo Knudsen, era a de tomar até cinco gols. Mas, surpreendentemente, o primeiro tempo terminou empatado em 0 a 0.

Foi então que, aos 16 minutos do segundo tempo, Torkil Nielsen roubou a bola do zagueiro austríaco, se livrou da marcação adversária e chutou rasteiro no canto direito do goleiro. O público de 1.157 pessoas foi ao delírio no estádio Landskrona IP. Era o primeiro gol e a primeira vitória das Ilhas Faroe em um torneio oficial.

Pode-se imaginar o que aconteceu em seguida. Os jogadores voltaram para Ilhas Faroe saudados como heróis pela população. Páll Guðlaugsson, que dirigiria o time até 1993, virou uma lenda local. Jens Martin Knudsen e sua touquinha se tornaram celebridades do dia pra noite, com direito a momentos de garoto-propaganda.

Em compensação, do lado austríaco as coisas foram de mal a pior. O técnico Josef Hickersberger pediu demissão no dia seguinte à derrota. O meia Andreas Herzog declarou muito tempo depois: “A derrota fez o futebol da Áustria voltar três anos”.

Na partida de volta, em Salzburgo, no dia 22 de abril de 1991, a Áustria não fez por menos e liquidou a partida por 3 a 0 contra os faroenses.

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