Ibrahimovic, o filho bastardo da Bósnia

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“Um Mundial sem mim não vale a pena ser visto”. A pedante declaração do sueco Zlatan Ibrahimovic, tão logo sua seleção ficou no caminho para disputar a Copa do Mundo de 2014, não impede que agora, às vésperas do torneio, uma campanha apoiada por alguns dos mais influentes astros do esporte brasileiro clame por sua presença no país durante a competição, ainda que como espectador.

Com seu controverso carisma, o atacante do PSG respondeu que pode “repensar as férias”. Caso venha, Ibra será um torcedor requisitado em jogos de todas as seleções – mas uma, em especial, merece sua atenção mais do que as outras: a estreante Bósnia e Herzegovina.

Como o nome já sugere, Ibrahimovic tem origens na antiga Iugoslávia. Seu pai, um muçulmano bósnio, e sua mãe, uma católica bósnia-croata, imigraram nos anos 70 para a cidade sueca de Malmoe, destino comum de refugiados das Balcãs. Mesmo em um dos países mais desenvolvidos do mundo, longe dos conflitos étnicos e da pobreza da sua região de origem, a vida da família de refugiados não foi fácil, isolados em um gueto, vítimas de constante discriminação e com poucas oportunidades de trabalho.

Zlatan (nome que significa “dourado” em bósnio) nunca se sentiu em casa na Suécia e chegou a procurar a Federação Bósnia para defender a terra dos seus pais, mas foi esnobado por um dirigente que considerava “outros jogadores mais talentosos”. Apesar da fama de rancoroso, o atacante não deixou a afronta diminuir seu afeto pelo povo bósnio.

“Gostaria que a Iugoslávia ainda fosse uma só, seria uma seleção muito forte. Infelizmente houve a guerra e, já que foi assim, fico feliz que a Bósnia tenha conseguido chegar na Copa. Torço para que façam um bom Mundial e desfrutem da experiência. É bom vê-los evoluindo”, comentou, com compaixão, o dono do maior ego do futebol atual, de personalidade tão complicada quanto a sua juventude e a história da própria Bósnia.

“Quem chamou o imigrante para jogar?”

Em sua autobiografia, Ibrahimovic descreve o cenário em que cresceu. O pai, Sefik, era um vigia noturno. A mãe, Jurka, trabalhava 14 horas por dia como faxineira. Aos dois anos, o atacante do PSG viu o casal se divorciar e se acostumou a uma rotina conturbada. Na adolescência, ele, a irmã Selena e outros meio-irmãos dividiam o tempo entre as casas dos dois. As maiores lembranças são de restrições e dificuldades de relacionamento.

“Era comum eu chegar na casa do meu pai faminto e abrir a geladeira implorando: ‘por favor, tenha comida diferente’. Mas sempre encontrava o mesmo: leite, manteiga, um pouco de pão e, se tivesse sorte, uma caixa de suco comprada na loja árabe, a mais barata. E sempre tinha cerveja, é claro! Muita cerveja, às vezes apenas cerveja. É uma dor que nunca me esquecerei. Com o estômago vazio, ia para a casa da minha mãe e nem sempre era recebido com carinho. Ela me perguntava: ‘seu pai não te alimentou? Acha que eu tenho dinheiro?’. Lá comia sempre macarrão instantâneo ou espaguete”, relembra Ibra.

Para esquecer os problemas familiares, seu alento era jogar futebol e tentar copiar as jogadas de ídolos brasileiros como Bebeto e Sócrates. O lazer, porém, também se convertia constantemente em desapontamento. Mesmo com muita técnica, o jovem craque se acostumou a ser discriminado por treinadores e jogadores xenófobos.

“Sempre perguntavam: ‘quem chamou o imigrante jogar?’”, relata. Naquela época, o atacante foi expulso de diversos clubes por conta do preconceito e, claro, seu temperamento (também praticante de taekwondo, Zlatan chegou a hospitalizar colegas de equipe com golpes).

Ainda criança, com muitas confusões no currículo, optou por treinar no Balkans FC, time da colônia iugoslava. Aos 14, após quatro anos se destacando na pequena equipe, aceitou se transferir para o Malmö FF, principal clube da Suécia, vice-campeão europeu em 1979.

Recusado pela Bósnia

A mágoa com o país que acolheu sua família nunca foi completamente superada, mesmo com toda a idolatria dos dias de hoje, quando a palavra “zlatan” foi incluída em dicionários de sueco como verbo que expressa “um feito de muito talento”. Sem qualquer esforço para fazer média com os conterrâneos, Ibrahimovic declarou recentemente: “sempre me senti e ainda me sinto um estrangeiro na Suécia, mesmo tendo nascido e crescido aqui”.

Aos 17 anos, o jovem Ibra começava a definir a sua identidade. Havia escolhido catolicismo, religião da mãe, mas ainda tinha três nacionalidades: sueca, bósnia e croata. Em 1998, seu pai escreveu uma carta para a Federação Bósnia de Futebol pedindo um teste.

O então secretário–geral da entidade, Munib Usanovic, se recusou a “pagar uma passagem de avião a um menino desconhecido que pretende passar férias de graça na Bósnia”. E ainda foi além… Hoje Usanovic deve ser um homem extremamente arrependido por ter dito que considerava “outros jovens jogadores mais talentosos”.

Anos depois, a Bósnia tentou reparar o erro convidando o atacante para uma excursão com a seleção sub-21, mas o intransigente goleador respondeu aceitar apenas uma convocação para o time principal, algo que nunca aconteceu. Em 2001, ele estreou pela seleção sueca e a oportunidade de defender a terra de seus antepassados foi perdida. Desde então, a relação Ibra-Bósnia conheceu altos baixos.

Em 2003, em entrevista ao jornal bósnio Dnevni avaz Sport, o jogador declarou amor por sua ascendência. “Tenho passaporte sueco, mas meu sangue é bósnio. Sei que os suecos jamais me deixarão mudar, mas, se pudesse escolher, certamente jogaria pela Bósnia”, disse.

A polêmica

Dez anos depois, porém, o sueco caiu em desgraça por sua reação no caso do garoto bósnio Hajrudin Kamenjas, de oito anos, que, em estado terminal de leucemia, teria viajado até Paris com a família apenas para conhecer o ídolo, que não quis recebê-lo alegando estar “muito ocupado”.

Em meio a uma grande polêmica, Ibrahimovic disse que enviaria uma camiseta autografada ao menino e veria se poderia fazer algo mais. “Recebo esse tipo de pedidos todos os dias. A única diferença é que eles usaram a imprensa. Verei o que posso fazer por ele, é uma história muito triste. Sempre tento fazer todos felizes”, se defendeu o atacante.

No mesmo dia, surgiram boatos de que ele viajaria até Sarajevo, o que depois foi desmentido pelo clube francês.

A mãe do garoto, que divulgara a história,  declarou não querer receber nenhum presente que não fosse a presença do jogador. Segundo a sua biografia, Ibra visitou a Bósnia apenas na infância, antes da guerra (que durou entre 1992 e 1995), e tem poucas lembranças do país.

Que a Copa no Brasil marque esse reencontro, do país sofrido e seu filho bastardo, de ego enorme e talento maior ainda.

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