Houve realmente um jogo de futebol entre soldados inimigos durante a Trégua de Natal?

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Duas tropas inimigas estão estacionadas no front ocidental – na fronteira entre Bélgica, França e Luxemburgo – durante os meses iniciais da Primeira Guerra Mundial. É chegado o mês de dezembro e uma notícia pega os soldados de surpresa: a guerra não seria curta como previsto anteriormente. Ela fatalmente duraria mais alguns longos anos. E, de fato, ela durou até 1918.

A ideia de passar os próximos meses longe de casa obviamente não estava nos planos dos cerca de 100 mil soldados de ambos os lados da trincheira. E o cansaço físico e mental causado pela violência e pelo caos da guerra só tendiam a piorar com a chegada do inverno.

Até que, no dia 24 de dezembro de 1914, a silenciosa noite de véspera de Natal foi interrompida por uma cantoria vinda do front alemão. Eles cantavam juntos a música Stille Nacht (Noite Feliz, para nós do Brasil). Do outro lado, os britânicos reconheceram a melodia e responderam cantando sua versão, Silent Night, e dizendo Feliz Natal aos inimigos de guerra.

O que se conta é que momentos depois, diversos soldados saíram de suas trincheiras e foram até o local chamado de terra de ninguém, território livre e ainda não conquistado por nenhum lado do conflito. Lá, eles apertaram as mãos, trocaram presentes, tiraram fotos, dividiram cigarros e bebidas e, pelo que se conta, até jogaram futebol juntos.

“Nós estávamos perto de atirar neles quando vimos que eles não tinham rifles. Então, um de nossos homens foi ao encontro deles e, cerca de dois minutos depois, o terreno entre as duas trincheiras estava repleto de homens e oficiais de ambos os lados, apertando as mãos e desejando Feliz Natal”, escreveu o Capitão A. D. Chater em carta enviada à sua mãe.

O cessar-fogo não-oficial durou até o dia 26, quando os generais, temerosos com a repercussão da confraternização perante a opinião pública, ordenaram que os soldados voltassem a seus postos, sob pena de punição severa. Mas já era tarde: as cartas enviadas do front contando essa história já tinham vazado para a imprensa, dando origem a um dos mais emblemáticos contos natalinos de todos os tempos, batizado de a Trégua de Natal.

Mas o que há de lenda nisso tudo? De fato houve um jogo de futebol entre soldados alemães e britânicos durante o cessar-fogo?

O que se pode afirmar é que os relatos são no mínimo controversos. Segundo uma reportagem da revista New Republic, intitulada O Mito do Jogo de Futebol na Trégua de Natal, diversas cartas falam sobre partidas disputadas na terra de ninguém, mas sempre com informações conflitantes.

“As cartas escritas pelos soldados britânicos sobre a trégua frequentemente citam partidas de futebol — mas elas costumam fazer referência a partidas que aconteceram em algum outro lugar. O soldado Harold Atkins disse que um dos regimentos ‘jogou futebol tendo os inimigos como adversário’. O tenente-coronel Diggle, da 8ª divisão do Exército, disse ter ouvido ‘que houve uma partida entre as trincheiras em uma de nossas linhas contra os alemães’”, escreveu Terri Bloom Crocker no artigo.

Um exemplo disso é que os relatos apontam para diversos resultados diferentes. Uma carta anônima publicada no dia 1º de janeiro de 1915 no jornal The Times diz que a peleja terminou em 3 a 2 para os alemães. Ao mesmo tempo há uma carta revelada em um documentário da BBC que diz que os britânicos venceram por 4 a 1.

O fato é que embora haja evidências de que os soldados teriam jogado bola em algum momento da trégua, certamente não aconteceu do modo como foi romantizado nos anos posteriores. O clima frio e o terreno pouco propício para o futebol deve ser levado em conta, além é claro da dificuldade de se organizar uma pelada em meio a um cenário de guerra. Um dos remanescentes contou ao The Guardian que seu pelotão improvisou um jogo usando latas de carne como bola e capacetes como as traves do gol.

Ainda há a possibilidade de que se houve de fato uma partida de futebol como imaginamos, ela aconteceu apenas entre britânicos, com os alemães assistindo. Uma carta publicada pelo Daily Mail diz que até houve uma tentativa de disputa entre times adversários, mas os soldados germânicos declinaram o convite.

A questão é que independente da lenda ser verdadeira ou não, a história da Trégua de Natal jamais conseguiu ser contada sem que o futebol estivesse metido no meio. Um exemplo clássico: os monumentos em celebração ao evento contam todos com uma bola de futebol. Além disso, durante o centenário do cessar-fogo, em 2014, uma simbólica partida entre soldados britânicos e alemães foi disputada na Inglaterra, com vitória para o time da Rainha.

Monumento à Tregua de Natal em Flanders, Bélgica (Colin Gould/Flickr)

Há alguns motivos para isso. Naquela época, o futebol já era encarado como algo culturalmente relevante no Reino Unido, tanto que o esporte chegou a ser amplamente usado para recrutar soldados nos fronts. Inclusive muitos jogadores participaram da Primeira Guerra no chamado Batalhão do Futebol. Portanto não deixa de ser surpresa que o hipotético jogo tenha ganho destaque logo nas primeiras versões da Trégua de Natal.

Também há a questão da narrativa perfeita, como aponta o New Republic:

“A ideia de que inimigos mortais lutando pelo futuro da Europa jogando uma partida amistosa soa como uma deliciosa ironia. Mas principalmente porque a imagem de dois lados se rebelando contra seus líderes para resolver suas diferenças por meio do futebol ao invés de uma batalha real com munições e bombas é bastante instigante.”

Por isso, tenha acontecido ou não um jogo de futebol, a história da trégua é como as diversas lendas de Natal que nos acostumamos a ouvir ao longo dos anos: se ela é real ou não é o que menos importa. O importante é a mensagem que ela traz.

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