Hoje técnico, Rogério coloca pedaladas de Robinho no passado

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O dia era 15 de dezembro de 2002. No Estádio do Morumbi, Corinthians e Santos se enfrentavam pelo segundo jogo das finais do Campeonato Brasileiro. Com o placar em 0 a 0, o jovem atacante Robinho recebeu a bola pela esquerda rente à lateral, avançou em diagonal na direção da área, pedalou oito vezes e foi derrubado pelo lateral direito Rogério. Pênalti, que Carlos Eugênio Simon assinalou. O próprio Robinho converteu.

O lance, aos 35min46s do primeiro tempo daquela partida, abriu o caminho para a vitória santista por 3 a 2, que daria o título brasileiro ao time comandado por Emerson Leão. Porém, mais do que isso, marcou decisivamente a carreira dos dois protagonistas do lance: Robinho virou atacante do Milan e da Seleção Brasileira, enquanto Rogério virou…

Rogério virou o técnico Rogério Fidélis. Sim: bem longe da fama pelo lance do endiabrado Robinho em 2002, o ex-lateral direito completou em 2014 um ano como técnico. Neste período, trabalhou com o Barra da Tijuca, que disputa a Série B do Campeonato Carioca. Na temporada atual, Rogério passou bem perto de levar o time para a primeira divisão do Campeonato Carioca, ficando com o terceiro lugar da segunda divisão do Rio de Janeiro – no triangular final, Barra Mansa e Tigres do Brasil conquistaram o acesso.

A transição do campo para o banco, segundo Rogério, aconteceu sem sobressaltos. Em 2012, ele atuou ao lado do atacante Dodô pelo Grêmio Osasco na Série A2 do Campeonato Paulista; no ano seguinte, Dodô – que reforçava o Barra da Tijuca na Série B do Campeonato Carioca – indicou Rogério para ocupar o cargo de treinador no clube do Rio. O Barra, que havia demitido o técnico Lira após uma derrota por 5 a 0 para o América (oitava rodada do primeiro turno), topou.

A mudança no desempenho foi sensível: vice-lanterna do Grupo A no primeiro turno, com 11 pontos em nove jogos, o Barra da Tijuca chegou à quarta posição na chave no segundo turno, com 17 pontos em nove jogos. Rogério ainda chegou a disputar partidas como jogador do clube pela Copa Rio no segundo semestre, antes de retomar o trabalho à beira do campo na Série B de 2014.

“Joguei dois jogos na Copa Rio porque ele (o presidente do clube, Adílson Oliveira Coutinho Filho) me convidou. Aí, pediu para jogar com ele. Eu não era o treinador, era um jogador-observador. Passei a observar a competição”, contou Rogério em entrevista ao blog.

Em 2014, o trabalho de Rogério no Barra da Tijuca apareceu com mais destaque. Nenhum clube contabilizou tantos pontos na soma dos dois turnos (34 em 16 jogos, contra 33 de São João da Barra, 30 de Goytacaz e 29 de Sampaio Corrêa). O desempenho valeu ao time tricolor uma vaga no triangular final da competição, no qual o acesso bateu na trave.

Terminada a competição, Rogério está sem clube. No entanto, a condição deve durar pouco – nos próximos dias, ele deve conversar com a diretoria do Barra da Tijuca para assinar um novo contrato, tendo em vista a Copa Rio e a Série B de 2015. A meta, como não podia deixar de ser, é o acesso no ano que vem. As pedaladas de Robinho? Para o ex-volante do Palmeiras e ex-lateral do Corinthians, são coisas do passado – assim como os títulos que conquistou.

(Crédito: Barra da Tijuca/Divulgação)

Confira a entrevista do técnico Rogério Fidélis:

Última Divisão – Faltou pouco para você colocar o Barra da Tijuca na Série A do Campeonato Carioca. Como você avalia a Série B de 2014?

Rogério – Foi muita positiva. Foi a equipe que somou mais pontos no geral, e chegou no triangular final. No nosso primeiro jogo, uma vitória (3 a 2 sobre o Tigres do Brasil); a gente dependia só de uma vitória em três jogos e não conseguiu. Mas foi um trabalho muito positivo.

Última Divisão – Você ficou bastante tempo no clube, praticamente um ano. Qual é ou foi o diferencial do Barra da Tijuca para essa parceria longa?

Rogério – Depende muito de resultado. O presidente me conhecia de nome, mas não sabia que eu já estava nessa função. Foi indicação do Dodô no ano passado. Quase cheguei ao triangular final (da Série B) do ano passado. Aí, houve uma sequência, ele me deu esse tempo para trabalhar. Levo isso como um bom trabalho. Por ser uma pessoa só que banca o clube, a gente tem que se adaptar a esse orçamento que ele nos proporcionou. Montamos uma base boa com um baixo custo, depois colocamos peças com um valor maior.

Última Divisão – Que tipo de situação um clube da Série B do Carioca enfrenta que você não tinha visto nos clubes pelos quais passou?

Rogério – Tem muitos clubes que não têm uma estrutura legal. A estrutura que o Barra da Tijuca teve nessa competição, eu garanto que muitos clubes da primeira divisão não têm. Algumas equipes que acabam desistindo no decorrer da competição prejudicam. Teve uma equipe, o Quissamã, que estava nessa divisão – nós enfrentamos eles (vitória por 5 a 1 no primeiro turno), e eles desistiram (no segundo turno). As equipes que eram do nosso interesse, para eles enfrentassem e tirassem pontos, deu WO… São situações que incomodam. Equipes que não tem a estrutura necessária

Última Divisão – A Série B foi disputada normalmente durante a Copa do Mundo. Houve um impacto disso para o torneio, na sua opinião?

Rogério – Não. Já era para ter encerrado antes. Não terminou devido à escalação irregular do jogador de uma equipe (William Teixeira, zagueiro do Ceres). Aí, paralisou por duas semanas (no final de maio). Poderia ter terminado antes.

Última Divisão – Você trabalhou com o Felipão no Palmeiras, e hoje também é técnico. O que você achou da Seleção na Copa do Mundo?

Rogério – É uma coisa muito chata. Era uma expectativa grande, a gente esperava que chegasse à final da Copa do Mundo. Perder da maneira que foi, foi doloroso.

Última Divisão – Você é um nome conhecido, passou pela Seleção Brasileira, mas parece que isso não tornou o seu trabalho no Barra da Tijuca badalado. Isso é bom, por tirar a pressão, ou ruim, por não dar o devido destaque ao trabalho?

Rogério – As coisas acontecem quando se tem resultados. Já tinha passado aos meus atletas lá atrás que muitas pessoas iriam falar do Barra. Só se falava de América, do Goytacaz, do São João da Barra, e não se falava do Barra da Tijuca. A gente foi chegando, e muitas pessoas não acreditavam. Eu trabalho dessa forma. Não gosto de divulgar antes de as coisas acontecerem.

Última Divisão – Você ficou marcado pelas pedaladas do Robinho na final do Campeonato Brasileiro de 2002. Os atletas do clube conversam com você sobre isso?

Rogério – Não, não… Eu mesmo toquei nesse assunto quando estava reunido com os atletas. A gente só é lembrado por coisas positivas. Infelizmente, sou lembrado hoje por um fator negativo que aconteceu. As conquistas que tive no Palmeiras, no Corinthians, ninguém tira. Pode passar 100 anos, meu nome vai estar na galeria, no museu dos clubes. Meu filho – quando estiver maior – e meus netos, vão ver. Vão estar lá meus feitos.

Última Divisão – Nós da imprensa cobramos muito uma renovação do mercado de técnicos no Brasil. Você acha que o mercado tem essa dificuldade em se renovar?

Rogério – Hoje, analisando, tem. Você vê aí que são sempre as mesmas figuras que estão rodando, rodando, e voltam ao seu ponto de partida. Poderia dar um pouco mais de oportunidade a esses jovens. A gente vê o Sidney (Moraes), que enfrentei varias vezes no São Paulo: hoje ele é um jovem treinador, acho que até mais jovem que eu. Esteve em Minas Gerais, na Ponte Preta… O mercado hoje está se abrindo.

(Nota do blog: Sidney Moraes, atualmente no Náutico, tem 37 anos; Rogério tem 38.)

Última Divisão – Qual é seu plano de carreira para os próximos anos? Você já recebeu convites para outros clubes?

Rogério – O segundo semestre é Copa Rio. Ainda não estou lá (no Barra da Tijuca), estou em São Paulo. Estou voltando para o Rio nesta semana para conversar com o presidente e ver o que vai ser feito. Em uma conversa que nós tivemos, ele disse que o time viria forte, diferente do que foi neste ano. Ele quer subir no ano de 2015 para 2016, para disputar a Série A. Quero ver qual vai ser o planejamento dele.

Com Rogério como treinador, Barra da Tijuca foi terceiro colocado na Série B do Campeonato Carioca (Crédito: Barra da Tijuca/Divulgação)
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