Helênicos: o grupo de pesquisadores que mudou a relação do Coritiba com sua torcida

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Um grupo de torcedores do Coritiba se reuniu em 2004, com objetivo de catalogar assuntos sobre os troféus do clube. O objetivo era promover um memorial específico no assunto, para reviver entre os seguidores conquistas como o título brasileiro de 1985 e o Torneio do Povo de 1973. A partir de então, a relação entre a agremiação e os adeptos não seria a mesma.

As pesquisas se ampliaram. Surgiam então os Helênicos, grupo de oito pesquisadores da história do Alviverde que aproximou a relação entre público e agremiação.

Pelo menos quatro feitos se destacam na trajetória daqueles que passaram a prestar serviços voluntários de orientação ao próprio Coxa. O acervo do grupo serviu de base para a criação do Espaço 100 Anos, o memorial que ilustra os principais feitos da história centenária do Coritiba. Foi lançado também o livro Eternos Campeões, com a biografia de 140 jogadores emblemáticos do Alviverde.

Outro material editado pelo grupo foi o documentário Heróis do Maracanã, que levou imagens e depoimentos sobre o único título brasileiro da equipe para salas de cinema da capital paranaense. Por fim, o site www.historiadocoritiba.com.br disponibiliza estatísticas e histórias variadas sobre a agremiação do bairro Alto da Glória em Curitiba.

Em bate-papo com o Última Divisão, o pesquisador Guilherme Straube, integrante do grupo Helênicos, contou um pouco sobre o projeto que vem sendo realizado. A conversa abordou os feitos já lançados e a evolução por uma nova relação com a cultura do futebol. Entre os assuntos, fica no ar também uma rara possibilidade de retomarem o projeto de documentário cinematográfico sobre o eterno ídolo coxa Dirceu Krüger. Confira:

Última Divisão: Como surgiu a ideia de formar o grupo Helênicos?

Guilherme Straube: O grupo Helênicos surgiu de uma necessidade do próprio Coritiba. Em 2004, o na época presidente Giovani Gionédis decidiu criar um memorial que exibisse as taças mais relevantes conquistadas pelo clube. Como eu colaborava com o site Coxanautas, portal da torcida coritibana, um diretor do clube me convidou a ajudar. Assim, busquei outros pesquisadores coxa-brancas, para que juntos pudéssemos desenvolver um trabalho à altura da história do clube.

UD: O livro Eternos Campeões e o filme Heróis do Maracanã se tornaram sensação na comunidade futebolística da capital paranaense. Quando iniciaram o grupo de pesquisa, imaginavam tal repercussão?

GS: Não, absolutamente. A união de pessoas com a mesma paixão, mas com perfis diferentes, deu muito certo. Sempre tivemos um único intuito, o de projetar a história coritibana. Mas nosso objetivo inicial foi apenas de ajudar a criar um belo memorial. A aprovação do torcedor e da mídia é que nos incentivou a prosseguir.

helenicos03UD: Como foi a relação de vocês com o torcedor paranaense, em especial do Coritiba, no lançamento do livro, uma edição de luxo com capa dura e páginas que eternizaram diversos atletas do clube?

GS: Em janeiro de 2009, estávamos com o texto do livro bem encaminhado, visando seu lançamento em Outubro, momento do centenário do clube. Mas a Gazeta do Povo, jornal curitibano de maior circulação no Estado, nos convidou a escrever uma matéria por dia. Que além de mostrar a contagem de dias faltantes para o centenário, também expusesse fatos relacionados à história do clube. Aproveitamos a oportunidade e, nos textos, pedimos a ajuda dos leitores que tivessem material histórico. Nos meses que se seguiram, recebemos uma imensa quantidade de contribuições, histórias e fotos. Graças a isso, recomeçamos a elaboração do livro. Assim, só lançamos o livro em outubro de 2012. Mais de três anos depois, em uma edição que conta a história de 140 grandes atletas coritibanos. Posso dizer que somente com o apoio do povo curitibano é que conseguimos criar uma grande obra.

UD: Tem uma prévia de quantos livros foram vendidos?

GS: A tiragem não foi muito grande. Foram impressos 2.100 exemplares.

UD: O documentário Heróis do Maracanã reviveu o título brasileiro de 1985 do Coritiba. Inclusive em salas de cinema, com as pessoas indo com a camisa do clube. Antes de lançá-lo, acreditavam que o fenômeno seria tão atraente para o público curitibano?

GS: Não, de forma alguma. O documentário começou de forma despretensiosa, com o objetivo apenas de colher depoimentos de atletas, dirigentes e torcedores. Para que fossem postados na internet, no momento da comemoração dos 30 anos. Nosso grupo, aliás, nem estava presente durante a gravação dos primeiros depoimentos. Mas com o avançar das filmagens, fomos convidados a participar e em certo momento assumimos o projeto. Buscamos um diretor de cena, Fernando André, e começamos a dar uma visão mais cinematográfica ao material. Fernando conseguiu produzir um produto final que emocionou não só coritibanos, mas também torcedores de clubes rivais.

UD: Quais as principais dificuldades enfrentadas tanto no livro quanto no documentário?

GS: Todo projeto precisa ser viabilizado, financeiramente. Infelizmente, de forma geral, as empresas brasileiras não têm este direcionamento, de contribuir com a cultura. Em virtude disso, tivemos bastante trabalho para conseguir patrocínios, para custear a produção. Mas, de forma geral, temos imenso orgulho do que conquistamos com o nosso empenho.

UD: O documentário posteriormente foi disponibilizado gratuitamente na internet. Quais razões levaram vocês a praticar essa atitude?

GS: Depois que conseguimos viabilizar a produção do filme, nos sentimos completamente confortáveis em disponibilizá-lo na internet, para que todos pudessem assisti-lo, onde e quando quisessem. Aliás, tivemos esta intenção desde o inicio.

UD: Qual opinião de vocês sobre feitos como o Cinefoot e os empréstimos de vídeos de futebol paranaense realizados pela locadora Vídeo 1?

GS: Toda forma de cultura deve ser incentivada e valorizada, pois ela nos lembra ou ensina quem fomos e somos. Sem sua devida divulgação, teremos nossa cultura subjugada pela cultura de terceiros.

UD: Existe alguma relação entre vocês e o pessoal desses projetos?

GS: Não, mas, no futuro, quem sabe? É questão de afinar os objetivos.

helenicos04UD: Vocês estão em busca de apoio para colocar em prática o documentário sobre a história de Dirceu Krüger. Poderia falar sobre?

GS: Essa ideia surgiu no final de 2015. Chegamos a fazer algumas entrevistas, mas um grupo dentro do clube decidiu homenagear Krüger com uma estátua. Como este projeto requeria uma alta soma em dinheiro, que seria obtida através da colaboração do torcedor, concluímos que, se oferecêssemos também nosso projeto, a torcida ficaria dividida e talvez nenhum dos projetos chegasse aos valores necessários. Por isso resolvemos abrir mão da nossa ideia. Mas o mais importante é que a torcida novamente contribuiu e o projeto da estátua obteve êxito. Hoje temos Krüger eternizado, na frente de nosso estádio.

UD: Ainda estão em busca de recursos para tentar viabilizar o material?

GS: A ideia foi cancelada. Durante nossas entrevistas, descobrimos diversos fatos inéditos que seriam ressaltados durante o documentário. Mas todos esses fatos foram utilizados pelo pessoal da estátua, para fazer vídeos que divulgassem o projeto. Aí nos sentimos desestimulados a prosseguir. Infelizmente, uma perda grande. Estávamos com pessoal e material de primeira, para fazer um documentário à altura do Flecha Loira.

UD: Mesmo assim, é válido. Não acham que pode ocorrer em outro momento?

GS: Dificilmente. Era para comemorar os 50 anos dele, já foi.

UD: Existe no estado pouca documentação pública sobre o futebol. Em tempos recentes, foram lançadas as histórias dos goleiros Rafael Cammarota e Jairo, ambos do Coritiba. No Atlético, foi feito livro sobre o Nilo Biazzeto, o Capitão Furacão. No Londrina, sobre a vida do Jorge Scaff. O que pensam sobre o assunto, que ainda deixa de contemplar muitos dos grandes ídolos do futebol paranaense?

GS: Pesquisadores de futebol sempre existiram. Antigamente, era muito mais difícil divulgar resultados de pesquisa. Mas isso mudou com a internet, pois os pesquisadores estão cada vez mais conectados, trocando informações. As ferramentas de pesquisa e o acesso aos jornais digitalizados potencializaram a capacidade do pesquisador de uma maneira gigantesca. Por isso, acredito que é uma questão de tempo para começarmos a ter uma avalanche de obras relacionadas ao futebol.

UD: No decorrer dos tempos, vocês colaboraram com a formação do espaço 100 anos do Coritiba Foot Ball Club, com a imprensa de Curitiba e de outras cidades em informações referentes ao Coxa. É uma forma de reconhecimento ou um alerta sobre a falta de livros e documentários especializados em clubes de futebol?

GS: Para obter reconhecimento, é necessário gerar resultados confiáveis. E para isso é necessária muita pesquisa. Infelizmente, o Brasil não é um país de pesquisadores. E o futebol é apenas mais um segmento que prescinde de pesquisadores. Mas, como respondi anteriormente, penso que essa situação está começando a mudar.

UD: Quando torcedores comuns de estádio, vocês imaginavam que formariam um grupo de torcedores do Coritiba fundamental para o resgate e preservação de histórico do clube?

GS: Em 1976, eu imaginava jogar na ponta-esquerda do Coritiba, substituindo Aladim. Mas eu tinha apenas 12 anos de idade na época (risos). Falando sério, todos os integrantes do grupo Helênicos já pesquisavam futebol quando garotos. Mas imaginar-se fazendo parte de um grupo, não. Quando existe mais de um pesquisador de um mesmo clube, estes costumam rivalizar, disputando a atenção da imprensa e contestando trabalhos um do outro. Por isso, acredito que o grupo Helênicos tomou essa proporção, pois seus integrantes trabalham todos na mesma direção.

UD: Na opinião do grupo, qual a situação dos pesquisadores de história do futebol no Paraná? O que pode ser feito pra melhorar?

GS: Conheço pesquisadores de muitos clubes do Paraná. Todos fazem seus trabalhos de formiguinha, garimpando, anotando, guardando. A conexão e a troca entre eles é o que permitirá gerar resultados futuros de maior qualidade.

UD: Após a eleição do jornalista Carneiro Neto, autor de livros variados sobre o futebol paranaense, à Academia Paranaense de Letras, foi comentado inclusive a possibilidade de proximidade entre os grupos de pesquisadores e a própria academia. Acreditam que isso possa fomentar o lançamento de obras sobre o futebol no Paraná?

GS: Toda ajuda é sempre muito bem-vinda. Mas a vida me ensinou que quando se precisa de algo, é muito mais eficiente você mesmo ir atrás, do que esperar que pessoas ou entidades venham oferecer apoio. Principalmente em um país como o nosso, onde a cultura é pouco valorizada.

UD: Existe algum assunto mais que gostaria de abordar?

GS: Agradeço a oportunidade de poder contar um pouco da história do grupo Helênicos, que tenho imenso orgulho de participar. Lembro a todos que quiserem conhecer mais detalhes da história do Coritiba a fazerem contato, que teremos prazer em ajudar.

Grupo Helênicos

Conheça os pesquisadores que ampliaram a relação entre Coritiba e torcedores alviverdes

Guilherme Costa Straube
Empresário no setor de informática. Desenvolve sistemas estatísticos sobre o Coritiba. Utiliza formação em processamento de dados para manutenção do site www.historiadocoritiba.com.br

Levi Mulford Chrestenzen
Um dos principais jornalistas especializados em futebol paranaense. Participou na produção de diversos livros de futebol, entre eles Futebol, Paraná, História (1991) e Futebol do Paraná – 100 Anos de História (2005) com Heriberto Ivan Machado. Também colaborou com Francisco Genaro Cardoso, o Helênico (pesquisador homenageado pelo grupo), em História do Futebol Paranaense (1978).

Flávio Henrique Sorthe
Empresário no setor gráfico. Especialista na história do Coritiba entre as décadas de 1980 e 1990.

Pierre Alexandre Boulos
Formado em odontologia. Trabalhou no Núcleo de Gestão das Categorias de Base do Coritiba.

Silvio César Marçal Gonzaga
Formado em Letras. Trabalha no setor bancário. É o revisor de textos do grupo.

Alan Roger Galvão da Silva
Administrador do Espaço 100 Anos do Coritiba.

Celso Luiz Moletta Júnior
Mestre em história, atua na pesquisa de famílias ligadas à fundação do Coritiba.

Fernando Mendes Cabral
Empresário e colecionador de camisas de futebol, com acervo de mais de 400 camisas oficiais do Coritiba.

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