Hasta la victoria siempre!

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Nestes tempos em que a cartolagem é dominada por executivos bem sucedidos e os clubes são o playground particular de bilionários, lavadores de dinheiro travestidos de investidores e sheiks endinheirados com seus petrodólares, um pequeno clube alemão de Hamburgo agitou o cenário futebolístico no começo da década e chamou a atenção da imprensa por aquilo que foi considerado “o time mais legal do mundo” pela CNN.

Em 2010, quando subiu para a Bundelisga, a divisão de elite alemã, o St. Pauli logo virou o clube de coração de todo esquerdista do mundo (ou, no mínimo, de qualquer um de saco cheio do atual big business que infestou o futebol mundial). Nem tanto pelo que fazem nas quatro linhas, mas exatamente o oposto disto.

Tendo Hell’s Bells, do AC/DC, como uma espécie de cântico da torcida, o FC St. Pauli já organizou um torneio internacional de Estados autônomos em 2006 (mesmo ano da Copa na Alemanha), já fez um amistoso com a seleção de Cuba em apoio a Fidel Castro e defende abertamente a luta contra a homofobia, o racismo, o machismo e a xenofobia dentro e fora dos certames. Além, é claro, das pérolas de alternatividade que time lança de vez em quando, como ser patrocinado por uma sex shop ou ter relacionado para uma partida um assessor de imprensa que também é ex-jogador.

Embora uma raridade no futebol atual, o St. Pauli não está só. Na Europa mesmo há diversos clubes identificados com as causas da esquerda – ou, pelo menos, cujos torcedores tem ligações ideológicas com elas. Há literalmente dezenas de exemplos por aí, mas como isso aqui não é uma enciclopédia, escolhemos os três mais significativos – conhece outros? sugere lá embaixo, nos comentários!

AC Omonoia Nicosia (Chipre)

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No canto esquerdo, a faixa contra o neo-fascismo é apenas uma das demonstrações políticas da torcida do Omonoia

Vem da pequena ilha do Chipre talvez o maior clube comunista do sudeste europeu – pelo menos em número de títulos, sendo 20 campeonatos nacionais em pouco mais de 60 anos, média de um caneco levantado a cada três anos.

Sua relação com a esquerda remonta aos tempos da guerra civil grega (1946-1949), que pode ser resumida assim: a esquerda queria o poder e a direita também, logo eles resolveram essa diferença na força. Porém, as coisas não ficaram tensas só na Grécia, mas também no vizinho Chipre. Tanto que muitos atletas cipriotas apoiavam o exército comunista grego, mas eram proibidos pela conferedação nacional de se manifestar politicamente.

Até que, em 1948, o APOEL FC, então o maior clube do país, enviou uma carta de apoio à entidade que rege os esportes amadores da Grécia, atitude que foi encarada por alguns jogadores comunistas como um comentário político, em um claro jogo de “dois pesos e duas medidas”. A partir daí, muitos deles se desligaram do time para fundar o AC Omonoia na capital Nicosia.

A ideologia deste passado se reflete nas atitudes do clube até hoje. A inimizade histórica com o APOEL FC é a mais óbvia. Tanto que, em 2010, a coisa esquentou quando um torcedor mais exaltado do Omonoia queimou uma bandeira da Grécia no meio da arquibancada, o que é considerado uma afronta grave pelos direitistas do país. A coisa só não ficou pior porque na ocasião o Omonoia tomou uma sacolejada de 3 a 0.

Sem contar que a polarização entre os dois clubes também se deve ao fato do Omonoia apoiar os cipriotas turcos, que são a minoria oprimida do país, dominado pela etnia dos cipriotas gregos, mais ligados ao APOEL. Pura política futebolística.

AS Livorno Calcio (Itália)

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Foice e martelo, camisa do time e Che Guevara. Isto é Livorno.

Falando em rivalidade, eis que temos um exemplo de como levar as coisas às últimas consequências. A inimizade entre o Livorno e a Lazio sempre teve um clima de Guerra Fria que, inclusive, quase levou a uma crise dos mísseis particular. Para começar, a Lazio é conhecida por ter sido o time preferido dos fascistas, inclusive do próprio Mussolini. Essa identidade está até hoje estampada no espírito do time, que até a pouco tempo não aceitava jogadores negros, e cuja torcida usa uma bandeira preta com a imagem do “Dux” e outros símbolos nazi-fascistas.

Enquanto isso, a cidade de Livorno é o berço do Partido Comunista Italiano e totalmente identificada com a esquerda. Tanto que a torcida do time costuma cantar “Bella Ciao” e “Bandiera Rossa”, hinos ligado aos movimentos comunistas e de resistência ao fascismo no país da bota.

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Lucarelli, atacante comunista, fazendo uma de suas comemorações pelo Livorno

Mas na temporada 2004-05, a rivalidade chegou a um nível extremo. Em grande fase, o Livorno tinha no seu elenco o atacante Cristiano Lucarelli, prata da casa e conhecido por ser um ardoroso defensor da causa socialista. Do outro lado estava o veterano Paolo Di Canio, ex-membro de uma torcida organizada da biancocelesti e que já defendeu Mussolini publicamente.

Jogadores polêmicos, ideologia opostas e uma torcida querendo tirar o couro da outra. Qualquer pessoa otimista saberia que as coisas ficariam feias no final. Para piorar, a mídia tratou de ver o circo pegar fogo quando um dos canais de Silvio Berlusconi chamou os dois jogadores para um debate não futebolístico, mas político.

Até que durante um jogo entre as duas equipes, em dezembro de 2005, ao ser substituído, Di Canio fez a famosa saudação fascista, com o braço direito erguido, para sua própria torcida, mesmo depois de ter sido punido por ter feito exatamente a mesma coisa contra a Roma no derby da capital. Em sua defesa, ele se disse vítima de uma injustiça, usou a desculpa da liberdade de expressão e acusou Lucarelli de comemorar um gol levantando o punho esquerdo cerrado a la Che Guevara. Ou seja, na sua visão, um gesto político por outro.

Mas, graças à presença da polícia, que já estava esperta, não houve nenhum confronto físico entre as duas torcidas. Em compensação, alguns fãs do Livorno foram intimidados por policiais quando chegavam ao metrô e, comunistas que são, responderam tacando pedras neles. A batalha terminou com trens danificados e seis torcedores presos.

Hapoel Tel Aviv FC (Israel)

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Sim.

Pra começar, o distintivo do Hapoel Tel Aviv tem a foice e o martelo e o uniforme é vermelho. Segundo: a fundação do time remete aos clubes de esportes soviéticos, criados como uma forma de lazer para trabalhadores sindicalizados. Por fim, os torcedores costumam usar faixas com a frase “Trabalhadores do mundo, uni-vos!”, de Karl Marx, e uma versão em vermelho da bandeira de Israel.

Não.
Não.

Seria esta certamente uma das maiores equipes de esquerda da história se, em 1996, ela não tivesse sido vendida para investidores privados. Essa parecia ser uma jogada mal feita, mas nada se compara com a ideia do novo dono de reformular o logo original, colocando o nome da marca de uma de suas empresas, a Keter. Lógico que qualquer torcedor do mundo teria um ataque de fúria incontrolável, mas para um time de comunistas isso é ironia pura. Não é preciso ser gênio para imaginar o quão grande foi o tiro no pé, já que os torcedores boicotaram qualquer souvenir que tivesse o novo distintivo, o que obrigou o time a trocar o logo novamente em 2008 por um mais parecido com o antigo.

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A torcida do Hapoel manda o recado: “Relembre a história. Combata o fascismo”.

De qualquer forma, a história do Hapoel Tel Aviv é alternada por momentos de altos e baixos. O primeiro campeão israelense reconhecido pela Associação de Futebol de Israel, quando o torneio ainda se chamava Liga Palestina, o Hapoel também foi a primeira equipe do país a entrar em greve, em 1964, por desentendimentos com a diretoria do time, o que levou o time a crise só recuperada nos anos 80. Hoje, o clube está entre as grandes equipes do país (a quarta maior torcida, apontam pesquisas).

Fora isso, os torcedores mantém ainda a velha prática de se desentender com o pessoal do Beitar Jerusalem, conhecidos por serem os mais sórdidos torcedores de Israel, com ideais xenófobos, racistas e militaristas – reflexos da turbulenta cidade de Jerusalém.

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