Guaratinguetá: ascensão, queda… E ascensão?

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Lúcio Flávio (não aquele) fez 1 a 0 para o Guaratinguetá, e quase fez 2 a 0 ao acertar uma bola no travessão aos 40min do segundo tempo. Do outro lado, jogando em casa, ninguém menos que o Sport Recife, que conseguiu o gol de empate com Zé Antônio aos 44min da etapa final. O jogo, válido pela segunda rodada da Série B de 2010, terminou 1 a 1 e colocou o Guará na liderança provisória da competição – tudo bem, com um jogo a mais que 16 dos 20 times na briga. Mas o resultado, que não mostrou a superioridade que o time de Roberval Davino teve no segundo tempo, mostrou pelo menos que o Vale do Paraíba tem condições de entrar novamente na rota da Série A do Brasileirão em pouco tempo.

Pode parecer surpreendente para um time que acabou de voltar da Série A-2 do Campeonato Paulista. Engano. Em primeiro lugar, porque Portuguesa e Santo André fizeram caminhos parecidos, subindo da A-2 e da Série B no mesmo ano – respectivamente em 2007 e 2008. E em segundo lugar, porque o Guaratinguetá não entra na primeira Série B de sua história apenas como um clube de interior disposto a fazer figuração. Como já fez na Campeonato Paulista de 2008, o Guará quer mostrar que tem condições de surpreender, com resultados de time grande.

Fundado como Guaratinguetá Esporte Clube em 1° de outubro de 1998, a equipe surgiu como diversas outras emergentes do interior. Contando com o apoio do empresariado e da torcida da cidade, o Guará estreou profissionalmente em 2000, na Série B-2 (então a quinta divisão) do Campeonato Paulista. Aos poucos, conseguiu sucessivos acessos, estreando na Série B-1 em 2002 e na Série A-3 em 2003.

O cenário começou a mudar em 2004, com a chegada de Carlos Arini. “Carlito”, como é conhecido, já havia passado pelo Tricolor do Vale em 1999, na fase de estruturação para a estreia nos gramados. Cinco anos depois, o dirigente deixava o cargo que exercia na gerência do Figueirense e retornava para assumir a presidência do clube paulista.

Arini trazia com ele o empresário Sony Alberto Douer, proprietário da Sony Sports. Na chegada, o investidor adquiriu os direitos do clube, assumindo posteriormente a presidência de honra do Guará – que deixou de se chamar Guaratinguetá Esporte Clube e passou a se chamar Guaratinguetá Futebol Ltda, oficializando sua condição de clube-empresa.

Guaratinguetá em 2005: ainda que com um péssimo cartão de visitas, um jovem fenômeno se apresentava à Série A-2 (Crédito: Emerson Ortunho/Jogos Perdidos)
Guaratinguetá em 2005: ainda que com um péssimo cartão de visitas, um jovem fenômeno se apresentava à Série A-2 (Crédito: Emerson Ortunho/Jogos Perdidos)

Com a dupla à frente, o Guaratinguetá Futebol Ltda. estreou na Série A-3 daquele ano de 2004, conseguindo logo de cara o acesso para a Série A-2. Apesar de quase ter voltado para a A-3 no ano seguinte, a Garça conseguiu se manter, e buscou o acesso em 2006, quando foi a quarta colocada da segunda divisão do Campeonato Paulista.

O retorno da cidade de Guaratinguetá à Série A-1 aconteceu em 2007, 43 anos após o rebaixamento da hoje extinta Esportiva. Décima colocada na primeira fase, a equipe comandada por Toninho Cecílio terminou o Campeonato Paulista com o título do Torneio do Interior.

No ano seguinte, surpresa: contando com nomes como Michael, Dinei, Alessandro Cambalhota e Nenê, e com uma folha de pagamento mensal de R$ 300 mil (apenas a décima entre os times da Série A-1), o time liderou a primeira fase do Campeonato Paulista, antes de ser eliminado nas semifinais pela Ponte Preta. Agora comandado pelo técnico Guilherme Macuglia, o Guaratinguetá garantiu uma vaga na Copa do Brasil do ano seguinte e na Série C do Campeonato Brasileiro, então última divisão nacional.

Guaratinguetá, 2008: caçula surpreendia e mostrava a força dos clubes-empresa do interior (Crédito: Globo Esporte.com)
Guaratinguetá em 2008: o caçula surpreendia e mostrava a força dos clubes-empresa do interior (Crédito: Globo Esporte.com)

Nos bastidores, Carlito Arini e Sony Douer eram festejados como um novo modelo de dirigente esportivo. A dupla não escondia sua intenção de adquirir um clube no futebol europeu, evitando os “intermediários” (leia-se “clubes brasileiros”) na negociação de jogadores. “Queremos lucro, dinheiro. Isso só vem com títulos. Temos de ser campeões paulistas até pelo dinheiro”, afirmou Sony ao jornal O Estado de S. Paulo.

Na Série C, o ambicioso Guará fez um bom papel, passou pelas duas primeiras fases e se garantiu automaticamente na edição 2009 do torneio – que passaria a ter 20 clubes, ao invés dos então 64. Posteriormente, o clube caiu na terceira fase da competição, mas sem perder o brilho de uma ascensão que parecia quase irrefreável.

Mas eis que aconteceu o que ninguém esperava. Candidato ao título paulista de 2009, o clube se preparou com dinheiro, sete patrocinadores e pré-temporada em Jarinu. No entanto, a troca de treinadores (Argel, Estevam Soares e Márcio Araújo em pouco mais de três meses) e a chamada “falta de vontade” dos jogadores, segundo o próprio Carlito Arini, acabaram decretando o rebaixamento do clube para a Série A-2 de 2010.

“Não há planejamento capaz de prever a falta de empenho, a falta de luta, de dar um pouco mais. Amor à camisa não se compra. Porque se tivesse para vender, nós tínhamos comprado e dado para vários jogadores que não tiveram vergonha na cara”, disse Arini ao blog do jornalista Cosme Rímoli na ocasião.

Duro nas palavras, o dirigente não poupou críticas ao elenco. “Falei que eles (jogadores) não tinham o direito de ter destruído uma história tão linda de dez anos de sonhos. E deixei claro que sabia quem era quem. Que sabia que iriam mostrar lágrimas de crocodilo e depois iriam comer pizza e dormir com seu bagaço (amante)”, afirmou.

O rebaixamento deixou uma péssima impressão do Guaratinguetá. No entanto, o clube voltou a surpreender na Série C de 2009, conquistando o acesso para a Série B do ano seguinte após eliminar o favorito Caxias-RS nas quartas de final. Tudo indicava que o revés no Paulistão havia sido temporário, e que a ascensão do Guará não tardaria a ser retomada.

Porém, na reta final da Série C, Carlitos Arini surpreendeu e deixou a presidência do clube – assumida pelo ex-diretor de futebol Eduardo Ferreira com o aval de Sony Douer. Posteriormente, Arini foi anunciado como o novo diretor-executivo de futebol do Santo André, então prestes a ser rebaixado no Campeonato Brasileiro. E o Guaratinguetá, por sua vez, pensava apenas na Série A-2 de 2010.

Guaratinguetá em 2010: de volta à Série A-2, acesso à elite paulista era considerado obrigação (Crédito: Futebol do Vale)
Guaratinguetá em 2010: de volta à Série A-2, acesso à elite paulista era considerado obrigação (Crédito: Futebol do Vale)

Na Série A-2, com a dupla Eduardo Ferreira e Sony Douer à frente da gestão, o Guaratinguetá conseguiu se virar com as baixas receitas de TV (R$ 60 mil, contra R$ 1,2 milhão da Série A-1). Contando com o trabalho do técnico Roberval Davino e com média de público pouco inferior a 2,5 mil torcedores por jogo (muito positiva para o torneio), a equipe garantiu o acesso à Série A-1 ao lado de Noroeste, São Bernardo e Linense.

O retorno à primeira divisão paulista era considerado obrigação no clube em 2010. No entanto, o real poder de fogo do clube do Vale do Paraíba só será testado na Série B de 2010. Esquecida pela mídia na Série A-2, a equipe estreou vencendo o Duque de Caxias por 3 a 1. E a partir de agora, terá a missão de mostrar que os investimentos de Sony Douer ainda poderão manter a trajetória emergente do clube, mesmo sem Carlito Arini à frente das ações. Se conseguir, ninguém poderá dizer que o acesso foi uma surpresa.

Fotos e informações: Guaratinguetá FL (site oficial), Terra, Gazeta Esportiva.Net, iG Esportes, Futebol Interior, RSSSF, FPF, Wikipedia, Jogos Perdidos, Blog do Cosme Rímoli e Blog Futebol & Negócios.

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