Marcelo Boeck: da tragédia da Chapecoense à redenção do Fortaleza

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Na vida e na profissão, os últimos 10 meses de Marcelo Boeck foram bastante peculiares.

Nascido em 28 de novembro de 1984 na cidade de Vera Cruz (RS), o goleiro foi revelado pelas categorias de base do Internacional. Ali, conquistou o Campeonato Gaúcho (2005), a Copa Libertadores da América e o Mundial de Clubes (2006). Depois, atuou no futebol português entre 2007 e 2016, defendendo Marítimo e Sporting.

Em fevereiro de 2016, foi emprestado pelo Sporting à Chapecoense. No clube catarinense, disputava a vaga com Danilo – e embora o titular cedesse pouco terreno na disputa, Marcelo Boeck teve algumas chances para entrar em campo.

(Crédito: Ivan Storti/Lancepress!)

Assim foi no Campeonato Brasileiro, por exemplo. Nos 37 jogos que a equipe fez no torneio, Boeck foi titular em seis, todos após a chegada do técnico Caio Júnior. No final do primeiro turno, engatou uma série de cinco jogos seguidos: contra Cruzeiro (vitória por 3 a 1), Santos (derrota por 3 a 0), Corinthians (derrota por 2 a 0), Figueirense (empate em 1 a 1) e Botafogo (vitória por 2 a 1). Depois, viu Danilo se tornar quase imbatível na posição.

No banco, o gaúcho vinha se revezando com Follmann e Nivaldo – muitas vezes, dois goleiros ficavam na reserva e um ficava fora da relação de jogadores. Em sua última oportunidade como titular, na 28ª rodada, Boeck não conseguiu evitar a derrota em casa da Chape para o Vitória por 4 a 1, com quatro gols do time rubro-negro no primeiro tempo.

Depois daquele dia, o goleiro não teve mais chances nem de ficar no banco de reserva.

Por isso, não foi relacionado para o jogo contra o Palmeiras no Allianz Parque pela 37ª rodada, que valeu o título brasileiro à equipe paulista. E também não estava no voo que decolou no dia 28 de novembro rumo à Colômbia, onde o time catarinense enfrentaria o Atlético Nacional pelas finais da Copa Sul-Americana de 2016. Entre os goleiros, apenas Danilo e Follmann foram relacionados para os jogos.

Na madrugada do dia 29, o avião da delegação caiu nos arredores de Medellín. Ao todo, 71 pessoas morreram.

“Teve um momento em que o Caio (Júnior) decidiu me tirar das convocatórias. Eu não estava nem indo para o banco. No jogo contra o Palmeiras, o treinador me avisou que havia a possibilidade de levar três goleiros, mas foram só dois”, contou Marcelo Boeck, em entrevista por telefone ao Última Divisão.

Na ocasião, mesmo que fosse um provável espectador, ficar fora da delegação que embarcou a Medellín deixou uma ponta de decepção no goleiro. “Era o meu único titulo sul-americano que eu não tinha. Eu queria estar lá”, explicou ele – que, no entanto, admitia a frustração com as poucas chances. “Ao mesmo tempo, eu só voltei da Europa para jogar.”

No dia 28, dia da viagem da Chapecoense, Marcelo Boeck comemorava o aniversário de seu filho em casa. Dormiu tarde, mas acabou sendo acordado de madrugada por telefonemas de familiares que, já cientes da notícia do desastre na Colômbia, queriam se certificar de que ele estava vivo.

No fim, foi graças ao veto de Caio Júnior que Marcelo Boeck escapou da tragédia. “A gente teve uma segunda chance”, avalia hoje. “Se Deus não quis que a gente fosse, era para a gente viver uma vida melhor.”

No Fortaleza, só se falava do mata-mata da Série C

Àquela altura, porém, deixar a Chapecoense já era uma possibilidade real para Marcelo Boeck. No meio de novembro, sem saber se seu empréstimo com o clube catarinense seria renovado, começou a receber sondagens do Fortaleza e de clubes do exterior.

A queda do avião da delegação da Chape acabou deixando incerta a situação da renovação. Com a oferta do Fortaleza em mãos e o prazo se esgotando, optou por aceitar a saída.

“Depois de tudo aquilo, eu não poderia esperar mais para dar uma resposta. A Chapecoense não tinha uma resposta definitiva para me dar. Então, optei por seguir a vida”, justificou.

Com o novo clube, ficou fora das finais do Campeonato Cearense – o Ceará conquistou o título diante do Ferroviário. A meta, no entanto, era outra: conquista o acesso na Série C do Campeonato Brasileiro, na qual o Fortaleza estava desde 2010. Nestas oito temporadas, a equipe esteve nas quartas de final do torneio em 2012, 2014, 2015 e 2016, sempre perdendo a promoção no confronto decisivo diante de sua própria torcida.

“Quando a gente assina com o Fortaleza, ninguém fala nem sequer da fase classificatória (da Série C); só fala do mata-mata. Como o Fortaleza tinha esses oito anos de angústia, todo mundo só falava do mata-mata”, explica Marcelo Boeck.

E a primeira fase da terceira divisão nacional começou tranquila para o time tricolor – em seis jogos, foram quatro vitórias e um empate. No entanto, a irregularidade na sequência da competição acabou colocando em risco o sonho da promoção. Sobrou para o técnico Paulo Bonamigo, demitido após a derrota por 2 a 0 para o Sampaio Corrêa na 15ª rodada.

Nos três jogos seguintes, o Fortaleza somou quatro pontos e garantiu o terceiro lugar do Grupo A. No temido mata-mata, enfrentou o Tupi, vice-líder do Grupo B. Desta vez, o Fortaleza fez o primeiro jogo em casa e venceu por 2 a 0; na volta, em Minas Gerais, perdeu por 1 a 0.

(Crédito: Fortaleza EC/Divulgação)

Mas o placar adverso no jogo de volta, construído com o gol de Fernando aos 36 min do segundo tempo, não assustou quem defendia o Fortaleza em campo. Não segundo Marcelo Boeck.

“Por mais que a gente tivesse com 1 a 0 contra, a gente teve oportunidade de marcar também. E não perdemos o controle emocional, o controle do jogo. Nós ali dentro sabíamos exatamente o que estava acontecendo”, assegura. “Por mais que a gente tenha sofrido uma pressão do Tupi lá, a gente não perdeu o controle emocional.”

No fim das contas, o acesso do Fortaleza veio fora de casa, mas decidir no Castelão não seria problema. Para o goleiro, apesar da desconfiança da torcida, ter o apoio das arquibancadas seria um reforço na hora da decisão.

“Do nosso lado, é um futebol mais alegre, ofensivo, atraente para o público. Contra o Tupi, eram duas culturas diferentes de jogo. A torcida estava meio receosa por sempre decidir em casa, mas eu preferia decidir em casa. Neste ano, tivemos só 40 mil em casa – nos outros anos, chegava a 60 mil. No primeiro jogo, a gente amassou o Tupi aqui”, afirmou. Para a vitória por 2 a 0 sobre o Tupi em 2017, 39.126 ingressos foram vendidos; em 2016, o empate por 1 a 1 com o Juventude, que classificou o time gaúcho à Série B, foi acompanhado por 63.903 torcedores na capital cearense.

Com a classificação sobre o Tupi, o Fortaleza enfrentará o Sampaio Corrêa nas semifinais. O principal objetivo, porém, já foi cumprido.

“Tem uma geração de crianças que não viu o Fortaleza nem sequer em uma Série B. Por outro lado, tem uma geração que viu o Fortaleza em grandes momentos. Essas gerações se encontraram. A imagem que eu tenho é de gerações se abraçando e chorando, de crianças que chegam na escola e falam que o Fortaleza não é mais de Série C”, relata o goleiro, cujo

Foto: Mateus Dantas/ O Povo

O contrato de Boeck com o time cearense vai até 15 de novembro. E agora? Fica ou vai? Por enquanto, segundo ele, já houve “um primeiro bate-papo” sobre a permanência – e a influência da torcida pode ajudar. “Eu sou muito emotivo nessas horas. Eu não aguento, choro. Se eu começar a lembrar de mensagem, do carinho deles por mim… Isso tem me comovido muito”, garante Boeck.

E depois da Série C? Antes de começar a próxima temporada, Marcelo Boeck voltará a Chapecó.

“A gente não tem status de estrela na cidade – ainda mais após a tragédia. Nós temos muitos amigos lá. A gente planeja voltar no fim do ano para uma visita”, adiantou. “Depois de tudo que aconteceu, o vínculo ficou mais forte ainda”, completou.

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