Gobatto: “Até hoje não entendo a desclassificação do Santa”

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Aos 27 anos, o meio-campista Leandro Gobatto deixou de lado o conforto de viver no exterior – e ganhar em moeda estrangeira – e aceitou o desafio de vestir a camisa 10 do Santa Cruz em um dos piores momentos da história do clube pernambucano. Paulistano, revelado pelo Juventus e com passagens por Itália (Piacenza, na segunda divisão) e Costa Rica (Brujas), Gobatto voltou ao Brasil para ver seu nome ganhar projeção nacional.

A eliminação precoce da Série D, porém, não estava nos planos do meia. Depois daquele fatídico 9 de agosto de 2009, Gobatto ficou um período sem poder jogar, já que havia rescindido contrato no Santa e não havia encontrado outro clube para disputar o segundo semestre. De férias forçadas, atendeu o Última Divisão por telefone e não hesitou em falar dos motivos que levaram à derrocada tricolor, do atraso de salários e de outras questões polêmicas, em uma entrevista exclusiva ao blog.

No dia da conversa, Gobatto ainda negociava sua ida para um “clube goiano da Série B”. O Vila Nova seria esse clube, mas não houve acerto. Depois veio o encerramento das inscrições para as Séries A e B e o fechamento da janela de transferências para a Europa, quando o jogador se viu quase “sem saída”. Neste mês, porém, Gobatto aceitou a proposta do modesto São Bernardo FC, pelo qual disputará a Série A-2 do Campeonato Paulista em 2010 e tentará esquecer o inexplicável fracasso na Série D do Campeonato Brasileiro.

Última Divisão: Dá para entender o porquê de o Santa Cruz ter sido eliminado?
Gobatto: Dentro de campo, não dá para entender. Posso te garantir, fizemos bons jogos. Mas o último foi absurdo. Precisando da vitória, em casa, pressionamos demais, perdemos todas as chances possíveis. Era bola que ia na trave, que o goleiro fazia milagre, que passava raspando. Tentamos de tudo. Eles só tiveram dois ataques no jogo inteiro, e fizeram os dois gols. Foi inacreditável, saímos de campo sem entender, entramos no vestiário sem entender, e assim eu fico até hoje. Os resultados nos favoreciam, mas mesmo assim não deu nada certo.

(Nota da redação: O jogo foi contra o CSA, no Arruda, com mais de 30 mil torcedores. A vitória do Central sobre o Sergipe, no outro jogo do grupo, fez com que o Santa dependesse apenas de uma vitória simples em casa. Porém, o time cedeu o empate por 2 a 2 após ficar duas vezes em vantagem no placar)

UD: Mas como era o clima no grupo? Isso pode ter atrapalhado?
G: Diziam que a gente era rachado, mas nunca teve nada disso, uma discussão sequer. Acima de tudo, foi um grupo de homens. Não tinha porque ter confusão, afinal todo mundo queria a mesma coisa: levar o time para a Série C e aparecer no cenário nacional. Essa era a intenção de todo mundo.

UD: A troca de técnico custou caro para o time?
G: Isso fez diferença sim, sempre faz. O Márcio já tinha um método de trabalho implantado, além do mais era experiente e sabia tranquilizar o grupo. Com o China foi diferente. Ele é uma grande pessoa, mas ainda não estava preparado para assumir esse cargo. Foram muitas mudanças em relação ao trabalho do Márcio e nós acabamos sentindo, por isso tropeçamos na Série D. Quando o Márcio voltou, já estava muito mais difícil a classificação.

(Márcio Bittencourt deixou o comando, Sérgio China assumiu por um mês e Márcio voltou na sequência, tendo apenas dois jogos para tentar classificar o time para a fase seguinte da Série D. Não conseguiu.)

UD: Qual foi a culpa da diretoria nessa situação?
G: Culpa quase zero. É preciso elogiar os esforços do presidente Fernando Bezerra, do diretor Luiz Antônio (Ruas Capella, que deixou o Santa antes da eliminação e foi para o Santos) e de toda a diretoria, que fez o máximo para trazer reforços. Em relação ao clube, não tenho do que reclamar.

UD: Tecnicamente, você não tem onde jogar até o fim do ano. Como vai lidar com isso?
G: Tinha contrato com o Santa Cruz até o fim de dezembro, que já foi devidamente rescindido (no final de agosto, apesar de o boletim diário da CBF mostrar que o contrato ainda está em vigor). Meu empresário teve contatos com alguns clubes do exterior e também da Série B daqui. O acerto com um time de Goiânia quase veio, mas infelizmente não deu certo. Já deixei o Recife e ficarei em casa (em São Paulo) aguardando uma definição sobre o futuro.

(Em 12 de novembro, pouco mais de três meses da eliminação com o Santa, Gobatto acertou com o São Bernardo FC para a disputa da Série A-2 do Campeonato Paulista)

UD: Mas você voltaria para o Santa Cruz para jogar até o fim do ano?
G: Eles não estão disputando competições oficiais, então não vejo motivo para um retorno. Já estou pensando no futuro para a próxima temporada. Depois, quem sabe? Mas agora não tem nem como eu voltar.

(Nota da redação: O time disputou a Copa Pernambuco com um elenco totalmente diferente do da Série D. Entre os titulares, os mais conhecidos são o meia Thiago Henrique e o atacante Roger, que jogaram a Série D. Apesar disso, o time do técnico Dado Cavalcanti chegou até a final com o Central de Caruaru e está em busca do bicampeonato do torneio. Em 2010, porém, o técnico será Lori Sandri)

UD: Quais são suas melhores lembranças no clube?
G: São duas, certamente. Primeiro um gol que eu fiz contra o Serrano, meu primeiro com a camisa do time, depois a torcida. É maravilhosa e não merece estar passando por esse momento. No dia do último jogo, o Arruda estava lindo, lotado, e nos apoiou o tempo inteiro. O mais incrível foi ver que o time acabou eliminado da última divisão e nem assim eles vaiaram. O que se viu foi um enorme silêncio, torcedores deixando o campo cabisbaixos. Isso me deixa ainda mais indignado por não ter conseguido a classificação.

UD: Você pretende continuar no futebol brasileiro ou quer voltar para o exterior?
G: Fiquei um bom tempo lá fora, joguei na Itália, na Costa Rica… Acabei pouco conhecido por aqui, e queria mesmo me firmar no futebol brasileiro. Porém, se não tiver uma boa proposta fica complicado. E se aparecer uma boa do exterior, acho que volto. Mas primeiro quero ouvir os clubes daqui, alguém que tenha um projeto legal. Não é bom para a carreira ir para qualquer clube.

UD: A passagem pelo Santa Cruz foi prejudicial ou benéfica para você?
G: Apesar das eliminações, foi benéfica sim. Passei a ficar mais conhecido no cenário nacional, fiz bons jogos e acredito que, pelo menos individualmente, foi uma boa temporada para mim. Mas ainda posso fazer mais, e farei.

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