Gillingham FC, my first and only true love!

0 91

Click here to see a English Version :)

Eddie Thompson, ex-presidente do clube escocês Dundee United, disse uma vez que “você pode trocar de esposa, de casa, de carro…mas nunca pode trocar de time.” Em geral eu concordo, já que apesar de ter adotado o Juventus como meu time no Brasil, meu primeiro e único amor é o Gillingham.

gillingham-stadium
Estádio Priestfield – A casa do Gillingham Football Club

E essa afirmação fez com que você se sentisse como a maioria dos brasileiros que conversam comigo sobre futebol inglês. Uma conversa típica seria mais ou menos assim:

— Qual seu time na Inglaterra?
— Ah, é um time pequeno.
— Qual?
— Gillingham.
— Quem?
— Gillingham.
— Gilli- o quê?
— Gillingham.
— Tá, mas você torce por qual time da Premier League? Arsenal? Manchester United? Chelsea?
— Nenhum. Só o Gillingham, Eles jogam na terceira divisão.
— OK, mas e a Premier League? Não gosta de nenhum time?
— Não.
— Ah…

Mas acreditar que eu torço por um time que na temporada passada jogou na quarta divisão inglesa não é uma dificuldade enfrentada apenas pelos brasileiros.

Há alguns anos, quando estávamos a caminho de um jogo, um amigo holandês ridicularizou minha sugestão quando eu disse que poderíamos ir até a ‘Gills Megastore’ para que ele comprasse um souvenir – até chegarmos lá e ele perceber que a loja realmente existia. Além disso, quando estávamos dentro do estádio, ele se surpreendeu com o fato de que havia assentos para todos e o padrão de qualidade era equivalente aos estádios na primeira divisão holandesa, a Eredivisie.

gills-megastore
A famosa Megastore do Gillingham

Assim, embora todos os fãs de futebol do mundo conheçam e talvez assistam à Premier League, é importante dizer que as outras divisões inglesas têm bastante tradição – algo que talvez seja único em todo o mundo*. Muitas pessoas torcem pelos times locais e não se importam se eles jogam na Premier League, na quarta divisão ou até mais para baixo.**

No meu caso, apesar de ter vivido em Londres a maior parte da vida, eu nasci na cidade de Chatham, a uns 60 km da Londres e que não fica muito longe de Gillingham. Infelizmente, depois que meu pai – um torcedor fanático do Gillingham – me levou ao meu primeiro jogo em abril de 1989 (uma vitória em casa por 3 a 0 contra o Mansfield Town), eu fui fisgado. Eu digo infelizmente porque a cidade em que nasci – e a influência do meu pai – significam que em vez de torcer por um time que joga a Champions League no Camp Nou, eu torço por um que joga nos estádios mais modestos da Inglaterra, como o Barnet’s Underhill.

underhill
Estádio Underhill – Barnet FC

Acredite: em várias ocasiões – geralmente uma das quatro temporadas em que o Gillingham foi rebaixado – eu gostaria que Eddie Thompson estivesse errado. Contudo, onde quer que eu esteja no mundo, todo sábado às 15h (GMT) eu procuro freneticamente pelo placar do jogo do Gillingham – mesmo sabendo que isso geralmente me dá poucas alegrias.

Porém, o lado bom de torcer por um time relativamente malsucedido como o Gillingham é que os raros momentos de triunfo significam muito mais. Durante a adolescência eu tive a sorte de vivenciar uma dos momentos mais gloriosos da história do time – que veio logo depois do momento mais traumático também, diga-se de passagem.

Em janeiro de 1995, dois anos depois de seu centenário, o Gillingham quase entrou em falência e sobreviveu graças ao empresário Paul Scally, que comprou o time pela simbólica quantia de £1 (R$ 3,60). Scally continua na presidência até hoje.

Por incrível que pareça, os dez anos seguintes foram o começo da melhor fase do clube. Na primeira temporada pós Scally, o time subiu para a terceira divisão, sob o comando do técnico Tony Pulis (até recentemente no comando do Stoke City). Em seguida, após algumas temporadas se solidificando na terceira divisão, o Gillingham chegou às finais do playoff de 1998/99 – quando eles jogaram contra um timezinho chamado Manchester City***.

Esse jogo, em 30 de maio de 1999, foi o mais emocionante e emocionalmente desgastante que eu já vi. Com um público de 76,935 torcedores no antigo estádio de Wembley, o Gillingham marcou aos 36 e aos 42 minutos do segundo tempo e conseguiu uma vantagem indiscutível de 2 a 0. Porém, nos 5 minutos de acréscimo, o Manchester City marcou duas vezes e arrancou o empate que levou os times à prorrogação. Depois de 30 minutos sem gols, o Manchester City venceu por 3 a 1 nos pênaltis.

Eu tinha dezoito anos na época… fiquei inconsolável.

Mas na temporada seguinte o Gillingham chegou novamente aos playoffs, dessa vez contra o Wigan. Ao contrário da temporada anterior, o Gillingham virou o placar e venceu por 3 a 2, com o terceiro gol saindo nos acréscimos. Assim, o Gillingham jogaria na segunda divisão inglesa pela primeira vez em sua história.

Mesmo com menos recursos que os outros times, o clube surpreendeu muita gente e permaneceu na segunda divisão por cinco anos. Mas o sonho acabou quando eles foram rebaixados na temporada 2004/05. Nos anos seguintes, o time ficou subindo e descendo para a terceira e quarta divisões; um período decepcionante se comparado aos ‘dias de glória’ do passado.

Contudo, sob o comando do novo técnico Martin Allen, o clube vem se mostrando mais otimista e na temporada passada conseguiu subir novamente para a terceira divisão.
E é claro que no ano em que eu resolvi viver no Brasil o Gillingham foi o campeão da divisão – coisa que não acontecia desde a temporada 1963/64.

Típico.

* Na última temporada, por exemplo, os jogos do Gillingham tiveram média de público de 6.500 torcedores (sendo o maior público de 11.172 – o estádio tem capacidade para 11.582). Porém, esse resultado foi apenas o quarto melhor, com a média de público do Bradford City atingindo 10.322. Não consigo imaginar muitos outros países onde a quarta divisão de futebol (ou qualquer outro esporte) tenha um público tão entusiasmado.

** Sutton United, meu time local em Londres, é semiprofissional. Eles jogam na sexta divisão e a média de público gira em torno de 500 torcedores nos jogos em casa.

*** O Manchester City jogou na Premier League até 1996, quando foram rebaixados duas vezes em três temporadas. Na temporada 1998/99, na terceira divisão, a média de público nos jogos em casa foi de 28.261.

///

English Version

Eddie Thompson, the late chairman of Scottish club Dundee United, was once famously quoted as saying: “You can change your wife, your house, your car, but you can never change your team.” I generally agree because whilst I’ve adopted Juventus as my team in Brazil (in Portuguese), my first and only true love is Gillingham.

And this, I’m guessing, probably leaves you feeling the same way most Brazilians do when they talk to me about football in England. A typical conversation usually goes something like this:

– What is your team in England?
– Oh, just a small team.
– Who?
– Gillingham
– Who?
– Gillingham.
– Gillin-what?
– Gillingham.
– Right, but which team do you support in the Premier League? Arsenal? Manchester United? Chelsea?
– No-one, just Gillingham. They play in the third division.
– Ok, but what about the Premier League? You don’t like anyone?
– No.
– Oh.

However, incredulity at the fact that I support a team who last season played in England’s fourth division is not uniquely Brazilian.

On the way to one game a few years ago, a visiting friend from the Netherlands ridiculed my suggestion that I was going to take him to the ‘Gills Megastore’ so that he could buy a souvenir – until he reached the stadium and realised it actually existed. Furthermore, once inside the stadium he was surprised to observe that the stadium was all seated and the equivalent standard of some stadiums in the Netherlands’ top division, the Eredivisie.

So, whilst every football fan around the world knows about and probably watches England’s Premier League, it’s important to point out that English lower league football also has a great tradition – something I would say is probably unique around the world*. Many people still follow their local clubs regardless as to whether they be in the Premier League, Fourth Division or even lower**.

In my case whilst I’ve lived in London for most of my life I was actually born 60km away in a town called Chatham, which is itself just a short distance from Gillingham. Unfortunately for me, after my father – an avid Gillingham fan himself – took me to my first game back in April 1989 (a 3-0 home win against Mansfield Town) I was forever hooked. I say unfortunately because my place of birth – and my father’s influence – meant that instead of being able to follow a team who regularly visit the Camp Nou in the Champions League, I’ve instead mostly watched my team play in the lower leagues at stadiums like Barnet’s Underhill.

Believe me, there have been many times – typically during one of the four relegation seasons I’ve experienced as a fan of the Gills – that I wished Thompson was wrong. However, no matter where I am in the world, come 3pm on a Saturday it’ll always be Gillingham whose score I’ll frantically search for – no matter how little joy it brings me.

Yet, one upside of supporting a relatively unsuccessful team like Gillingham is that the rare successes tend to mean so much more, and during my teenage years I was fortunate enough to experience the most successful period in the club’s history – mind you, it did also follow its most traumatic.

In January 1995, just two years after Gillingham celebrated its centenary, the club almost went out of business and it was only saved from closure when businessman Paul Scally bought the club for £1. Scally is still the Chairman today.

Remarkably, the following ten years saw the beginning of the club’s most successful period. In Scally’s first season, the club, under the guidance of manager Tony Pulis (until recently the manager of Stoke City), the Gills were promoted from the fourth division.

And then, following a couple of seasons in which the club built some momentum in the third division, they reached the 1998/99 Play-Off Final where they played a little team called Manchester City***.

That game, on 30 May 1999, must go down as the most exciting, exhilarating and emotionally draining I’ve ever witnessed. In front of 76,935 people at the old Wembley, Gillingham scored in the 81st and 87th minute to take what everyone thought would be an unassailable 2-0 lead. However, in five minutes of injury-time, City scored twice to equalise and take the game into extra-time. Following a goalless 30 minutes, City then won the penalty shoot-out 3-1.

I was 18 years old at the time and completely heartbroken.

However, the following season Gillingham again made it to the Play-Off final, this time facing Wigan. In a role reversal of the previous year, Gillingham came from behind to win 3-2, with the winning goal coming in injury time at the end of extra-time. It meant Gillingham would play in England’s second division for the first time in its history.

The club, with limited resources compared to other teams around them, surprised many by surviving in the second division for five years. However, the dream ended when they were relegated back to the third division in 2004/05. The subsequent years have seen the club bounce back and forth between the third and fourth divisions, and it has been, compared to the ‘glory’ years, a disappointing period for the club.

However, last season, under the guidance of new manager Martin Allen, the club seemed to find a new sense of optimism, and won promotion from the fourth division back to the third division. Inevitably it had to be the year I chose to live outside of the UK in Brazil that the club went on to win the league outright as champions for the first time since 1963/64.

Bloody typical

*For example, last season Gillingham had an average attendance of just over 6,500 (with a season high of 11,172 – the stadium capacity being 11,582). However, this was only the fourth best in the league, with the highest being that of Bradford City who averaged 10,322. I can’t imagine there being many other countries around the world where fourth division football (or any sport for that matter) is so enthusiastically attended.

*Sutton United, my local team in London are semi-professional, play in the sixth tier of football in England and average around 500 spectators per home game.

***Manchester City had been in the Premier League until 1996 before suffering two relegations in three seasons. During their 1998/99 season, in the third division, their average home attendance was 28,261.

Você pode gostar também
Comentários
Carregando...