Galway United e o futebol na terra da Guiness

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Cheguei na Irlanda na última quinta-feira de setembro. Ainda em São Paulo, rápida olhada na tabela da liga local e das eliminatórias da Eurocopa: o Galway United, time da cidade em que escolhi morar, não é dos melhores, muito menos colocado entre os cotados ao título – seleto grupo de times irlandeses não tão amadores; a seleção, em paz com a torcida após ficar fora da Copa da África do Sul num polêmico duelo contra a França, teria em poucos dias o que estava sendo considerado o grande teste para a confirmação da liderança e da boa forma na Euro.

O futebol na ilha da cerveja escura

Futebol na Irlanda significa Campeonato Inglês. Nas camisas que vi pelas ruas, Liverpool, Manchester e Arsenal dividem a preferência com fãs de rugbi e dos esportes gaélicos. Dizem que os Reds tem a maior torcida por aqui, e é o que imagino pela lotação dos pubs aos gritos de “You’ll never walk alone” e pelo número de livros que retratam a relação da ilha com o clube da terra dos Beatles, por sinal muito próximos geograficamente – uma viagem de avião entre Dublin e Liverpool é coisa de meia hora.

A supremacia da liga milionária leva os jogos do Campeonato Irlandês, a Airtricity League, aos horários alternativos, como as noites de sexta e sábado. Na TV, um jogo por rodada, e nos jornais nacionais uma cobertura pobre, muito pobre. As pessoas, de fato, não acompanham o dia-a-dia dos clubes, que, quase amadores, pouco conseguem fazer para levá-las aos estádios ou concorrer com os gigantes europeus.

“A TV elevou a expectativa das pessoas com o nível do futebol. SKY e Premiership definiram um padrão para os espectadores que não é realista para o futebol da Irlanda. Mas alguns jogos em Terryland [estádio do Galway] são mais interessante que jogos da Inglaterra pela TV. A federação tem de promover a liga de um jeito melhor, e a imprensa nacional oferecer uma cobertura maior para que mais pessoas se interessem pelos jogos”, disse um fuincionário do Galway United a um jornal local em entrevista recente.

São 10 clubes na elite, sendo que Shamrock Rovers, campeão em 2010, e Bohemians, vice, disputaram ponto a ponto o campeonato. São dos clubes mais estruturados do país que vive um futebol semi-profissional.

Camisas do Galway United em duas versões: grená e branca

Na minha chegada à casa dos Cubbard, onde aluguei um quarto para passar algum tempo com um simpático casal de irlandeses, Mike me recebeu com um boné do Liverpool. Estava assistindo um jogo pela Liga Europa, quando sentei e começamos falar do time da cidade. Apesar de gostar e acompanhar futebol, o fã de Fernando Torres pouco se alongou sobre o Galway. Sintetizava ali a relação da cidade com time. Distante, fria, quase imperceptível. Na sexta, primeira derrota, 3 a 0 diante do Dundalk, time de meio de tabela.

Ireland! Ireland! Ireland!

Sempre simpatizei com seleções. Sempre parei com mais atenção para assistir qualquer jogo de seleção que fosse. Até aquela sexta, 8 de outubro, passei por uma semana de muita conversa e leitura sobre o time irlandês, comandado pelo italiano Giovanni Trapattoni. O lance do gol ilegal marcado pela França na prorrogação da partida que valia vaga na Copa do Mundo virou até livro. A ajeitada de Henry com a mão, em lance que resultou no gol salvador de Gallas, parece ter aflorado o nacionalismo por aqui. A torcida entrou firme na onda de protestos diante dos franceses e da Fifa, e abraçou o time em busca de uma boa sequência na Euro.

Irlanda esteve perto de disputar a Copa do Mundo 2010

Na noite daquela sexta, a Irlanda recebeu a Russia em Dublin. Mike vestiu uma belíssima camisa do selecionado da Copa de 2002, ajeitou as cervejas e os amendoins. Eu fui para o pub. Um dos tantos que estaria congelado por 90 importantes minutos para testar o otimismo da torcida e a força do time local.

Mas as mais de 50 mil pessoas e a pressão inicial não bastaram para segurar os russos, que abriram o placar ali pelos 10 e ampliaram antes dos 30 minutos. O silêncio no intervalo foi desanimador. Troquei de bar, um mais animado, talvez… não. O terceiro gol veio no começo do segundo tempo, para tirar o ímpeto até da memória de Oscar Wilde. Quando eu já tinha certeza que meu primeiro jogo não teria grito de gol, pênalti. Tinha de ser de pênalti. Nervoso, com expectativa e tempo para preparar a garganta. Gol. Gol, porra. Quase 30 do segundo tempo, dele, o ídolo, Robbie Keane. Abracei quem vi pela frente, bar enlouquecido, ‘Go, Ireland’, gol! Gol, outro gol, Long (não vou esquecer esses nomes tão cedo). O empate não saiu, mas ali estava, a Irlanda ganhava um novo torcedor.

A repercussão na mídia local foi de que a Irlanda não fez das suas piores partidas, mas não suportou os ataques certeiros do bom time russo. Jornais elogiaram muito o poder de reação da equipe, que fez, mesmo, um segundo tempo de superação. Porém, após perder a invencibilidade, quatro dias depois o selecionado pouco fez para salvar a semana: empate em 1 a 1 com a Eslováquia, jogo fraco numa terça-feira de garoa e menos, menos empolgação entre os copos que tanto escorrerm pelos pubs daqui.

Terryland e o improvável

De volta ao campeonato local, nova derrota do Galway, 4 a 1 em casa para o U.C.D. Seguida de mais uma, 3 a 1 contra o Sporting Fingal. Até que, restando duas rodadas para o fim da liga, o clube recebeu o Bohemians, líder da tabela. Recorde de público na temporada: mil e poucas pessoas.

Em caso de derrota do Shamrock Rovers, os Bohemians podiam até garantir o título no Terryland. Jogo da TV e tudo. Mary Cubbard preparada, noite de jantar na sala. Mike ansioso, porém racional. E o imponderável, daquelas coisas que acontecem de tantos em tantos anos, reservou mais um tempinho praquela noite de sexta: um, dois, três, 3 a 2, que vitória, heróica, suada. Davi contra Golias. Zebra das zebras.

O ‘poderoso’ Bohemians acabou perdendo o caneco ali, já que o rival pela taça venceu e foi para a última rodada em ampla vantagem. Bastou um empate para o título ficar com o Shamrock, no saldo de gols. Ao Galway, oitavo colocado, restava ainda o playoff contra o rebaixamento.

Em casa, uma semana depois, o time do Oeste bateu o Bray Wanderers e se manteve na primeirona: 1 a 0. Campeão, o Shamrock está classificado para a segunda fase eliminatória da Copa dos Campeões do ano que vem. Já tem minha torcida, Rovers!

Curtas da terra da cerveja Guiness

– Em 2003, a Irlanda deixou de seguir o calendário europeu e passou a fazer o campeonato correr durante o ano. Por isso, acaba em outubro/novembro.

– O Galway United surgiu Galway Rovers em 1937, e apareceu na primeira divisão em 1977/78. A temporada 1982/83 é a primeira com o novo nome. Em 1985/86, a melhor campanha, um vice-campeonato apenas dois pontos atrás do campeão Shamrock Rovers. Títulos? Duas Copas da Liga (1985/86 e 96/97), Copa da Irlanda 1991 (foto abaixo) e campeão da divisão de acesso (1992/93).

Formação do time campeão da Copa da Irlanda de 1991

– Ao todo, 18 clubes já venceram o Campeonato Irlandês. O Shamrock tem 16 títulos, seguido por Shelbourne (13), Bohemians (11), Dundalk (9), Cork Athletic (7), St. Patrick’s Athletic (7), Waterford (6) e Drumcondra (5), os principais vencedores.

– O livro Gods v Mortals: Irish Clubs in Europe a Front Row Seat at 10 of the Greatest Games contra a história das maiores participações irlandesas diante de gigantes como Milan e Real Madrid. Um dos textos é dedicado à derrota do Galway United para o Groningen, da Holanda, na primeira rodada da Copa da Uefa 1986/87.

Papa John’s: uma pizzaria ajuda o Galway
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