Gabiru: o presente de um pretérito perfeito

0 120

De cabeça baixa, Carlos Adriano de Souza Vieira atravessa lentamente o caminho de pedras sobre a grama que contorna o campo do eco-estádio Janguito Malucelli, em Curitiba. Já são 11 horas da manhã de um sábado do mês de dezembro, e Adriano está exausto depois de uma série de treinamentos físicos realizados na academia do Corinthians Paranaense. Para ele e todo o grupo da filial do time paulista, que um dia se chamou Malutrom e J. Malucelli, a temporada 2011 já havia começado.

Sem olhar para os lados e nem cumprimentar os colegas sentados em um banco de madeira ecologicamente correto, como quase tudo ali, Adriano só interrompe a caminhada até os vestiários quando a assessora de imprensa do clube, Ruthe Precoma, o intercepta para informar sobre o interesse de rádios em entrevistá-lo. Com as mãos na cintura, o meia não esboça qualquer reação e, por alguns minutos, ouve atentamente. A assessora argumenta que a exposição é boa tanto para ele quanto para o clube, mas já sabe que Adriano é um cara que não gosta muito de se expor.

Quando chegou ao Paraná em 1998, aos 20 anos de idade, Adriano já chamava a atenção por ser assim, quieto e instrospectivo. Logo que desembarcou, o jogador de baixa estatura e aparência frágil precisou de ajuda psicológica para se adaptar e superar a timidez, além de um programa de treinamentos para ganhar massa muscular e fortalecer os frágeis ossos, herança da vida sofrida em Alagoas. Foi lá, inclusive, que Adriano virou Gabiru, espécie de rato magro do sertão nordestino e metáfora exata do que era o atleta na época.

Mas debaixo daquela carcaça moldada pela desnutrição, quase regra na região onde Adriano nasceu, havia algo além de um futebol veloz e de disposição inabalável: havia estrela. O primeiro sinal de que o menino era, de certa forma, predestinado a grandes feitos foi o gol que garantiu o Campeonato Alagoano de 1997 ao CSA. Sua atuação naquela partida chamou a atenção de um olheiro do Atlético-PR, clube que o contratou em seguida e pelo qual conquistou outro Estadual logo no ano seguinte. No entanto, Adriano caiu mesmo nas graças da torcida rubro-negra depois de anotar um dos gols na final da Seletiva de 1999, que classificou a equipe para sua primeira Copa Libertadores da América. Gabiru tinha estrela. Só podia ser isso.

O bom futebol nas conquistas chamou a atenção de Vanderlei Luxemburgo, que o convocou para defender a seleção sub-23 no Pré-Olímpico de 2000, quando o Brasil sagrou-se campeão e foi tentar a inédita medalha olímpica em Sydney. Na mesma época, Adriano também teve sua primeira experiência internacional ao ser contratado pelo Olympique de Marselha a pedido do brasileiro Abel Braga, que já havia sido seu técnico em 1998 e comandava o time francês na época. No entanto, seis meses depois, a saída do treinador e a falta de adaptação com a língua fez Gabiru pedir para voltar ao Brasil, apesar da boa média de gols nos poucos jogos em que disputou por lá.

Hoje, o alagoano crê que a decisão de voltar foi fruto de sua imaturidade, mas garante não ter se arrependido. Tanto que, de volta ao Atlético-PR, foi um dos destaques na conquista do título nacional de 2001 e acabou sendo chamado por Carlos Alberto Parreira para defender a seleção principal na Copa das Confederações de 2003. Jogou apenas 11 minutos, mas realizou um sonho. Mais do que isso: aos 26 anos, Adriano Gabiru já tinha conquistado tudo o que qualquer jogador no mundo poderia querer, de títulos relevantes e algum dinheiro até experiência internacional e passagens pela seleção de seu país.

Mas a vida de jogador de futebol é feita de altos e baixos, e o que estava por vir para Adriano era uma fase ruim, repleta de lesões, atritos com a torcida e uma série de más atuações. Em 2004, foi emprestado pelo Atlético-PR ao Cruzeiro, onde demorou para se recuperar de uma lesão no pé, não conseguiu cavar espaço na equipe e ainda entrou em conflito com parte da torcida, que insistia em criticá-lo. Sem sucesso, voltou ao time paranaense em 2006, sendo negociado logo em seguida com o Internacional. O técnico do time gaúcho era Abel Braga, e isto significava muito para o resgate da carreira do meia.

Apesar de o ano ter sido excelente para o time de Porto Alegre, Adriano não passou de um coadjuvante no elenco. Não jogou o Campeonato Gaúcho, perdido para o Grêmio, e foi reserva de Tinga na conquista da Copa Libertadores. Por outro lado, atuou na maioria das partidas do Campeonato Brasileiro, ajudando na conquista do vice-campeonato e se garantindo no grupo que viajou ao Japão para o Mundial de Clubes. Lá, ficou no banco de reservas até os 30 minutos do segundo tempo da decisão com o Barcelona, quando entrou em campo no lugar de Fernandão para mudar a história do jogo e marcar o gol mais importante da história do clube em 97 anos.

Era a redenção do contestado Adriano, certo? Errado. A bola mágica chutada da entrada da área aos 38 minutos do segundo tempo da decisão do Mundial tinha tudo para mudar a vida de Gabiru, mas não mudou. Nos dias seguintes a conquista, o alagoano foi muito festejado, mas logo voltou ao papel de coadjuvante e, com o tempo, foi esquecido pela diretoria colorada, que não o via como peça chave do elenco, tal qual era Fernandão, por exemplo.

Assim, acabou saindo pela porta dos fundos em 2007, para defender Figueirense e Sport, ambos por empréstimo e sem muito destaque. No ano seguinte, foi definitivamente negociado com o Goiás, onde também não deixou saudades. Em 2009, aceitou defender o Guarani na Série B do Campeonato Brasileiro, mas teve a temporada prejudicada por lesões e até hoje não avalia bem sua passagem por Campinas. Pior do que isso somente a decisão de defender o modesto Mixto no começo deste ano. No Mato Grosso, chegou como o jogador que um dia foi o herói de um Mundial e, 40 dias depois, saiu desprestigiado, demitido por telefone. Dessa época não tão distante, Adriano não diz uma palavra. Repete apenas que não gosta de falar sobre o assunto, que “já é passado”.

De volta a Curitiba, onde tem residência fixa, o meia resolveu dar um basta na queda livre que havia se transformado sua carreira. Rompeu com o antigo empresário, que nada fez para evitar os sete meses de desemprego, e decidiu que só propostas muito vantajosas o tirariam de perto da família. Em outubro deste ano, negociou sozinho com o Corinthians Paranaense e fechou um contrato para a disputa do Estadual 2011 pela equipe do multiempresário Joel Malucelli. Embora não muito vantajoso financeiramente, recebe em dia e pode ficar perto da esposa e filhos.

2zeetlor2w9b8qow6ikf19jh4

Hoje, Adriano só quer jogar bola até que as pernas lhe peçam para parar. Confessa que o único desejo que gostaria de realizar antes de encerrar a carreira é vestir novamente a camisa rubro-negra do Atlético-PR ou a vermelha do Internacional. No entanto, Gabiru trata logo de podar seu sonho por saber que dificilmente as diretorias aceitariam um veterano como ele. Ele não está errado, principalmente se pegarmos por base a vez em que ele foi impedido de manter a forma no time paranaense enquanto procurava um novo clube ou quando deixou de ser convidado para a festa de um ano do título mundial dos gaúchos. Ficou magoado, claro, mas procura mostrar indiferença quanto a isso.

Indiferença, aliás, é a forma com que trata a própria história. Se mostra orgulhoso pelas conquistas, mas deixa claro que já não precisa ficar provando mais nada para ninguém. Quando questionado se ainda tem contato com aqueles que fizeram história com ele, a resposta é não. Não conversa mais com Abel Braga, seu treinador por três vezes. Não fala mais com Marcelinho Paraíba, com quem atuou na França. Não tem ligado para Perdigão, com quem jogou no Inter e no Mixto. “Não fiz amigos no futebol”, resume, um pouco ressentido por tudo que sofreu na carreira.

O mundo do futebol deixou marcas na personalidade de Adriano. A relação que teve com dois empresários que administraram sua carreira, por exemplo, o ensinou que é preciso cuidar da própria vida profissional, sem intermediários. O meia conta, por exemplo, que um deles recebia o salário integral pago pelo clube e o repassava em parcelas. Isso sem contar as comissões que era obrigado a pagar para que eles fizessem o meio de campo com os clubes, já que ele diz abertamente que “não é daqueles que fica ligando para treinadores para pedir emprego”. “Na hora de receber, eles estavam do lado da gente. Na hora de arrumar um novo clube, não”, conta Gabiru, que prefere não citar nomes a fim de não se comprometer.

Embora tenha o sonho de voltar a vestir as camisas que o consagraram, Adriano diz que ficaria muito feliz se pudesse parar de jogar no próprio Corinthians Paranaense. Por ele, “assinava por dois ou três anos e encerrava por aqui mesmo”, mas o clube preferiu contratá-lo apenas para o Estadual. Mesmo assim, Adriano não parece incomodado com a possível instabilidade da carreira. Quer apenas entrar em forma (“o importante é estar bem, jogar bola”), superar uma pequena lesão na panturrilha (“nada demais, só um desconforto”) e fazer o melhor Campeonato Paranaense possível (“torneio televisionado, bom de jogar”).

Se isto acontecer, espera arrumar “algum time de Série A ou B” para o segundo semestre, quando o Corinthians-PR entra em recesso. Perguntado se toparia vestir a camisa de Coritiba e Grêmio, rivais dos times em que é considerado ídolo, Gabiru faz uma pausa grande antes de responder, mas diz que sim. Sinal que não quer mais viver só de passado. Quer trocar o pretérito perfeito pelo futuro do presente.

Você pode gostar também
Comentários
Carregando...