Coreia do Sul vive entre culto a Beckham e desprezo a K-League

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Não é exagero dizer que o futebol sul-coreano é o que melhor tem representado a Ásia no cenário internacional. Em Copas do Mundo, conquistou o maior resultado do continente em 2002 com resultados expressivos como vitórias sobre Portugal e Itália;  nos Mundiais de Clubes,  equipes do país somam três participações nas seis edições do formato atual; em termos individuais, Park Ji-Sung atua com a bandeira de se tornar o maior jogador asiático na Europa, se destacando na Holanda e seguindo carreira na Inglaterra. A liga local, porém, ainda vive a difícil missão de cativar torcedores e mídia, apesar das confortáveis arenas deixadas pelo Mundial de 2002.

Na véspera da estreia do Seongnam no último Mundial disputado nos Emirados Árabes, resolvi conversar com alguns amigos coreanos para saber mais sobre o time. Especificamente perguntei sobre o Molina, meia colombiano que passou pelo Santos e era apontado como um dos destaques do time.

– Molina? Sul-Americano no Seongnam? Não sei, não conheço.

Teo e Key (estudantes coreanos na Europa adotam apelidos americanos para facilitar a pronúncia de seus nomes) são apaixonados por futebol. Eles e outros jovens sul-coreanos – que não são poucos – na Irlanda costumam inclusive se reunirem em pubs para assistir clássicos da Premier League ou partidas do Milan, Real Madrid ou Barcelona. Muito ligados na internet, acompanham de perto a rotina dos clubes europeus e têm um vasto conhecimento do futebol. Gostam mesmo.


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Nessas minhas conversas com cerca de uma dezena deles, foi unânime a falta de atenção pela liga local. Nenhum ímpeto ou torcida pelo Seongnam na semifinal diante da Internazionale, nenhum pedido por algum jogador do banco ou comentário sobre o time. Para eles, o clube coreano é fraco. O futebol coreano é chato. Ruim. A ponto de saírem de frente da televisão no gol de Zanetti, o segundo dos 3 a 0, ainda por volta de meia-hora de jogo.

– Não adianta, time coreano contra a Inter? Impossível, a chance de ganhar era zero.

Teo me conta que David Beckham é o jogador mais famoso por aquelas bandas, como já era de se esperar. Até por isso, diz que na época do colégio era difícil não torcer para o Manchester United – tudo fazia referência ao clube inglês, tudo era Beckham. Hoje, Teo torce para o Arsenal. Torce de verdade. Nada de segundo time, ou time europeu. Teo é Arsenal, como Key é Real Madrid. E não abrem.


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Eles não frequentam estádio na Coreia. Dizem que há muitas pessoas com o mesmo perfil: jovens na faixa dos 20 e poucos, universitários, que tem na pauta o futebol – e muitas vezes varam madrugadas, inclusive prejudicando o rígido ritmo de estudos asiático, para assistir os principais jogos europeus ao vivo – mas não acompanham partidas locais in loco.

K-League

A média de público da temporada regular da K-League 2010 foi de quase 11 mil pessoas por partida, sendo que dez estádios são legados da Copa do Mundo de nove anos atrás: grandes, novos e de fácil acesso. Assim, dez dos 15 clubes da primeira divisão (que agora serão 16) têm como casa alguma das “World Cup Arenas”, com capacidades entre 40 e 68 mil lugares e todas as exigências e padrões dvo caderno de encargos da Fifa.

Melhorar o público dos clubes pequenos está na pauta da Federação Coreana. “Sabemos que precisamos fazer algo diferente para aumentar o número de torcedores. Apenas os grandes clubes têm essa capacidade [o Seoul leva mais de 30 mil pessoas por jogo, por exemplo, contra menos de 4 mil de média do Gwangju Sangmu]. Seria ótimo os menores pensarem sobre como contribuirem, com a ajuda da K-League”, afirmou o presidente da Federação Cho Chung-yun em reportagem recente à revista World Soccer. Uma das iniciativas citadas pela matéria é a do próprio Seoul, que passou a vender ingressos por preços especiais para estrangeiros.


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A estrutura do futebol coreano é bastante recente. A chamada Korea Super League foi fundada em 1983 com apenas cinco clubes. Em 1998 surgiu a K-League, que terá em 2011 um total de 16 times, com a adesão do Gwangju, que acertou a filiação ao fim do ano passado. Num modelo de franquias, é comum a migração de cidades e a troca de donos ao longo da curta história.

Negócios em campo

A gestão feita por empresas deu início, inclusive, no maior clássico do país: Seoul x Suwon. O primeiro foi por muito tempo o clube da empresa de equipamentos eletrônicos LG, enquanto o segundo carrega até hoje o nome da Samsung. Além dessas, companhias como Hyundai ou a SK Energy também possuem suas equipes.

Para exemplificar a rotina de mudanças de cidade por parte dos times coreanos, vale contar a história do antigo Lucky-Goldstar (LG) Hwangso Football Club, fundado em 1983 em Chungcheong. Em 1990, porém, a federação solicitou que os clubes tentassem se mudar para a capital, alegando preocupação com a situação econômica dos clubes e indicando que eles deveriam estar no principal centro financeiro do país.


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O clube aceitou se mudar e mudou o nome para LG Cheetans em 91. Cinco anos depois, porém, a federação indicou para uma nova migração, dessa vez para que os clubes deixassem Seoul. Era uma política de descentralização provada pela escolha da Coreia como sede da Copa do Mundo de 2002 – o governo acreditava que o futebol precisava ser difundido pelas outras províncias.

Lá se foi o time da LG mudar de novo. Agora para Anyang, cidade próxima à capital, onde o clube passou a ser chamado Anyang LG Cheetans. Mas para deixar qualquer Grêmio Barueri/Prudente ou Guaratinguetá/Americana com inveja, as mudanças não pararam por aí. A federação coreana precisava de uma empresa para construir o Seoul World Cup Stadium. Havia o temor de que a nova arena ficasse às moscas após o Mundial caso não houvesse um clube para adotá-la. Sendo assim, a LG aceitou bancar a construção do estádio e o clube voltou para a capital com o nome de Seoul FC – apesar dos protestos de torcedores por todo o país pelo retorno pouco depois da “expulsão”.

Go, Reds!

Teo, Key e os demais coreanos enchem a boca para falar sobre a seleção. Key disse uma ótima frase, inclusive. “Eu acho que vai ser muito difícil um dia a gente ver vários jogadores coreanos se destacando na Europa, porque acho que eles não são tão bons tecnicamente. Mas eu tenho certeza que em termos de união e vontade de jogar pela seleção, a Coreia do Sul não perde para ninguém”.

Os coreanos são mesmo muito próximos do escrete nacional. Teo diz que, depois de 2002, qualquer jogo é assistido por toda a família, e o país gosta sempre de se manter informado sobre os jogadores selecionáveis: como estão jogando, se estão bem fisicamente e como será o time na próxima competição.


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Passada a história trajetória da primeira Copa do milênio (vitórias sobre Polônia, Portugal e empate diante dos EUA na primeira fase, seguida de classificação sobre a Espanha nos pênaltis, contra a Itália na prorrogação e derrota, suada, para a Alemanha na semifinal e Turquia na disputa do terceiro lugar), a Coreia ainda venceu Togo e empatou com a França (futura finalista) em 2006, e chegou novamente às oitavas-de-final em 2010, quando venceu a Grécia, empatou com a Nigéria e caiu para o Uruguai.

Se a década em Mundiais consolidou a Coreia como maior participante asiática, jogando um total de oito Copas do Mundo, nos confrontos locais o rival Japão abriu vantagem: com os títulos em 2000, 2004 e agora em 2011, os japoneses chegaram a quatro conquistas, deixando Arabia Saudita (três vezes campeã), Irã (também três títulos) e Coreia (dois títulos, em 1956/60) para trás.

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Park, o mais europeu

Não há dúvida quando se pergunta a um coreano qual é o maior ídolo do futebol no país. Ji-Sung Park alcançou a marca de 100 partidas pelo time nacional e se retirou internacionalmente após a Copa da Ásia encerrada agora, no final de janeiro. Entre os feitos pioneiros está o fato de ter se tornado, em maio de 2009, o primeiro asiático a jogar uma final de Liga dos Campeões, quando foi titular na derrota do Manchester United para o Barcelona.

Após a Copa de 2002, o então técnico da seleção coreana, Guus Hiddink, voltou ao seu país para dirigir o PSV. Logo, indicou a contratação de Park, então jogador do Kyoto Purple Sanga, modesto clube japonês. Já na Holanda, o meio-campista brilhou na campanha do clube até as semifinais da Liga dos Campeões 2004/05, entrando inclusive na seleção da competição. De lá, seguiu para o Manchester por 4 milhões de libras, onde já tem novo contrato válido até 2012.

Tamanho é o orgulho dos coreanos ao assistirem Park em ação, que torcer pelo ídolo e herói nacional às vezes se torna até maior que o apoio ao clube do coração. Meu amigo Teo, vestido com o manto dos Gunners, que o diga. Dia desses, num Manchester x Arsenal, derrota do time londrino pelo placar mínimo. Gol dele.

– Ji-Sung Park! Gol dele pode, eu comemoro também. É gol da Coreia.

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