Frente a frente com Diego Galvão, o brasileiro que joga em Vanuatu

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Distintivo do Amicale

Acompanhar de perto uma rodada da Liga dos Campeões da Oceania seria, de qualquer forma, uma das mais incríveis experiências futebolísticas da minha vida. Sabia que a longa jornada até o QBE Stadium, em Auckland, se recompensaria de diversas formas, mas admito que tinha em mente um objetivo maior, sem o qual terminaria o dia frustado: precisava encontrar um jeito de conversar com Diego Galvão (também conhecido como Diego Máximo em alguns momentos da carreira), zagueiro do Amicale de Vanuatu.

O futebol é o produto de exportação mais disseminado do Brasil e jamais será surpreendente descobrir um conterrâneo jogando longe de casa. No Sudão do Sul, na segunda divisão da Malásia, no campeonato da ilha caribenha de Santa Lúcia… deve ter algum brasileiro batalhando nesses lugares – ou, se não houver, um dia haverá.

Não importa. Mesmo sabendo que estão lá, quantas vezes na vida temos a chance de estar frente a frente com um deles? De perguntar: “cara, o que te levou a se aventurar desse jeito? Como é a vida nesse lugar? E o nível dos jogos? Você é meu ídolo!”

Um brasileiro em Vanuatu
Tive a oportunidade de falar com um jogador profissional brasileiro que atua em Vanuatu, um dos 20 menores países do mundo em área total e cuja população é menor que a da cidade de Itapevi. Não poderia desperdiçá-la. Por isso, desde o início da rodada dupla, quando Auckland City e Solomon Warriors se enfrentavam, já procurava por alguém capaz de me levar ao encontro de Diego Galvão.

Uma das raras imagens na internet da rotina de Diego Galvão em Vanuatu
Uma das raras imagens na internet da rotina de Diego Galvão em Vanuatu

O problema é que eu mal sabia como ele era (a busca “Diego Galvão + Amicale” no Google dá em pouquíssimas fotos) e mesmo os organizadores do torneio não conseguiam me garantir nada. Era um evento oficial da Fifa, valendo vaga no Mundial de Clubes, mas não havia qualquer sinal de sala de imprensa, credenciamento, zona mista, assessor ou outra dessas burocracias jornalísticas.

A minha chance seria abordá-lo de alguma forma, preferencialmente antes do jogo começar. O momento do bote surgiu por volta dos 30 minutos do primeiro tempo de Auckland City x Solomon Warriors. Ao olhar para trás, avistei jogadores do Amicale se dirigindo a uma porta nos fundos do estádio (sim, não existia nenhuma barreira entre a arquibancada e o estacionamento).

Em qualquer outra “Liga dos Campeões”, certamente seguranças me impediriam de seguir a delegação de um time até o vestiário. Mas eu estava na Oceania… Ainda bem!

Um andarilho da bola
Entrei no túnel como quem não quer nada e, quase na porta, pedi ajuda a um grupo de jogadores: “podem chamar o Diego Galvão? Meu nome também é Diego e sou brasileiro”. Apenas abriram um sorriso ao ouvir a palavra “brasileiro” e nada questionaram.

Menos de um minuto depois, ouvi português pela primeira vez no dia: “você é o Diego? Quer falar comigo?”. Meu xará logo de cara surpreendeu pela altura. Tinha pinta de zagueiro, mas podia perfeitamente ser jogador de basquete. Talvez por isso trajasse uma jaqueta do Amicale e boné do Golden State Warriors.

Certamente eu não fui o primeiro a entrevistá-lo. Diego Galvão já disputou a primeira divisão do Campeonato Paulista, embora apenas um jogo. Logo em sua estreia pelos profissionais do Guaratinguetá, enfrentando o Grêmio Barueri, ele chamou a atenção e foi levado ao Pogón Szczecin, da terceira divisão polonesa. Em alguns meses se mudou para o futebol iraniano, onde defendeu três times durante seis anos, período suficiente para aprender a língua persa.

Ainda peregrinou por México, Turquia e Malta, alternando períodos no Brasil, em clubes como a Catanduvense. Em janeiro de 2016, treinava normalmente com o elenco do Estanciano, pronto para disputar a Copa do Brasil, Copa do Nordeste e Campeonato Sergipano. Foi quando recebeu um convite para jogar em Vanuatu, país que nunca havia ouvido falar, para um contrato de quatro meses com foco na Liga dos Campeões da Oceania.

Você aceitaria?

Ilha do arquipélago de Vanuatu, habitado por pouco mais de 200 mil pessoas
Uma das 82 pequenas ilhas que compõem Vanuatu, habitado por pouco mais de 200 mil pessoas

Ponte para o Mundial de Clubes
A trajetória  mostra que Diego Galvão jamais temeu desafios. O projeto do Amicale o convenceu de que há possibilidades reais de classificação para o Mundial de Clubes. E não há razões para duvidar…

O clube vanuatense disputou duas vezes a final do principal torneio interclubes do continente, chegando perto de conquistá-lo em 2014, quando foi derrotado pelo Auckland City com um gol nos minutos finais (nota: alguns meses depois, o time neozelandês teve chances de eliminar o San Lorenzo, campeão da Libertadores, e enfrentar o Real Madrid em Marrakech).

Por que não imaginar que outro Galvão, o Bueno, pode em dezembro gritar um “quem é que soooobe?” durante disputa entre o zagueiro e algum astro internacional? Nunca se deve duvidar de um time da Oceania, amigo.

Hexa campeão vanuatense, o Amicale há muito tempo é soberano em seu país, para desespero do rival Talea, ainda o maior campeão nacional. Seu grande trunfo consiste em recrutar jogadores de países tradicionais do futebol: no elenco atual, são seis italianos – incluindo o treinador, Mauro Bertoni, ex-jogador do Cremonese e autor do livro “A Arte da Defesa” -, além de um escocês, um inglês, um argentino e um brasileiro.

“Há muitos estrangeiros no nosso time e nós somos profissionais. Os vanuatenses ainda são amadores, mas estão cada vez se dedicando mais. Se por um lado falta experiência, por outro sobra vontade e estão melhorando a técnica. Se continuarem trazendo reforços de fora vão crescer muito”, analisa Galvão, que, durante a preparação para a Liga dos Campeões, teve a oportunidade de disputar algumas partidas em Port Vila, capital de Vanuatu.

A bandeira de Vanuatu
A bandeira de Vanuatu

Postura de profissional
Em nenhum momento da conversa o jogador se sentiu desprestigiado por atuar em uma nação minúscula da Oceania. Pelo contrário, falou como qualquer colega de profissão: “o meu contrato é curto, mas não estou pensando no que vem depois, quero dar alegria para o torcedor. Não sei se seremos campeões, quem sou eu para prever o futuro? Apenas posso dizer que nosso time é bastante qualificado e estamos trabalhando no dia a dia para chegar ao objetivo”.

Poderia ser Neymar dando uma entrevista à Globo após um jogo da Seleção Brasileira, mas era Diego Galvão falando ao Última Divisão antes de uma partida do Amicale. Para ele, o tamanho do país é um mero detalhe.

“É um lugar pequeno e ainda há marcas do ciclone [que matou 11 pessoas no início de 2015], mas só tenho coisas boas a dizer. Me recepcionaram muito bem e são sempre alegres, me sinto em casa”, conta.

Aos 30 anos, Galvão não fala em aposentadoria e, se o futebol recentemente abençoou Jamie Vardy, Wendell Lira e tantos outros vindos de baixo, confio que coisas muito boas ainda estejam reservadas para ele.

Humilde e determinado, o atleta pediu licença para se retirar após cinco minutos de conversa. Precisava se concentrar, seu time estrearia no torneio continental em cerca de uma hora. Em campo, ele foi titular na vitória por 3 a 0 do Amicale contra o Lae City Dwellers, da Papua-Nova Guiné.

Tudo bem, me dei por satisfeito. Não consegui matar toda a minha curiosidade sobre o futebol de Vanuatu, mas saí de lá com a certeza de que o Brasil está bem representado por lá.

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