Francisco Carregal, o pioneiro negro do futebol brasileiro

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Se o futebol brasileiro é uma manifestação cultural democrática, que abriga brancos e negros correndo atrás da mesma bola, deve muito disso a Francisco Carregal.

Mas quem foi Francisco Carregal? Bem, antes de responder a esta pergunta, precisamos voltar no tempo. Mais exatamente a 6 de fevereiro de 1889.

Foi nesta data que o comendador Manuel Antônio da Costa Pereira fundou, no bairro carioca de Bangu, a Companhia Progresso Industrial do Brasil. A empresa, localizada na Rua Fonseca, logo se tornou a Fábrica de Tecidos Bangu, ajudando a levar à região o progresso em forma de vias ferroviárias.

Na época, o Rio de Janeiro contava com um considerável número de imigrantes britânicos – entre eles, diversos funcionários da fábrica em Bangu. Um deles, Thomas Donohoe, apresentou o foot-ball aos moradores do bairro no final do século XIX; rapidamente, a modalidade se tornou popular na zona oeste do Rio de Janeiro.

Em 1903, o inglês Andrew Procter sugeriu a criação de um clube no bairro. No ano seguinte, surgiu o Bangu Athletic Club, dedicado ao entretenimento dos imigrantes britânicos na região. Entretanto, segundo registro do livro O negro no futebol brasileiro, de Mário Filho, a exclusividade durou pouco.

Os ingleses, para formar dois times, tinham de arranjar gente para tapar buracos. Tanto que, quando o The Bangu estreou em futebol, disputando um match de verdade, com o Rio Cricket, em Icaraí, dois brasileiros figuravam no eleven, nome usado pelos cronistas mais eruditos (…). Um, Luís Gaspar, center-half, de lá mesmo, tecelão da fábrica. O outro, Augusto Alvarenga, meia-esquerda, importado da cidade, um empregado do comércio, nada tendo a ver com a fábrica.

O jogo contra o Rio Cricket aconteceu em 24 de julho de 1904 e terminou com derrota acachapante do Bangu: 5 a 0. Mesmo assim, serviu para consolidar o time – e sua consequente miscigenação – no bairro operário.

Francisco-Carregal1Em 1905, o Bangu formou um time com operários de diversas nacionalidades. Eram cinco ingleses (Frederick Jacques, John Stark, Willlian Hellowell, William Procter e James Hartley), três italianos (César Bocchialini, Dante Delloco e Segundo Maffeo), dois portugueses (Francisco de Barros, conhecido como ‘Chico Porteiro’, e Justino Fortes) e um brasileiro. Este brasileiro era Francisco Carregal (foto), filho de um português branco e de uma brasileira negra.

Era a primeira vez que um brasileiro de sangue negro jogava futebol no país. Até então, os negros – oficialmente livre da escravidão no Brasil desde 1889 – eram apenas espectadores no futebol, esporte restrito aos brancos.

A estreia de Carregal no futebol veio em um jogo contra o Fluminense, clube da aristocracia carioca, no dia 14 de maio. Jogando no jardim de sua fábrica, o Bangu venceu por 5 a 3. Atuando no meio de campo, o brasileiro mulato se esmerou para entrar em campo da maneira mais elegante possível, de forma a parecer menos negro.

Ainda segundo o livro de Mário Filho:

Francisco Carregal, um simples tecelão, comprou tudo de novo: as botinas travadas, as meias de lã, os calções. A camisa, quem dava era o clube (…) No meio de ingleses, de portugueses, de italianos, queria parecer menos, quase branco. Passava perfeitamente. Pelo menos não escandalizava ninguém.

Os registros da carreira de Francisco Carregal no futebol são escassos, mas seu pioneirismo abriu portas no futebol brasileiro. Em 1909, a então Liga Metropolitana de Futebol determinou que o clube não registrasse “pessoas de cor” como atletas. O Bangu optou por se afastar da entidade e manter jogadores “de cor”; ao retornar aos gramados, em 1911, conquistou a segunda divisão carioca com quatro atletas mulatos ou negros no elenco.

O pioneirismo do Bangu acabou reconhecido décadas depois. Em 2001, em projeto de lei do deputado Noel de Carvalho Neto (PSB), a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro premiou o clube por “superar os preconceitos discriminatórios”. Pelo fato, o clube recebeu a Medalha Tiradentes, destinada a premiar pessoas que prestaram relevantes serviços à causa pública do Estado do Rio de Janeiro.

“Nós já sabíamos do nosso pioneirismo em aceitar negros no clube e no time de futebol. Mas tudo isso precisou de um rigoroso trabalho de pesquisas para que chegássemos às provas”, declarou o então presidente do clube, Rubens Lopes.

Já a Fábrica de Tecidos Bangu funcionou no mesmo local onde foi fundada até 2005, quando encerrou suas atividades na Rua Fonseca e se mudou para Petrópolis. No local onde foi fundada, deu lugar a um moderno shopping center.

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