“Onde já se viu um time de quase 100 anos trocar de nome?”, diz CQC sobre Lusa

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Felipe Andreoli tem motivos para gostar de esporte. Seu pai, Luiz, foi repórter esportivo com passagens por Record, Band e Globo nos anos 80 e 90, época em que ele o acompanhava nos estúdios, já imaginando em seguir seus passos. O tempo passou e não deu outra: Felipe enveredou pelo Jornalismo, pela televisão e pelo esporte. Começou fazendo entrevistas bem humoradas sobre comportamento em um programa para jovens evangélicos (!), se aproximou do sonho de cobrir esporte na Rede Gospel (!!) e trabalhou em diversas funções na TV Cultura (apresentador de telejornal, inclusive!) antes de chegar à Band em 2007, para integrar, como videorreporter, a equipe esportiva do canal. A experiência, apesar de intensa, durou pouco, já que, no ano seguinte, acabou sendo convidado para fazer parte do semanal CQC, onde está até hoje.

Foi seu conhecimento sobre esporte, aliás, que acabou transformando-o no repórter esportivo do programa ancorado por Marcelo Tas e lhe deu a chance de viajar o mundo. E mesmo em constante translado, Felipe não deixa de acompanhar uma das suas maiores paixões, a Portuguesa de Desportos. Tanto que, como todo bom torcedor, está satisfeito com a campanha da Barcelusa nesta Série B e é contra a mudança de nome da equipe, há tempos ventilada nos bastidores do Canindé. Além disso, elege o “assalto” do árbitro argentino Javier Castrilli em 1998, na semifinal do Campeonato Paulista contra o Corinthians, como o momento mais marcante de sua história como torcedor lusitano.

Mas não é só isso que o faz um amante do futebol, especialmente o alternativo. Felipe garante que, quando consegue, acompanha os jogos de divisões inferiores (“Se tiver rolando o clássico dos XV, eu estou assistindo”). Gosta tanto do assunto que foi convidado a escrever um livro sobre as maiores goleadas do futebol mundial: “O Pior Futebol de Todos os Tempos” (Panda Books), onde lembra casos famosos como ASA, Mazembe e Tolima, mas também passeia por histórias desconhecidas como o Tiradentes-PI (protagonista da maior goleada da história dos Brasileiros: 10 a 1 para o Corinthians de Sócrates), o Guará-DF (dono da pior campanha da história dos Brasileiros: seis empates e duas derrotas em 1979) e o Monte Cristo-GO (55 jogos seguidos sem vencer!).

Repita rapidamente “Dércio Ota”. Reparou como se parece com “derrota”?

Nesta entrevista exclusiva concedida ao Última Divisão, Felipe Andreoli deixa de lado o paletó e a gravata para bater um papo descontraído sobre a experiência de escrever um livro sobre futebol, sobre as dores e delícias de ser torcedor da Portuguesa de Desportos e até sobre a CBF e sua relação (ou falta de) com os times pequenos. “Todos nós sabemos o quanto a CBF fatura, principalmente em cima de algo que é um patrimônio nacional, a Seleção Brasileira. E, infelizmente, não vemos para onde vai esse dinheiro”, contesta o repórter, que já chegou a oferecer uma camisa do Capivariano ao ator de Mr. Bean, Rowan Atkinson, durante uma entrevista em 2007 (veja vídeo no final). Quer mais espírito de futebol alternativo do que isso?

Última Divisão: Como surgiu o convite para escrever a história de Dércio Ota, personagem de “O Pior Futebol do Mundo”? Como foi o processo de criação dos personagens, do enredo? Foi o seu primeiro livro, certo?

Felipe Andreoli: Certo. Na verdade, o Dércio foi a última coisa que surgiu no livro. Eu tinha uma vasta pesquisa sobre os piores resultados da historia do futebol, e dali reescrevi aquela pesquisa de uma maneira mais divertida. Quando finalizei esse processo, precisava de um fio condutor, daí criei um personagem que era um verdadeiro derrotado, o Dércio. Acho que, como primeira experiência como escritor, foi bem legal.

UD: Alguns dados te surpreenderam enquanto escrevia, já que as estatísticas não foram coletadas por você? Qual te chamou mais a atenção?

FA: Acho que foi a maior goleada de todas, que aconteceu no campeonato de futebol de Madagascar! Uma goleada por 153 a 0!!! O que aconteceu é que o time ficou indignado com o juiz e começou a chutar a bola contra o próprio gol. Senão seria impossível um placar como esse… Até liguei na editora pra saber se era realmente verdade essa historia… (risos).

UD: O que acha da literatura esportiva no Brasil? Tem vontade de escrever outros livros neste segmento? Se já tiver algum em mente, antecipa pra gente!

FA: Claro! Foi muito excitante e um desafio escrever o livro. Uma das coisas mais legais que já fiz. Tenho vontade de escrever mais livros sobre esporte e também sobre outros assuntos. Sinceramente, ainda não sei o tema do próximo, mas com certeza vão rolar outro(s)!!

UD: Gay Talese costuma dizer que a história dos derrotados quase sempre é mais interessante e marcante do que a dos vencedores. Você concorda com isso?

FA: Totalmente! É claro que vitórias também dão boas histórias, mas, por incrível que pareça (e percebi isso escrevendo o livro), existe muita glória, superação e momentos muito mais marcantes (em derrotas) do que em muitas vitórias por aí. É que escrevo o livro sobre um prisma mais divertido, mas daria um livro bem dramático e emocionante também.

UD: Agora, voltando um pouco… De quando vem esse seu interesse por futebol e, principalmente, pelo futebol alternativo? Costuma acompanhar divisões inferiores?

FA: Desde sempre. Sou um fanático por esporte e em especial pelo futebol. Se tiver rolando o clássico dos XV, XV de Jaú x XV de Piracicaba, eu estou assistindo, pode acreditar. Na minha TV, todos os canais favoritos são de esporte.

UD: E a Lusa, quando entra na sua vida? Qual o jogo mais marcante para você? Você acha que o fato de ser torcedor da Lusa ajudou a ser lembrado para escrever o livro?

FA: Cara, como torcedor da Lusa estou acostumado a sofrer, né? E o jogo mais marcante, não poderia ser diferente, é uma derrota. Foi em 98, semifinal do Paulistão, eu estava lá, a Lusa ganhava do Corinthians por 2 a 1 e no último minuto, um juiz argentino – tinha que ser! – Javier Castrili, deu um pênalti absurdo contra a gente e o empate classificou o Corinthians. Lembro até que quem bateu o pênalti foi o Rincón e a Lusa, que tinha um timaço, ficou fora da final…

UD: Como torcedor, o que acha da ideia de trocarem o nome da equipe?

FA: A gente já chama de Lusa por carinho e como um apelido, mas o nome do clube é Portuguesa e não tem que mudar não. Onde já se viu um clube com quase 100 anos de história mudar de nome agora… Não dá, né?

UD: E esse negócio de Barcelusa? Você acha que prejudica?

FA: Que nada! Poxa, agora que estamos fazendo uma campanha fantástica, temos mais é que celebrar, nos achar um pouquinho, né? (risos)

UD: Você considera o livro mais entretenimento (para o público infanto-juvenil, no caso) ou acha que pode ser fonte de consulta sobre os derrotados do futebol mundial?

FA: Acho mais entretenimento, claro. É divertido e fácil de ler… Mas sem dúvida tem uma pesquisa valiosa, preciosa e, por que não, deliciosa sobre as grandes derrotas do futebol. Para os pesquisadores e curiosos também é um prato cheio!

UD: Para fechar… Qual sua opinião sobre a CBF e, especificamente, sobre o tratamento dado por ela aos times menores, de divisões inferiores, que tem que viajar longas distâncias sem qualquer ajuda de custo, jogar em campos sem condições para a prática do esporte e enfrentar todo o tipo de adversidade para, literalmente, sobreviver?

FA: Lamentável. Todos nós sabemos o quanto a CBF fatura, principalmente em cima de algo que é um patrimônio nacional, a Seleção Brasileira. E, infelizmente, não vemos para onde vai esse dinheiro. Não vai para melhoria de estádios, como podemos ver, e não vai para essas divisões que tanto necessitam de ajuda. Talvez só quando mudarmos o comando da CBF possamos ter algo melhor para os pequenos clubes. Infelizmente acho que ainda vai demorar…

Nem tão verdade assim, mas…

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