Felipão de saias

0 55

Mesmo sendo um esporte machista, o futebol tem lá seu espaço para as mulheres – pequeno, é verdade, mas merecidamente crescente. Além do surgimento de craques como Mia Hamm, Marta, Birgit Prinz e Ragnhild Gulbrandsen pelos gramados, ainda tem se tornado comum a presença de mulheres apitando partidas, comentando jogos e treinando times, acrescentando competência e beleza ao esporte bretão.

Mas sempre que uma mulher ameaça entrar no futebol masculino, é recebida com olhares de desconfiança. Foi assim quando Marta chegou a ser especulada no time do Perugia, ou quando a auxiliar Ana Paula de Oliveira cometeu erros cruciais na partida entre Botafogo e Figueirense pela Copa do Brasil de 2007 – e não foi o que aconteceu, por exemplo, quando José Duarte assumiu a seleção brasileira feminina. Afinal, mulheres podem demonstrar um talento acima da média para o futebol feminino, mas não para o Clube do Bolinha.

O que aconteceria, então, se uma treinadora fosse contratada para assumir uma equipe masculina? A sueca Pia Sundhage, por exemplo, faz um trabalho indiscutivelmente bom à frente da seleção feminina dos EUA, mas não poderia mostrar a mesma eficiência no comando de onze homens, certo? Errado. Quem pode provar isso é a carioca Cláudia Malheiros, uma das poucas treinadoras de times masculinos profissionais no Brasil.

Cláudia nasceu em 1966, mas só surgiu para o futebol em 1999, quando era auxiliar do técnico Ulisses Torres no comando do Vasco-AC na Série C do Campeonato Brasileiro. O treinador acabou sendo suspenso da equipe naquele ano, e sua auxiliar – engenheira agrônoma de formação – precisou então assumir o time no jogo contra o Rio Negro-AM. Cláudia não decepcionou, e o Vasco venceu por 2 a 1. Curiosamente, foi a única vitória vascaína no Grupo A da competição, do qual a equipe foi lanterna. Em compensação, ficou a fama de pé-quente da treinadora, que conseguiu dois empates nas duas partidas seguintes, contra São Raimundo-AM (1 a 1) e Ji-Paraná-RO (2 a 2).

O desempenho de Cláudia impressionou a ponto de render a ela uma oferta para treinar um novo clube no ano seguinte. Por meio de um convite de seu presidente, Marquinhos Gomes, o Andirá convocou a técnica para assumir o comando do time no Campeonato Acreano de 2000. O Alvinegro, acostumado a ser um dos sacos de pancadas do Estadual, terminou o primeiro turno na lanterna, mas conseguiu reagir no segundo, graças ao apoio de patrocinadores e de sua treinadora. Tanto que terminou o returno na segunda colocação, perdendo apenas para o Rio Branco – que faturou o título invicto.

Dadas as dificuldades com pagamentos de salários (R$ 600 em média) e com a estrutura do clube, que levava os atletas para os treinos em caminhões, Cláudia deixou o cargo de lado por algum tempo – ao todo, foram seis anos longe do futebol profissional, dedicando-se à família. Por coincidência, o clube também se licenciou dos gramados em 2005, alegando problemas financeiros. Mas a história mudou em 2006, quando o Andirá retornou aos gramados.

Em sua volta, o time mudou suas cores e tratou de convocar a treinadora para tentar repetir o quarto lugar geral do Estadual de 2000. Na reestréia, em um jogo-treino contra o Juventus local, os comandados de Cláudia (agora com uniforme verde e preto, em homenagem à Amazônia e à borracha do Acre) foram derrotados por 2 a 1, com gols de Tonho e Rogério para os juventinos – Artemar, pelos andiraenses, descontou.

Mesmo assim, a treinadora (apelidada de ‘Felipão de Saias’ por seu jeito mãezona) não perdeu o crédito com a nova diretoria do clube – Gilberto Braga assumiu a presidência, enquanto Marquinhos Gomes se tornou seu vice. Resultado: o time chegou às semifinais do primeiro turno da competição, e só não avançou à decisão porque perdeu a semifinal (em jogo único) para a Adesg com por 3 a 2 gol um gol nos acréscimos. O time de Senador Guiomard venceu os dois turnos e faturou o caneco inédito , deixando o Andirá na quarta colocação. Missão cumprida.

Mas o grande salto de qualidade do Andirá ainda estava por vir, e só aconteceu em 2007. Foi quando o clube, fundado em 1964 e diversas vezes afastado do profissionalismo por falta de dinheiro, conseguiu seu inédito vice-campeonato acreano. O título, mais uma vez, ficou com o imbatível Rio Branco. Em seus 12 jogos, o Morcegão – que manteve a mesma base do elenco de 2006 – conquistou seis vitórias e quatro empates, sofrendo apenas duas derrotas.

O ano de 2008, que poderia representar uma projeção ainda maior no trabalho de Cláudia, acabou ficando marcado por problemas. Mesmo com pendências financeiras, o Andirá tentou sua inscrição no Campeonato Acreano. A tentativa foi vetada pela federação local, sob alegação de falta de representatividade legal e problemas na conjuntura política no clube, que precisou ficar afastado das competições. Cláudia acabou demitida, e mais uma vez ficou sem clube para comprovar sua já comprovada competência.


Esta não foi, porém, a única experiência de uma mulher no comando de um time profissional. Em 2003, Maria Zilda Dalmolin de Souza assumiu o cargo de treinadora da Camboriuense, de Camboriú (SC), para disputar a segunda divisão do Campeonato Catarinense. Porém, o time ficou na lanterna do Grupo A na primeira fase, com um empate e quatro derrotas em cinco jogos disputados. Na segunda, o time perdeu os cinco jogos que disputou, sem sequer marcar gols.

Você pode gostar também
Comentários
Carregando...