Existe uma ‘maldição de Willian José’?

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Imagine que você é jogador de futebol. O presidente de um grande clube te oferece um contrato, mas com uma condição: a cada vez que você fizer um gol, uma personalidade tem que morrer. De qualquer área, de qualquer país. Você aceitaria?

Esse tipo de situação, é claro, não aconteceu e nem aconteceria. Mas ainda hoje existe gente que insiste em vincular os gols de um jogador à morte de pessoas famosas. Pergunte a Aaron Ramsey, atacante do Arsenal.

Ramsey é o protagonista de uma ‘maldição’ bizarra: a cada gol que marca, ocasiona a morte de alguém famoso. Foi assim como Osama Bin Laden, Steve Jobs, Muammar Gaddafi, Whitney Houston, Paul Walker, Robin Williams e David Bowie, entre outros nomes menos famosos ao público brasileiro. Sem dúvidas, uma lista de respeito.

O científico jornal Daily Mail (Crédito: Reprodução)
O científico jornal Daily Mail (Crédito: Reprodução)

Você certamente já leu notícias sobre isso. A dúvida é: por que você leu isso?

A pergunta, porém, engloba outras perguntas.

Por que alguém associa a morte de alguém a um gol sem qualquer comprovação de relação causa-efeito?

Quem é realmente famoso para entrar na lista?

‘Ah, é uma brincadeira’, dirá um. ‘Vocês levam tudo muito a sério’, dirá outro. Um terceiro virá com o imbatível ‘futebol está ficando chato demais’.

Pelo contrário. Futebol não está (e nunca foi) chato. Mas precisa ser sério.

Não existe jogo que não tenha consigo uma história que mereça ser contada. Seja do camisa 10 que fez um gol de bicicleta, seja o pipoqueiro que está no estádio há 40 anos, seja do menino que vai a um jogo pela primeira vez. Sem associações macabras e fantasias.

Outra coisa: você já imaginou o peso que carrega um jogador ‘responsável’ por várias mortes?

Felizmente, Aaron Ramsey tem a cabeça boa o suficiente para lidar com isso. Em agosto de 2015, o jogador falou à revista inglesa Sport e deixou claro o que acha disso: uma estupidez.

O rumor mais ridículo que já ouvi é que as pessoas morrem depois que eu marco. Houve várias ocasiões em que eu marquei e alguém morreu. É apenas um rumor maluco

Não precisar ser nenhum gênio para ver que o noticiário a respeito da ‘maldição de Ramsey’ é desnecessário. Primeiro porque, evidentemente, não há qualquer relação real entre os gols do jogador e as mortes das pessoas. Em segundo lugar, porque morre gente famosa ao redor do mundo todo santo dia. Sem exagero.

Quando Ramsey marca um gol, morre alguém famoso. Quando não marca, também morre. Quando Neymar faz um gol, morre alguém famoso. Quando você faz um gol, morre alguém famoso. Quando a Dona Cotinha cozinha peixe em seu sítio no interior de Minas Gerais, morre alguém famoso. Quando não cozinha, também morre.

A maldição, na verdade, é ampla: todo dia em que alguém faz alguma coisa no mundo, qualquer coisa, alguém notável morre.

Mas onde é que Willian José entra nisso?

E foi por isso que nós resolvemos comprovar nossa tese. Na verdade, toda vez que um jogador aleatório faz um gol, morre alguém famoso.

Nós escolhemos Willian José, atacante do Las Palmas, com passagens por Grêmio Prudente, São Paulo, Grêmio e Santos. E temos estatísticas que provam: em todos os gols do brasileiro no atual Campeonato Espanhol, morreu alguma personalidade, mais ou menos conhecida.

Vejamos.

Willian José marcou seis gols na temporada 2015/2016. O primeiro deles veio no empate do Las Palmas contra a Real Sociedad por 1 a 1, fora de casa. O jogo aconteceu em 16 de dezembro e foi válido pela Copa do Rei. No dia seguinte, morreu o ex-treinador francês Serge Devèze, com passagens pelas seleções de Guiné e Gabão na década de 90.

Willian José voltou a balançar as redes no dia 25 de janeiro, pelo Campeonato Espanhol. Na ocasião, o Las Palmas visitou o Levante e perdeu por 3 a 2, mas o brasileiro marcou duas vezes.

Resultado? No dia seguinte, morreram o ciclista brasileiro Cláudio Clarindo e a soprano francesa Denise Duval. Dois gols, duas mortes.

Seis dias depois, em 31 de janeiro, o camisa 8 voltou a balançar as redes. Desta vez, marcou um gol na vitória por 2 a 1 em casa sobre o Celta de Vigo, também pelo Campeonato Espanhol.

No dia 1º de fevereiro, morreu Jon Bunch, cantor e compositor norte-americano com passagem por bandas como Sense Field e Further Seems Forever.

E eis que, no dia 20 de fevereiro, Willian José marcou para o Las Palmais no jogo em casa contra o Barcelona pelo Campeonato Espanhol. O Barça venceu por 2 a 1.

Fora de campo, dito e feito: no dia 21, morreu o poeta russo Miroslav Nemirov, de 54 anos.

Será então que existe uma maldição de Willian José? A resposta: não, não existe uma maldição de Willian José. Existe a morte de alguém, apenas isso. E associá-la a um gol é uma absoluta falta de respeito – à família de quem morre e ao autor do gol.

E o que concluímos de tudo isso?

É claro que a discussão a respeito da ‘maldição de Ramsey’ não é nova. Você já cansou de ler sobre ela no noticiário – seja a respeito de gols que ‘mataram’ personalidades, seja a respeito de gente que critica a relação do gol do sujeito com a morte de alguém.

A ideia aqui é apenas debater e apresentar um ponto de vista. Afinal, você que acompanha o noticiário esportivo, merece ter um noticiário de qualidade. Mas o noticiário sem qualidade está também a seu alcance – e tanto Aaron Ramsey quanto Willian José nos mostram que é possível adequar as informações disponíveis para desinformar você.

Fique atento! A informação de qualidade depende também de você!

Uma observação fundamental: Willian José foi escolhido aleatoriamente para exemplificar nossa tese. Caso este texto chegue a ele, o Última Divisão espera que ele compreenda a brincadeira. Aqui, sem maldição, a gente torce pelo sucesso do jogador.

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