Ex-Tanabi, Diego Oliveira deixou sua marca no futebol de Antígua e Barbuda

Reprodução/Facebook
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A série de “Jogadores brasileiros no Caribe” começa em Antígua e Barbuda, pequeno país com pouco mais de 96 mil habitantes. No mundo do futebol, está filiada à FIFA desde 1970 e à CONCACAF desde 1980. Atualmente, ocupa o 151° lugar no ranking da FIFA e o 12° na CONCACAF. Por lá, o futebol é semi profissional e conta com um grande número de jogadores das ilhas da região, como Santa Lúcia, São Vicente e Granadinas, Granada, Cuba, Jamaica e Dominica.

E nas temporadas 2014/2015 e 2015/2016 um brasileiro fez jus a fama do Brasil ser o país do futebol. O meia atacante Diego Oliveira Silva, natural de Guarulhos, São Paulo, protagonizou belos gols e jogadas aos torcedores locais tanto pelo Five Island FC quanto pelo Parham FC. E ele foi o convidado para falar sobre como surgiu a proposta de ir jogar futebol na ilha caribenha, dificuldades e como é o futebol em um país que muitos brasileiros, provavelmente, nunca tenham ouvido falar.

Hoje com 29 anos, ele defende as cores do Hai Pong, do Vietnam, mas já passou por clubes brasileiros e do exterior. A trajetória do brasileiro inclui: AD Guarulhos (2010/2012), Grecal-PR (2013), A. E. Santacruzense (2014), Five Island FC-ANT (2014/2015), Tanabi FC (2015), Parham-ANT (2015/2016), Dong Thap-VIET (2016), Nakhom Panthom-TAI (2018/2019) e Hai Phong-VIET (2020).

Antígua e Barbuda?

A possibilidade de jogar no país caribenho surgiu por meio de um empresário que tinha um time amador em Guarulhos pelo qual Diego jogava. Ele conheceu um caribenho que esteve no Brasil para assistir à Copa do Mundo em 2014. Os dois ficaram amigos e faziam negócios internacionais. Assim, o meia atacante brasileiro foi indicado para jogar pelo Five Island FC, de Antígua e Barbuda, na temporada 2014/2015. “Eu fui sem saber de nada, apenas com coragem”, brinca.

Diego Oliveira com as cores do Five Island FC (Reprodução/Facebook)

Ele comenta que só tinha conhecimento sobre as belas praias caribenhas, mas que de futebol mesmo não tinha ouvido falar. Revela que pensou em voltar para o Brasil já na primeira semana. “Eu conversei com os dirigentes e eles quadruplicaram meu salário. Eu já tinha marcado um hat-trick no primeiro jogo e eles queriam muito minha permanência. Como eu estava ganhando bem, resolvi ficar”, explica.

Diego diz que não ficou nervoso em ir para um lugar e futebol do qual não tinha conhecimento algum e atribui isso ao seu espírito aventureiro. Além do país caribenho, também já brilhou no Vietnã (2016 e 2020) e na Tailândia (2018 e 2019).

Dificuldades

Entretanto, ele lembra que não falava inglês. E, para ficar ainda mais difícil, este idioma na região do caribe possui pronúncia diferente, com várias gírias, segundo ele. Essa foi uma preocupação porque tudo que ele precisava fazer era mais difícil do que geralmente seria.

“Nos treinamentos eu tentava conversar com o treinador e não dava certo. Ele falava e eu não entendia nada. Não tinha ninguém para traduzir, então eu tentava me comunicar gesticulando. Essa foi a principal dificuldade porque dentro de campo eu resolvia depois”, lembra.

Em relação a comida, menciona que não teve problemas porque gosta de comida apimentada e de uma alimentação diferente.

 

Futebol na ilha

O futebol em Antígua e Barbuda está dividido da primeira à terceira divisão. A ABFA (Antigua & Barbuda Football Association) Premier League tem 10 clubes. O campeão joga o Caribbean Shield Championship e os dois último são rebaixados a First Division.

Em relação a estrutura do futebol na ilha caribenha, Diego é sincero. “O campo de jogo é ruim, o campo de treino é ruim, as bolas são diferentes umas das outras e não tem uniforme de treino. Que loucura, me lembro como se fosse ontem!”, brinca relembrando os momentos e a aventura que viveu.

Diego Oliveira em ação pelo Parham FC (Reprodução/Facebook)

Para ele, a maior deficiência dos jogadores da liga local era técnica e quem tivesse um pouco mais de habilidade se sobressaía. No aspecto físico, o paulista comenta que os jogadores eram magros, mas tinham força e resistência, além de correrem muito. Os clubes também entendiam muito pouco sobre futebol e os treinamentos eram muito fracos.

Nos dois clubes verificava-se o mesmo: os jogadores trabalhavam durante o dia e treinavam à noite. Dentre as profissões que exerciam ele cita: segurança de banco; outro trabalhava num resort; o filho do presidente do Five Island FC trabalhava no lava rápido. “O zagueiro Chris trabalhava na construção civil e chegava exausto mas é apaixonado por futebol e corria mais que os meninos mais novos”, divertiu-se lembrando.

Segundo o atleta, os treinamentos eram uma loucura, com os jogadores correndo para cá e para lá. “Crianças, vacas, cavalos, os amadores queriam treinar junto com os jogadores do time. Eram duas longas horas de treinos que não acabavam, mas eu me diverti muito. Valeu a pena, aprendi muita coisa lá. Paciência foi uma delas; e também me proteger de pancada, porque lá eu apanhei muito”, conta.

Diego Oliveira no Parham FC (Reprodução/Facebook)

 

Diego Oliveira diz que nessas condições são quase nulas as chances de um jogador da liga local de Antígua e Barbuda jogar em uma liga profissional e que contam-se nos dedos os jogadores que têm condição de jogar em um campeonato fora dali. “Na Jamaica, a situação já é diferente porque, além de velocidade, tem também técnica boa”, comparou.

Em Antígua e Barbuda, os treinamentos que eram para corrigir essas deficiências não ajudam muito. Assim, não teria como evoluir tecnicamente. “Eles deveriam investir mais nos princípios básicos do futebol e nas categorias de base (lá não existe). Fundamentos, trabalho de finalização, cruzamento, passes, essas coisas simples que lá eles pecam muito”, explica.

“Neste cenário é raríssimo que um jogador deixe o país para seguir carreira profissional. Os que conseguem saem muito cedo para a Inglaterra e conseguem clube depois. Aprendem o futebol lá”, completa.

Futuro

Nos anos recentes, apenas o centroavante Javorn Stevens (ex-Greenbay Hoppers) teve uma oportunidade real quando se juntou em 2017 ao Seattle Sounders II, dos Estados Unidos, onde disputou 10 jogos.

Outra alternativa no país tem sido uma parceria com o grupo Free Kick Foundation (FKF) que tem intermediado bolsas-atletas para os jovens jogadores. O winger D’Andre Bishop também esteve em testes nas categorias de base do alemão Fortuna Dusseldorf. O país busca melhorar justamente no que Oliveira destacou: os fundamentos básicos do futebol, que não são aprendidos no país.