Ex-Botafogo e Ceará, Juca dá primeiros passos na carreira de técnico: ‘A vida é um eterno aprendizado’

Imagem: Jota Finkle/SC Internacional
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Por Gabriel Albuquerque

Juliano Roberto Antonello. Você conhece?

Pelo nome, talvez não. Mas é bem provável que você se lembre do Juca, volante revelado pelo Internacional e com passagens por Criciúma, Botafogo, Partizan (Sérvia) e La Coruña (Espanha).

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Em 2021, já aposentado da carreira de jogador, Juca chegou ao Ceará – clube no qual atuou entre 2011 e 2012 – para assumir a função de técnico do time sub-20.

Desde que virou treinador, Juca  passou por clubes também como Inter, Corinthians e Resende, sempre em comissões técnicas ou times de base. As experiências fizeram ele aprender e entender mais como funciona a realidade de um técnico, principalmente no Brasil.

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O Última Divisão conversou com Juca Antonello sobre sua vivência como jogador, os aprendizados utilizados como técnico, sua relação com os jovens atletas, o fato de ser ídolo na Sérvia e muito mais. Confira:

Última Divisão: Juca, depois do término da carreira de jogador, você decidiu se aventurar como técnico, foi auxiliar de base no Resende, depois Corinthians. Você consegue dizer o que trouxe da vivência de jogador para a carreira como técnico?

Juca Antonello: Eu trago comigo principalmente a vivência de vestiário, realmente o que a gente viveu, esse tempo todo que tivemos atuando e isso eu trago comigo. Desde 2014, quando eu parei, tive que repensar muitas coisas e quebrar muitos paradigmas.

UD: Você tem uma bagagem grande de times que jogou, tanto no Brasil quanto na Europa. Na sua opinião, você acha que nossos clubes ainda se encontram atrasado, tanto estruturalmente quanto financeiramente, em relação aos europeus?

JA: Eu tive a oportunidade jogar no La Coruña, na Sérvia, em Dubai… Eu acho que a maioria dos clubes de ponta do Brasil não devem nada a ninguém em estrutura e a condição de trabalho, tanto a nível profissional quanto de base. Isso é muito legal de ver, clube brasileiro desse nível, dando toda a condição para o jogador se desenvolver.

UD: Suas experiências já como técnico e auxiliar rodam pelo Sul, Sudeste e agora no Nordeste. Muito se fala sobre as grandes mídias só darem espaço para clubes desse eixo. Mesmo com as equipes nordestinas fazendo boas campanhas nos campeonatos nacionais. Você concorda com isso? Acha realmente que existe um tratamento diferente com as equipes do Norte e Nordeste?

JA: Isso é perceptível, mas aos poucos os clubes do Nordeste vão ganhando seu espaço, tendo em vista Ceará e Fortaleza, conseguindo fincar o pé na primeira divisão, coisa que pouco tempo atrás não acontecia. Geralmente batiam em cima, caiam, ficavam dois anos e voltavam. Hoje é uma certeza e a cada ano tende a continuar e melhorar, muito por conta da gestão que os clubes estão tendo.

UD: Você é um técnico de somente 41 anos, que vem nessa onda de técnicos dessa nova geração. Os torcedores do Ceará aprovam muito o seu trabalho, inclusive, sendo bastante elogiado pelo técnico Guto Ferreira. Como você lida com esse enaltecimento do seu trabalho? É uma coisa que você já esperava?

JA: Guto e eu temos uma relação muito boa. Ele foi meu técnico e temos uma ótima relação. Eu trato isso com muita naturalidade (quanto ao enaltecimento do trabalho), talvez a vivência como jogador ajude nisso. Eu nunca me empolguei quando as coisas iam bem, como nunca achei que as coisas tinham que acabar quando ia mal. Sempre tive muita seriedade para continuar trabalhando, e aqui eu continuo assim, sempre pronto para aprender. A vida é assim, um eterno aprendizado.

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Imagem: Ceará SC/Site oficial

UD: Quando jogador, você sempre foi um atleta que jogava para o time, sempre valorizou bastante o trabalho em equipe e sempre manteve uma boa comunicação com os colegas de equipe. Agora como técnico, e treinando a garotada, você ainda mantém esse estilo e o incentivo de comunicação com os jogadores?

JA: Realmente, talvez por ter sido um jogador que venceu por ter sido determinado, venceu por esforço, não por talento. Eu prezo e valorizo muito isso, logicamente que a gente percebe o talento e o ‘algo a mais’, mas a gente trata de conversar e fazer eles perceberam que a individualidade (de cada jogador) faz parte do coletivo. O futebol é um esporte coletivo onde a gente precisa interagir e se a gente não tiver essa capacidade de se comunicar, então o jogo sempre será mais difícil. Para mim tem sido fantástica essa passagem pela base, tenho aprendido com eles e isso tem me ajudado tremendamente, talvez se não fosse isso não teria tido essa experiência, e eu to aproveitando ao máximo.

UD: Você fez o curso na Confederação Brasileira de Futebol (CBF) para obter a licença “B” para técnico, e que agora está fazendo para ter a licença “A”. Os cursos na Confederação Brasileira são realmente satisfatórios ou você acha que é necessário sair do Brasil para se aperfeiçoar como técnico?

JA: Eu acho que a ideia é muito válida, a CBF tem tido essa iniciativa de realmente criar uma licença que nos capacite para exercemos nossa profissão em qualquer lugar. Semana passada a nossa licença pró foi conhecida mundialmente, o professor Abel Braga que hoje se encontra no Lugano (Suíça) teve a licença reconhecida e isso foi motivo de muito orgulho. O curso a gente faz diariamente, às vezes uma conversa com alguém que está no meio, que percebeu algo que você não sabe, pode ensinar mais do que sentado dentro de uma sala de aula onde você não percebe nada. O aprendizado é diários, os cursos ajudam mas temos que estar abertos para tudo, ficar atento.

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Imagem: Reprodução, via site oficial do Ceará SC

UD: Com a experiência já adquirida ao longo dos tempos como atleta, como auxiliar e técnico da base. Você acha que já se encontra em condições de assumir uma equipe principal?

JA: Eu to me preparando, sempre falo que a oportunidade nunca avisa quando chegar. Tenho comigo que esse momento é de aprendizado e eu estou aproveitando ao máximo. Como a gente falou, Guto Ferreira nos deu a oportunidade de fazer um jogo no estadual (com os garotos). Isso me deixou muito feliz, querendo ou não foi no profissional, os meninos foram muito bem e isso me encheu de orgulho. Só me mostrou que estou em um bom caminho, todos se desenvolvendo juntos.

UD: Uma pergunta em relação a sua passagem pelo futebol sérvio. Você atuou pelo Partizan e participou do clássico contra o grande rival, Estrela Vermelha. Inclusive, em um jogo onde teve muita briga nas arquibancadas do estádio. A paixão deles pelo futebol é enorme, e muitas vezes agressiva. Pode me dizer a sensação de disputar esse clássico (um dos maiores e mais perigosos do mundo) e pode me falar um pouco da sua experiência por lá?

JA: Para mim foi maravilhoso. Na época eu estava no Botafogo e recebi o convite do Partizan para atuar na Sérvia, talvez os melhores dois anos da carreira como atleta. Eu fui muito feliz lá, foram dois anos de conquistas, onde ganhamos o nacional por dois anos, vencemos também a Copa da Sérvia, enfrentamos grandes equipes, jogamos a Copa da UEFA. A cultura é muito diferente, tive um pouco de dificuldade no começo, mas fui totalmente aberto e pronto para aprender.

UD:O Bombardeiro Brasileiro”, é assim que te chamam por lá?

JA: É, por conta que na época no Botafogo eu fazia alguns gols de fora da área, chutando forte. Logo na chegada me fizeram uma camisa e foi uma sensação indescritível, a torcida lá é apaixonada. E talvez tenha sido tão bom porque ganhamos tudo, querendo ou não os resultados te ajudam. Algum dia certamente eu voltarei, sei que sou muito bem quisto e ao mesmo tempo quero muito retornar ao país e o clube.

UD: Você foi um atleta que jogou em clubes como Internacional, Fluminense, Botafogo, La Coruña, é bastante amado e respeitado no Partizan, entre outros. Então, consegue dizer qual clube mais te marcou como atleta? Aquele que você tem um carinho especial.

JA: Todo clube que eu passei, deixei as portas abertas, talvez isso seja a maior prova de carinho. Muita gente que me reencontra sempre reconhece meu esforço nos clubes que atuei. Apesar de não ter sido um jogador top, eu sempre honrei as camisas dos clubes que passei. Seria até injusto eu escolher um, principalmente no Brasil. Talvez, se estivesse que escolher algum, escolheria o Partizan, por ser de fora e onde eu tive um grande destaque. Foi um lugar onde eu gostei muito de ter atuado, uma hora eu volto.

Gabriel Albuquerque é setorista do Ceará no site Esporte News Mundo

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