Eu não quero que meu filho tenha um heroi chamado Lucas Possignolo

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Por Pedro de Luna*
Publicado originalmente na página do projeto Sem Firula no Facebook.

O saudosismo é um sentimento equivalente àquele filtrinho de Instagram meio com cara de bossa nova, uma coisa que dá preguiça logo de cara. Porém, sempre válido ressaltar, é algo diferente de saudade. É, talvez, a objetificação impotente e ranzinza da saudade, esse sim um sentimento que me lembra que tenho sangue correndo nas veias, mas que admito que o mundo continue girando, melhorando de um lado e piorando de outro. O saudosismo não, só admite pioras, recrudescimentos, depreciações, ontens. É, ora pois, a fotografia da inércia.

Ainda assim, mesmo tentando evitar, ao assistir partidas de futebol profissional ou de base, me flagrei sendo saudosista esses dias. Acho que ainda estou longe dos saudosistas caricatos, como Avallone, Calazans, Morsa e cia., mas é possível que a vida e a paixão pelo futebol que minha retina mirim testemunhou um dia, somadas à mercantilização irrefreada do esporte me levem pra lá, pro panteão dos saudosistas que pararam no tempo e espaço, e ali se fixaram como contentes prisioneiros alheios às novidades.

Quando criança, ouvi mitos e lendas de jogadores com nomes fantásticos: Luís Fumanchu, Cafuringa, Edu Bala, Aírton Pavilhão, Buião, Careca, Roberto Dinamite, Gilberto Sorriso, Serginho Chulapa, Gilmar Popoca, Tostão, Garrincha, Zico, Pelé… Eles sempre pareciam mais grandiosos e certamente cheios de personalidade do que os “Alfredos Di Stefanos”, “Ferenc Puskas”, “Paul Breitners”, “Sir Bobby Charltons” e outros gringos do nome sisudo e pretensamente imponente. Eles eram quase imbatíveis e escreveram páginas indeléveis da história do esporte (como se esses outros também não tivessem escrito…)

Aí eu fui olhar pro presente e vi que essas alcunhas humanas e informais ainda persistiam aqui e acolá. Afinal, para cada Marcio Santos que brotava, tínhamos uns seis Didas. Pra cada Flávio Conceição escalado, tínhamos nove Cafus. Eram tempos de Palhinha, Vampeta (pra quem não sabe, a mistura de vampiro com capeta), Tonhão, Ronaldão, Ronaldinho, Zetti, Viola, Muller, Pintado, Dunga, Tulio Maravilha, Beto Cachaça, Donizete Pantera, Iranildo Chuchu… Pra mim, eram marcas registradas, eram autoridades, sumidades, mesmo que fossem autênticos pernas de pau, como o Gralak (eu ouvia esse nome e pensava no Galak, o chocolate branco) ou o Grotto, aquele péssimo zagueiro do Botafogo nos anos 90, que pelo menos tinha mullets. Era um prazer gritar “Zeeeeeetti no gol!” ou “Vai se fuder, Viola!”. Nós éramos brothers (só que eles ainda não sabiam…).

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“Prazer, Possignolo”

Mas – tudo tem um mas – elas se tornaram exceção. Hoje, tive o desgosto de ver o time junior do São Paulo entrar em campo com 11 jogadores cujo nome parecia ser de deputados estaduais. Lucas Silva, Lucas Fernandes, Lucas Possignolo, Pedro Bortoluzzo, Gustavo Hebling, Gabriel Boschilia, Matheus Queiroz (nome de avenida da Zona Oeste), Leonardo Prado… No jogo do Santos, tínhamos Stefano Yuri, Lucas Otávio, Jorge Eduardo… No profissional, é um tal de Lucas Leiva, Lucas Moura, Lucas Piazon, Lucas Farias, Lucas Gaúcho, Lucas Prata, Rodrigo Caio, Diego Maurício, Maikon Leite, Paulo Miranda, Bruno Uvini, Alex Telles, Rafael Sóbis e assim vai…

Esse fenômeno da leite-com-perização das alcunhas futebolísticas, sabe-se bem, ocorre graças aos players envolvidos com o negócio do futebol. O próprio presidente do Corinthians, o sábio Mario Gobbi, se notabilizou por afirmar que “Futebol é business”. Quem sou eu pra duvidar? Dirigentes, empresários, marqueteiros, experts surgidos sabe-se lá daonde determinam: “Com esse apelido você não vai a lugar nenhum no futebol, garoto”. E colocam um nome e sobrenome pro moleque ficar mais europeu, mais aceitável, mais Champions League, mais negociável. Afinal, estão engordando o gado para o abate. Estão, afinal de contas, posicionando o produto na prateleira. E, como sabe todo comerciante que se preze, o cliente (o colonizador, nesse caso) tem sempre razão.

Hoje, quem fez o gol que classificou o São Paulo foi o Lucas Possignolo. Nada contra o rapaz, que é até um bom zagueiro, mas esse gol me fez pensar mais do que deveria… Fico torcendo muito pelo sucesso de jogadores como Foguete, Obina, Negueba, Pipico, Flávio Caça-Rato, Caramelo, Aloísio Boi Bandido e outros heróis da resistência dos nomes brasileiros. Eu não quero que meu filho tenha um herói chamado Lucas Possignolo.

Ass: o (futuro) saudosista.

*Este texto é de responsabilidade do autor e não representa necessariamente a opinião do site.
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