Único jogo do Pelé em Floripa vira livro: “homenagem a avaianos e santistas”

Pelé em Floripa. Polidoro é o menino a esquerda do Rei
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O maior atleta de futebol do século XX, Edson Arantes do Nascimento, o Pelé, continua sendo o jogador mais admirado de todos os tempos. Inúmeros são os livros escritos sobre o Rei. Mas o jornalista catarinense Polidoro Júnior conseguiu resgatar um episódio curioso sobre a carreira do ídolo: o único jogo disputado por Pelé em Florianópolis. O amistoso disputado entre Santos e Avaí em 1972 virou livro: Um Jogo Inesquecível, que será lançado na próxima segunda (dia 25), no hotel Majestic em Florianópolis (SC), às 20h.

Polidoro Júnior entrevistou todos os jogadores que participaram da partida. Menos o Rei. “Pelé anda muito blindado e isso dificulta qualquer aproximação, até para uma simples entrevista”, explicou o autor. O Última Divisão conversou com Polidoro Júnior.

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Última Divisão- Como surgiu a ideia do senhor escrever o livro Um Jogo Inesquecível?

Polidoro Júnior- Tenho 35 anos de imprensa esportiva em Santa Catarina e ainda me restavam alguns projetos pessoais. Tenho um arquivo de nove mil fotos e mantenho a seção Túnel do Tempo na minha coluna do Notícias do Dia e no meu site  (www.polidorojunior.com.br). Como já havia publicado o livro O Jogo da Memória – Um estádio no coração da cidade, em outubro de 2012, esse livro Um Jogo Inesquecível já estava na lista de espera e eu apenas o coloquei em prática. Idealizo, planejo e faço.

UD- O senhor assistiu esse jogo no estádio. Quais são as suas melhores lembranças dessa partida?

PJ- Eu tenho uma foto em que apareço aos oito anos de idade ao lado do Pelé nessa mesma partida, É que meu pai, Dakir Polidoro, era o presidente da Câmara de Vereadores de Florianópolis e estava na homenagem feita no gramado ao Rei. Sou a única criança ao redor das autoridades, radialistas e de Pelé. Lembro que era muita gente, mas não cabia mais ninguém, e todos foram por causa do Santos e do Rei.

Pelé em Floripa. Polidoro é o menino a esquerda do Rei
Pelé em Floripa. Polidoro é o menino à esquerda do Rei

UD- Qual importância esse amistoso contra o Santos teve para o Avaí que ganhou os estaduais de 1973 e 1975?

PJ- O Figueirense, fundado em 1921, estava bem e era comandado pelo major José Mauro da Costa Ortiga. O Avaí, de 1923, tinha Fernando Bastos, deputado estadual, além de João Salum, Gito Daux, e mais uma equipe de abnegados e influentes avaianos. O rival tinha se sagrado campeão catarinense em 1972, e o Avaí precisava dar uma resposta. Começou trazendo o Santos, quase completo, porque faltou apenas o Carlos Alberto Torres, que estava lesionado. Desse jogo em diante, o Avaí cresceu muito e se sagrou bicampeão catarinense, além de ter contratado Zenon, do Hercílio Luz de Tubarão.

UD- Quais informações inéditas o livro revela?

PJ- Através de depoimentos, como de Alcindo, autor dos dois gols do Santos, de Lica, autor do gol do Avaí no Cejas, temos depoimentos inéditos de Oberdan, Rubão, Orivaldo, Balduíno, enfim, de quem fez parte daquele histórico amistoso para Santa Catarina. Para o Santos, foi mais um amistoso. Sobre a vinda do Santos, há uma história interessante, porque foi o pagamento de uma “dívida” de Oberdan com Gito Daux, coisas da infância de ambos.

UD- Além deste jogo, o  Pelé disputou mais jogos no estado de Santa Catarina?

PJ- Sim! Relatamos isso no livro, justamente sobre a passagem dele por Santa Catarina, que começou por Blumenau (Olímpico), onde o Santos goleou por 8 a 0, e o Pelé fez cinco gols; Joinville, em dois jogos com o América, e esse de Florianópolis em 1972, sem gol de Pelé. O Rei ainda esteve em Taió, mas como estava lesionado, não jogou, apenas cumpriu a agenda da cota integral, que exigia a presença dele no estádio.

Em toda sua carreira, Pelé disputou cinco jogos em Santa Catarina
Em toda sua carreira, Pelé disputou cinco jogos em Santa Catarina

UD- Você entrevistou diversas pessoas para a realização dessa obra?

PJ- Todos, menos a estrela maior. Pelé anda muito blindado e isso dificulta qualquer aproximação, até para uma simples entrevista. Esse livro é uma homenagem aos avaianos e santistas, mas principalmente à memória do nosso futebol. Ex-atletas, o árbitro do jogo, José Carlos Bezerra, Alcindo e Lica, autores dos três gols, torcedores que eram crianças e não esquecem jamais do agito que causou na região, já que o público foi de mais de 19 mil torcedores no acanhado estádio Adolpho Konder.

UD- O senhor tem projetos de escrever mais livros sobre memória esportiva?

PJ- Não resta a menor dúvida, porque sou um dos poucos aqui em Santa Catarina que valoriza o passado, os feitos das nossas equipes, os jogadores, a maioria esquecidos e passando dificuldades, etc. Já tenho em mente o livro que vai contar a história dos 90 anos da maior rivalidade do futebol catarinense, Avaí e Figueirense, completados em 2014. Há outros dois projetos em que fui sondado, mas ainda não dei a resposta. Quero enaltecer toda a minha equipe, briosa e competente.

UD- Qual foi a sua maior dificuldade na realização desta obra?

PJ- Não é falta de modéstia, mas nenhuma. Idealizei, reuni o meu grupo, busquei parceiros, e o livro já está sendo impresso. Fui agraciado com a Lei Rouanet, apoiado pelo Governo Federal, incentivo também do município de Florianópolis, além do Prêmio Elisabete Anderle, do governo de Santa Catarina. Espero que os próximos projetos sejam tão premiados como esse.

UD- O que o senhor espera com a publicação do livro Um Jogo Inesquecível?

PJ- Convivo muito com ex-atletas e a grande maioria vive de bicos, de favores e anda mal das finanças. Era um tempo em que eles jogavam bola de verdade, enquanto qualquer um hoje em dia dá um chutinho e já pede R$ 40 mil de salários e assessor de imprensa. Eu quero que não se esqueçam do passado. E só ver o sorriso no rosto de um ex-atleta já me deixa feliz. A riqueza desse e de outros livros é essa: preservar a nossa memória. Dinheiro não se ganha e também ele acaba, mas o livro fica eternizado e os ex-atletas se sentem valorizados.

UD- O senhor acredita que a cobertura esportiva realizada pelos veículos de imprensa, como Rio e São Paulo, esquecem outros centros como Florianópolis?

PJ- O nosso país tem dimensões continentais e isso dificulta bastante, mas é da cultura nacional e dos grandes meios de comunicação valorizar pouco o futebol catarinense. Sempre nos trataram como o zero da 101 (rodovia que corta o estado) e isso causa alguma revolta, mas é preservando, criando, aparecendo, tendo um futebol de qualidade, que aos poucos isso vai mudando. E eu acredito que estou fazendo a minha parte, porém tem muito mais a fazer ainda e eu não vou parar tão cedo.

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