Espanha: mais uma vez, o futebol marca a mudança política

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Quem olha os jornais espanhóis nesta quinta-feira (19) esperando um mar de lágrimas pela eliminação diante do Chile na Copa do Mundo de 2014 leva um susto. É claro que as capas das publicações estão cheias de referências aos rostos tristes de Casillas, Xavi, Iniesta e Diego Costa, mas a área mais nobre das manchetes tem outro dono.

Desde a 0h desta quinta-feira, Felipe VI é o novo Rei da Espanha. Sucessor do pai, Juan Carlos I, o herdeiro da casa de Bourbon foi oficialmente coroado pela manhã, 17 dias depois de Juan Carlos I anunciar que abdicaria do trono em favor do caçula.

É claro que os jornais espanhóis aproveitaram o momento para destacar os dois principais fatos da quinta-feira, 19 de junho de 2014. Muitos deles fizeram referências à derrota da Espanha para o Chile, com referências ao momento da nobreza local.

E não precisa ser um especialista em futebol para saber que o futebol é muito ligado à política. A Espanha não foge à regra. Em um país no qual bascos e catalães ameaçam romper com Madri a cada momento, em que o Real Madrid é sempre lembrado por supostos favorecimentos por parte do General Francisco Franco, o próprio rei é homenageado com uma competição que leva seu título no nome: a Copa do Rei.

A Copa do Rei foi criada em 1902, no reinado de Afonso XIII. Na ocasião, Carlos Padrós – então presidente da Federação Madrilena de Futebol – sugeriu que os clubes espanhóis disputassem uma competição para homenagear a coroação do monarca, que havia completado 16 anos e poderia finalmente assumir o trono. Surgiu então a Copa da Coroação, disputada inicialmente por cinco clubes: Barcelona, Madrid (o futuro Real Madrid), New Foot-Ball (de Madrid), Español (o atual Espanyol) e Viscaya (uma união do Athletic Bilbao com outros clubes de Biscaia). Na final, o time basco venceu o Barcelona por 3 a 1 e ficou com a taça.

A partir de 1903, o torneio passou a se chamar Copa de Su Majestad el Rey Alfonso XIII e a contar com a chancela da Real Federação Espanhola de Futebol (RFEF), que não reconhece o título de 1902 como o primeiro do Athletic Bilbao no torneio. E até que fosse criado o Campeonato Espanhol em 1929, a Copa do Rei permaneceu como a principal competição nacional do futebol local.

A competição mudou de ares em 1931, com a ascensão da Segunda República Espanhola. Naquele ano, o próprio Afonso XIII decretou o fim da monarquia e a proclamação da república como resultado das eleições municipais, no qual os representantes antimonarquistas tiveram maioria dos votos por todo o país – resultado da ditadura de Miguel Primo de Rivera como primeiro ministro entre 1923 e 1930. Niceto Alcalá-Zamora assumiu o posto de primeiro ministro e, posteriormente, a presidência espanhola.

O fim do reinado da seleção espanhola aconteceu um dia antes da coroação de Felipe VI, novo rei do país; muito ligado à família real, futebol da Espanha reflete momento de desafio e incerteza pelo qual passa a política do próprio país (Crédito: Reprodução)

No breve período republicano da Espanha, entre 1931 e 1939, a competição passou a se chamar Copa do Presidente da República, embora tenha sido disputada com este nome em apenas quatro edições (1933 a 1936). Porém, com a ascensão da Confederação Espanhola de Direitas Autônomas (Ceda), um partido político conservador, o caos político da Espanha se consolidou. Em 1936, o assassinato de José Castillo (um importante membro da União Militar Republicana Antifascista) foi o estopim para a Guerra Civil Espanhola.

Neste contexto, ganhou força o nome do General Francisco Franco, responsável por reprimir com violência uma greve de mineiros asturianos em 1934 – o episódio valeu a ele o apelido “Açougueiro das Astúrias”. Então comandante do exército no norte do Marrocos, Franco levou as tropas de volta para a Espanha. Embora tenha tentado um golpe militar sem sucesso em 1936, durante o governo do presidente Manuel Azaña, Franco só assumiu o poder ao fim dos três anos de Guerra Civil (1936-1939).

Em 1939, a Copa do Presidente virou o Troféu de Sua Excelência El Generalísimo, passando a adotar seu nome oficial – Copa de Sua Excelência El Generalísimo – em 1940. Nem mesmo a participação espanhola na Segunda Guerra Mundial foi capaz de paralisar o torneio.

Desta forma, a segunda mais importante competição do futebol espanhol homenageou a ditadura do “Generalísimo” até 1976, um ano depois da morte de Franco. Sem conseguir sustentar o regime depois de décadas, o ditador redesignou Juan Carlos de Bourbon (neto de Afonso XIII) com príncipe da Espanha em 1969. Com a morte de Franco, Alejandro Rodriguez de Valcarcel assumiu a regência do país, concluindo a transição entre ditadura e monarquia. Juan Carlos I foi coroado em 22 de novembro de 1975.

Desde então, a Copa do Rei voltou a seu nome original – ou quase isso. A partir de 1977, o torneio passou a se chamar Copa de Su Majestad el Rey Don Juan Carlos I. Na temporada 2014/2015, deverá ser disputada como Copa de Su Majestad el Rey Don Felipe VI. No final da temporada, em uma Espanha envolta em problemas sociais e políticos, Felipe VI estará lá para entregar a taça ao capitão do time vencedor, como de costume, em um hábito que a monarquia não fará questão de se modernizar.

Crédito: Casa de S. M. El Rey/Borja Fotógrafos)
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